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Folha Jundiaiense

Vozinha clama por felicidade e exige mais apoio para seu país

O goleiro Josimar José Évora Dias, conhecido como Vozinha, de 40 anos, fez história na Copa do Mundo. Sem contrato ativo com um clube, ele estreou contra a favorita Espanha e foi o principal responsável pelo empate em 0 a 0, resultado que o transformou em uma celebridade mundial e no melhor jogador em campo, segundo a Fifa.

A atuação surpreendente catapultou a visibilidade do goleiro cabo-verdiano. Em poucas horas, Vozinha conquistou mais de 12 milhões de seguidores nas redes sociais e se tornou um dos rostos da competição.

Essa ascensão tardia reflete a trajetória incomum de Vozinha. Ele se profissionalizou aos 25 anos, idade que muitos consideram o auge ou mesmo o fim de uma carreira de base.

Agora, aos 40 e livre no mercado, o arqueiro da ilha de São Vicente busca um novo contrato. Ele espera que a fama repentina lhe abra portas para ser “feliz” em seus últimos anos como atleta.

Sua esperança vai além do benefício pessoal. Vozinha vislumbra que a projeção da seleção de Cabo Verde na Copa do Mundo traga melhores condições e oportunidades para os jovens talentos de seu país.

Da Periferia de São Vicente ao Estrelato Mundial

Em entrevista exclusiva ao correspondente André Vieira, da Telesur, parceira da TV Brasil, Vozinha contou sua história, as expectativas para os próximos jogos e a conexão com a cultura brasileira.

“Tranquilo. Obviamente, a malta [galera] ficou muito feliz pelo resultado, pelo esforço e pela exibição que conseguimos”, declarou Vozinha sobre o empate com a Espanha. Ele ressaltou a qualidade do grupo e a capacidade de competir.

“Tudo pode acontecer em 90 minutos, mas nós estamos aqui para competir, para dignificar o nome de Cabo Verde”, afirmou o goleiro. O time segue focado, ciente do “longo caminho pela frente”.

A repercussão no Brasil foi imediata. Questionado sobre o fenômeno nas redes sociais, Vozinha disse ser “realmente incrível” e que não esperava tal alcance. “Gostaria de agradecer a todos que aderiram a isso, a todos os seguidores, a todos os brasileiros”, pontuou.

A história de sua mãe também ganhou destaque. Havia informações desencontradas sobre as dificuldades para ela viajar à Copa, incluindo a necessidade de uma caução de US$ 15 mil exigida pelos Estados Unidos. Vozinha esclareceu que a mãe, que nunca viajou para fora de Cabo Verde e não fala outras línguas, inicialmente resistiu à ideia.

“Minha mãe nunca viajou para fora de Cabo Verde. Ela nem gosta de ir para as outras ilhas”, disse. Ele relatou que ela preferia o dinheiro da caução para outras finalidades, mas depois se sensibilizou. O goleiro confirmou que, após a entrevista, sua mãe obteve o visto e se preparava para a viagem, com a ajuda de familiares e da federação, para que não viajasse sozinha.

O apelido Vozinha remonta à infância. “Cresci com os meus avós, daí que vem o meu nome”, explicou. O goleiro, que se descreve como “muito rebelde” na infância, buscava seus avós após brigas de rua, o que lhe rendeu a alcunha.

A paixão pelo futebol surgiu cedo. “Sempre gostei de ir à baliza”, contou. Embora também jogasse na linha, a posição de goleiro o atraiu desde criança. Uma fase desafiadora veio na categoria sub-17, quando sua baixa estatura o tirou de alguns jogos, preterido por arqueiros mais altos.

“Sempre fui uma pessoa muito focada, muito dedicada, muito disciplinada. Sempre sonhei com o futebol, em ser profissional”, afirmou. A carreira profissional começou tarde, com passagens por clubes como Progresso (Angola), Zimbru (Moldávia), Gil Vicente (Portugal), AEL Limassol (Chipre), e GD Chaves (Portugal). Em maio, seu contrato terminou, tornando-o um jogador livre.

O futebol, para Vozinha, representa mais que um esporte. O futebol conseguiu me dar condições para ajudar a minha avó, que foi alguém que fez tudo para que eu tivesse uma boa educação e que, no final, teve Alzheimer”, declarou. Ele também construiu a casa da mãe com os ganhos da carreira. Vozinha se define como uma pessoa “muito humilde, respeitadora, amiga de todos, disciplinada e trabalhadora”.

A influência brasileira é perceptível em Cabo Verde. “Nós, em Cabo Verde, apesar de sermos muito ricos na cultura, na música, sempre ouvimos os artistas brasileiros”, disse. Ele citou Roberto Carlos, Ivete Sangalo, Cidade Negra, Revelação e Seu Jorge.

Sobre seus ídolos, Vozinha lista Michel Preud’homme, do Benfica, além de nomes brasileiros como Rogério Ceni e o paraguaio Chilavert, por gostar de cobrar pênaltis quando jovem. Ele também citou Gianluigi Buffon e Edwin van der Sar como referências mundiais.

A emoção toma conta ao falar do reconhecimento. “No nosso país, o reconhecimento é muito pouco”, lamentou. Ele vê a seleção, os “Tubarões Azuis”, como um motivo de orgulho crescente. “As crianças se espelhando na gente”, afirmou. O goleiro se emociona ao lembrar que seus avós, já falecidos, foram as pessoas que “deram tudo para eu ser o Vozinha que sou hoje”.

Brasil e Cabo Verde guardam muitas semelhanças, segundo ele. “É uma cultura muito igual. Somos países de língua portuguesa e também fomos colonizados”, disse. A alegria do povo, o clima, as praias e o gosto pela diversão são pontos de contato entre as duas nações.

Os Próximos Desafios na Copa e o Futuro da Carreira

Cabo Verde agora enfrenta Uruguai e Arábia Saudita. Vozinha projeta partidas difíceis. “O Uruguai é uma seleção que tem uma alma, uma garra, que é extraordinária. Uma seleção que já foi campeã mundial, com jogadores top mundiais”, analisou.

A Arábia Saudita, ele lembra, já possui mais experiência em Copas e surpreendeu ao vencer a Argentina no último Mundial. “Mas temos que pensar em nós, entrar no campo como entramos com a Espanha, não vendo caras, não vendo nomes”, declarou.

Sobre o futuro, Vozinha é direto. Ele deseja levar Cabo Verde o mais longe possível no Mundial. A nível pessoal, espera que sua performance abra portas para um “bom contrato” em um clube onde possa “ser feliz” nos próximos dois a quatro anos de carreira.

“Eu sou grato por estar aqui na Copa e estar a representar o meu país. Era só um sonho e eu estou na realidade”, disse, refletindo sobre sua situação. Ele finalizou com uma mensagem de gratidão pelo carinho recebido e um pedido para que continuem apoiando Cabo Verde.

Contexto

O futebol em Cabo Verde, embora crescente em projeção internacional, enfrenta desafios estruturais e de investimento. A visibilidade alcançada pela seleção em Copas do Mundo anteriores e agora com a atuação de Vozinha, é um catalisador para a discussão sobre o desenvolvimento do esporte no arquipélago. O país, composto por dez ilhas vulcânicas, tem sua identidade forjada em uma mistura de influências africanas e europeias, com forte ligação cultural com nações lusófonas. O sucesso de jogadores como Vozinha pode inspirar uma nova geração e atrair a atenção para a infraestrutura e a formação de atletas locais, impactando o futuro do futebol cabo-verdiano a longo prazo.

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