Cerca de 120 mil mortes no Brasil, entre 2000 e 2019, tiveram associação direta com ondas de calor. O número corresponde a 0,6% da mortalidade total registrada no período, excluindo-se óbitos por causas externas como acidentes e violências. O dado integra um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), divulgado nesta quarta-feira (17), que aponta ainda um aumento no risco de internações por doenças respiratórias, renais e gastrointestinais durante episódios de temperaturas extremas. A pesquisa analisou 5.566 municípios brasileiros e alerta para a escalada dos impactos do calor extremo na saúde pública.
O estudo Saúde e ondas de calor no Brasil: evidências sobre mortalidade, morbidade hospitalar e implicações para o SUS detalha a vulnerabilidade da população. Os autores identificam uma ligação consistente entre a exposição ao calor e o crescimento da mortalidade, especialmente entre idosos. Pessoas com doenças respiratórias preexistentes, mulheres e indivíduos com menor escolaridade também exibem maior risco de óbito ou agravamento de quadros de saúde.
A coordenação técnica do projeto ficou a cargo do Ciência&Clima, uma parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
O ProAdapta, cooperação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil (MMA) com o Ministério Federal do Meio Ambiente, Ação Climática, Conservação da Natureza e Segurança Nuclear (BMUKN) da Alemanha, também colaborou.
Os dados abrangem quase todo o território nacional. Apenas quatro municípios — Itaparica (BA), Madre de Deus (BA), Fernando de Noronha (PE) e Bombinhas (SC) — foram excluídos por incompatibilidades técnicas e administrativas.
Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fiocruz, ressaltou a abrangência do levantamento. “A inovação deste estudo está em integrar, em escala nacional, a caracterização das ondas de calor, considerando frequência, intensidade e duração, com uma análise detalhada de seus impactos sobre internações hospitalares e mortalidade”, declarou. Ela complementa: “Percebemos que os efeitos são observados em todo o território. Quando a gente olha para os resultados, consegue ter uma dimensão melhor do problema e orientar políticas públicas mais eficazes.”
Ismael Silveira, da UFBA, alertou para a gravidade dos resultados. “Uma importante implicação é o reconhecimento das ondas de calor como um risco importante para a saúde pública”, disse. O pesquisador defende a criação de planos de contingência específicos, além de fortalecer a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) na antecipação e resposta a esses eventos.
Internações por Doenças e Grupos Vulneráveis
O levantamento aponta que as ondas de calor ampliam de forma consistente o risco de internações por doenças respiratórias, como pneumonia, e enfermidades geniturinárias, a exemplo da insuficiência renal. Isso ocorre em praticamente todas as regiões do país, pressionando o sistema de saúde.
Entre crianças com menos de dez anos, as gastroenterites surgem como a principal causa de internação associada a episódios de calor extremo. A maior vulnerabilidade à desidratação e as alterações ambientais que impactam a qualidade da água e a conservação de alimentos contribuem para esse cenário.
A população com mais de 60 anos apresenta elevada sensibilidade para doenças respiratórias, renais e metabólicas, incluindo diabetes. O estudo sugere ainda que eventos cardiovasculares durante ondas de calor podem evoluir rapidamente para quadros graves, culminando em morte antes da hospitalização. Este dado sublinha a urgência do atendimento e a letalidade silenciosa do calor extremo para corações debilitados.
Sávio Raeder, supervisor de Impactos, Vulnerabilidades e Adaptação do projeto Ciência&Clima, destacou as desigualdades sociais expostas pelos dados. “Na morbidade hospitalar, exploramos diferentes desfechos de saúde, um tema ainda pouco estudado no país”, afirmou. Ele complementou: “Na mortalidade, identificamos um gradiente social de risco, com maior aumento percentual do risco de morte entre pessoas com menor escolaridade. Esses resultados reforçam a necessidade de direcionar ações de adaptação e proteção aos grupos mais vulneráveis.”
Onda de Calor: Frequência e Intensidade Crescentes
Entre 2000 e 2019, a maioria dos municípios brasileiros registrou aumento na frequência e na intensidade das ondas de calor. Eventos mais frequentes e duradouros aconteceram nas regiões Norte e Centro-Oeste, áreas que já sofrem com temperaturas elevadas. Já no Sul e Sudeste, os episódios se destacaram pela maior intensidade em relação às médias históricas, expondo regiões que tradicionalmente não enfrentavam temperaturas tão elevadas a riscos antes incomuns.
Os pesquisadores defendem o fortalecimento de sistemas de monitoramento e alerta antecipado para ondas de calor. Além disso, propõem a incorporação de informações climáticas às ações de vigilância epidemiológica e ambiental do SUS. Essas medidas se mostram essenciais para proteger a população e mitigar os efeitos da mudança climática na saúde.
Maurício Guerra, diretor de Meio Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e integrante do projeto ProAdapta, foi incisivo. “A pesquisa traz uma mensagem inequívoca: o calor extremo já está custando vidas no Brasil”, disse. Guerra reforçou a necessidade de ações rápidas: “Os mais de 120 mil óbitos associados às ondas de calor revelam que a adaptação à mudança do clima precisa avançar com urgência, ampliando a construção de cidades verdes e resilientes.”
Contexto
As ondas de calor, intensificadas pelas mudanças climáticas, representam um desafio crescente para a saúde pública global e brasileira. O Brasil, um país tropical com vastas regiões quentes, enfrenta um aumento na frequência e intensidade desses eventos extremos. A saúde humana é diretamente afetada pela elevação das temperaturas, que pode levar à desidratação, insolação e agravar condições preexistentes, como doenças cardiovasculares, respiratórias e renais. O impacto é mais acentuado em populações vulneráveis, como idosos, crianças e indivíduos com baixo acesso a recursos. Sistemas de saúde, como o SUS, veem-se cada vez mais pressionados a desenvolver estratégias de adaptação, incluindo alertas climáticos, infraestrutura resiliente e campanhas de conscientização, para mitigar os efeitos a longo prazo desses fenômenos climáticos extremos.