A guinada conservadora do eleitorado brasileiro, manifestada pela maioria no Congresso Nacional e pela vantagem obtida por Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno das eleições de 5 de novembro, projeta o Brasil para uma redefinição significativa de sua posição geopolítica. O país caminha para uma influência acentuada dos Estados Unidos, especialmente sob a administração de Donald Trump, e passa a se afastar da China no campo político, segundo análises de think tanks globais que monitoram a América Latina. Essa mudança estratégica pode ter amplas consequências para o comércio, o multilateralismo e a agenda ambiental do Brasil.
Alinhamento com Trump e o Xadrez Latino-Americano
Think tanks renomados observam atentamente a potencial mudança de rumo na política externa brasileira. A Chatham House, por exemplo, analisa que uma vitória de Flávio Bolsonaro consolidaria outro governo sul-americano favorável à administração Trump. Essa adesão expandiria a lista de líderes regionais já alinhados à Casa Branca, seja por laços comerciais ou ideológicos, incluindo nações como Colômbia, Venezuela, Paraguai, Argentina, Chile, Peru, República Dominicana e Equador. A ascensão de um governo Bolsonaro, portanto, reforçaria a presença americana em um continente estratégico.
Christopher Sabatini, diretor do Programa América Latina da Chatham House, detalha que a presidência de Flávio Bolsonaro alteraria agendas de política externa historicamente focadas no Partido dos Trabalhadores (PT). Tal mudança desencadearia, senão uma retirada, ao menos um papel significativamente reduzido do Brasil no grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Trump criticou abertamente o bloco por suas “políticas antiamericanas”. Desde 2024, o BRICS agregou membros como o Irã, um país frequentemente problemático para os EUA, e passou a defender pautas que confrontam diretamente os interesses americanos, como a desdolarização nas relações comerciais globais, buscando reduzir a hegemonia do dólar.
O Multilateralismo Brasileiro Sob Questionamento
Afastar-se do BRICS é apenas uma parte da preocupação com o futuro multilateralista do Brasil. Sabatini também alerta para o risco de o país se distanciar de outros fóruns globais importantes, como a Organização das Nações Unidas (ONU), o G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo) e a Conferência das Partes (COP) sobre o clima. Nesses palcos, Brasília historicamente reivindicou sua posição como um representante-chave do Sul Global, articulando interesses de nações em desenvolvimento. No entanto, o próprio especialista reconhece que, mesmo sob gestões do PT, o histórico do Brasil em apoiar o multilateralismo tem sido irregular, com oscilações no engajamento e nas prioridades.
Ainda sobre o alinhamento com Washington, Sabatini pondera que um “novo governo Bolsonaro” não representaria necessariamente um triunfo completo para a chamada “Doutrina Donroe” de Trump, que visa estabelecer a supremacia americana no Hemisfério Ocidental. Embora um Brasil liderado por Flávio Bolsonaro possa se alinhar culturalmente com as “batalhas anti-woke” de seu pai, essa sintonia nem sempre se traduziria em apoio irrestrito à Casa Branca de Trump, especialmente no campo do comércio internacional.
O maior dilema estratégico reside na relação com a China. Sabatini analisa que um possível governo do candidato do PL hesitaria em reduzir o comércio com Pequim, que é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009. O impacto econômico de tal decisão seria gigantesco, afetando setores vitais como agronegócio e mineração. Contudo, a China pode reagir. “Pequim pode tentar reduzir suas importações brasileiras, caso Bolsonaro se afaste demais ao desafiar a potência asiática,” adverte o especialista. Essa potencial retaliação chinesa representa um risco econômico substancial para o Brasil.
Brasil: O “Grande Prêmio” na Estratégia “America First” de Trump
A perspectiva da Brookings Institution corrobora que uma vitória de Flávio Bolsonaro se traduziria em um grande triunfo para Donald Trump. A avaliação é feita com base na intromissão reiterada do ex-presidente americano nessa disputa eleitoral brasileira, evidenciando o alto valor estratégico que Washington atribui ao Brasil. Essa interferência sublinha a importância do pleito para a política externa americana na região.
O think tank lembra que, desde julho de 2025, o governo dos EUA impôs tarifas comerciais pesadas sobre exportações brasileiras. Essa medida serviu como retaliação à suposta “caça às bruxas” do judiciário brasileiro contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio. A imposição dessas tarifas demonstra a capacidade e a disposição dos EUA em usar instrumentos econômicos para influenciar o cenário político de outros países, e a retirada delas poderia ser uma das “recompensas” de um alinhamento.
O Brasil, a maior potência da América Latina, é visto como o “grande prêmio” em uma série constante de aliados de direita que ascendem ao poder na região. Um retorno de um Bolsonaro ao poder seria decisivo para consolidar a missão da Casa Branca de Trump de realinhar as nações latino-americanas como aliados confiáveis dos EUA. Esses aliados estariam prontos para cumprir ordens de Washington para avançar sua agenda “America First”. Isso incluiria abordagens militarizadas ao crime e ao tráfico de drogas, repressão à migração, e acesso preferencial a minerais críticos e energia, todos pontos centrais da política de Trump.
Para a Brookings, sob essa configuração, a defesa da democracia e dos direitos humanos, do Estado de Direito, da proteção ambiental e de abordagens equilibradas à segurança pública seriam ainda mais negligenciadas, se não descartadas. A substituição de Luiz Inácio Lula da Silva por um aliado político próximo de Trump, como Flávio Bolsonaro, consolidaria dramaticamente a influência regional de Trump, mesmo que o Brasil não apoiasse plenamente os EUA em todos os setores, como na restrição ao comércio com a China.
Flávio Bolsonaro teria, na visão da Brookings, uma “dívida” com Trump por sua ajuda. Essa assistência teria sido crucial para argumentar que sua abordagem de “mano dura” no combate ao crime organizado conquistaria o favor de Washington, beneficiando os brasileiros que buscam maior segurança em seus bairros. Essa dinâmica levanta a questão de quais concessões o Brasil poderia fazer. Outro ponto citado é a possibilidade de o candidato do PL ceder em outras prioridades para Washington, como no acesso preferencial ao grande estoque de minerais críticos do Brasil. O país possui reservas importantes de nióbio, grafite e terras raras, estratégicos para a transição energética e tecnológica global. Diante de tais grandes riscos e oportunidades, seria razoável esperar que a Casa Branca continuasse a interferir na política interna do Brasil até a posse em Brasília, em janeiro do ano que vem, e além.
Autonomia, Soberania e o Dilema da Política Externa
Durante o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil buscou manter relações equidistantes e pragmáticas tanto com os Estados Unidos quanto com a China. Essa postura é descrita por autoridades brasileiras como “multialinhamento”, uma estratégia que envolve manter uma relação de trabalho com Washington, expandir as relações comerciais com Pequim, e utilizar plataformas como o BRICS, o G20 e a COP para ampliar o espaço diplomático de manobra do Brasil no cenário internacional.
O think tank destaca que essa estratégia brasileira se baseia na premissa de que países fora do nível de superpotência têm maior probabilidade de preservar autonomia significativa quando utilizam coalizões e instituições multilaterais para melhorar sua alavancagem de negociação. O primeiro-ministro canadense Mark Carney apresentou um argumento análogo em seu Discurso de Davos, defendendo a cooperação entre potências médias diante da coerção econômica e da renovada rivalidade entre grandes potências. Seu alerta de que países ausentes da mesa de negociações correm o risco de acabar “no cardápio” ecoa uma preocupação brasileira de longa data: a de que negociações bilaterais desiguais deixam até mesmo estados capazes vulneráveis quando grandes potências dividem o mundo em esferas de influência.
No entanto, um alerta crucial é feito: uma possível mudança na política externa sob Flávio Bolsonaro não necessariamente produziria um realinhamento total do Brasil. O peso da China nas relações comerciais e de investimento do Brasil imporia limites substanciais a qualquer esforço de privilegiar Washington às custas de Pequim. A China tem sido o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, e é um mercado gigantesco para produtos agrícolas como soja, petróleo bruto e minério de ferro. Qualquer ruptura abrupta causaria um abalo econômico severo no Brasil, afetando milhões de produtores e trabalhadores.
Um precedente importante é lembrado: durante a administração de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, a retórica anti-China não impediu o comércio bilateral de alcançar níveis recordes. Além disso, o Brasil resistiu à pressão dos EUA para excluir a Huawei de sua implementação da tecnologia 5G. Essa experiência demonstra a resiliência dos laços econômicos e a capacidade brasileira de manter uma certa autonomia tecnológica mesmo sob pressão. Uma retirada brasileira dos BRICS também não seria inevitável. Os interesses exportadores do Brasil, as restrições institucionais e a preferência de longa data por relações externas diversificadas limitaram o esforço anterior de Jair Bolsonaro para reorientar a diplomacia brasileira; provavelmente, limitariam também uma administração de Flávio Bolsonaro.
Visões Contrastantes: BRICS, EUA e o “Escudo das Américas”
Na visão do Council on Foreign Relations (CFR), Lula e Flávio Bolsonaro apresentam visões diametralmente opostas para a política externa do Brasil, que historicamente enfatizou a diplomacia e o multialinhamento. Duas das relações bilaterais mais importantes do país são com os Estados Unidos e a China, e as abordagens propostas para cada uma delas divergem drasticamente.
Lula aproximou o Brasil da China desde que assumiu o cargo no início de 2023. Os dois países assinaram dezenas de acordos em áreas como comércio, tecnologia e proteção ambiental. Em novembro de 2024, Brasil e China anunciaram a elevação de sua parceria bilateral a uma “comunidade China-Brasil com um futuro compartilhado para um mundo mais justo e um planeta mais sustentável”. Isso simboliza uma aliança estratégica e de longo prazo, com profundo impacto em múltiplas esferas.
Em contraste, a agenda proposta por Flávio Bolsonaro defende laços mais fortes com os Estados Unidos, uma direção que seu pai também perseguiu como presidente. Se Flávio Bolsonaro vencer a eleição, o Brasil poderá buscar participar da iniciativa de segurança regional Escudo das Américas da administração Trump. Essa aliança militar, à qual Lula se recusou a aderir, tem como objetivo central o combate ao tráfico de drogas e ao crime organizado, inclusive por meio do uso de força militar letal. A adesão implicaria uma integração maior das forças de segurança brasileiras com as americanas, com potencial impacto na soberania e nas prioridades de defesa nacional.
Os resultados da eleição também podem influenciar diretamente a abordagem do Brasil ao multilateralismo. O governo Lula priorizou o engajamento com o Sul Global e utilizou a participação do Brasil em grupos como o BRICS para defender um sistema internacional mais multipolar, onde o poder é distribuído entre diversas nações, e não concentrado em uma única hegemonia. Bolsonaro, por sua vez, indicou preferência por relações bilaterais – principalmente com os Estados Unidos, Argentina e Israel – e disse que reavaliaria a adesão do Brasil aos BRICS se fosse eleito.
A análise do think tank do Parlamento Europeu também indica que um alinhamento mais próximo com os EUA sob o presidente Trump e um menor engajamento político com a China e os BRICS seriam prováveis com a vitória de Flávio Bolsonaro. É lembrado que, em uma reunião na Casa Branca em maio de 2025, Bolsonaro prometeu a Trump que, sob sua presidência, o Brasil se juntaria ao “Escudo das Américas”, reforçando a cooperação com governos de direita que compartilham uma visão de combate ao tráfico de drogas, inclusive por meio do uso de força militar letal.
Clima e Comércio: O Acordo UE-Mercosul em Risco
Sob uma perspectiva europeia, a posição de Flávio Bolsonaro sobre a diplomacia climática assume grande importância, particularmente em relação ao acordo UE-Mercosul. Este acordo contém compromissos explícitos de implementar efetivamente o Acordo de Paris sobre o Clima e cooperar nos aspectos climáticos do comércio. Uma parte pode suspender o acordo se considerar que ocorreu uma violação grave ou se uma parte deixar o pacto, o que representa um mecanismo de proteção ambiental e comercial. Além disso, o Brasil se comprometeu a interromper o desmatamento ilegal, inclusive na Amazônia brasileira, um ponto sensível para a União Europeia.
O think tank cita que o Observatório do Clima, uma coalizão de organizações da sociedade civil brasileira, teme que os interesses conservadores de Flávio Bolsonaro possam levar a um retrocesso sistemático das proteções ambientais, espelhando o legado de seu pai. Esse cenário não apenas dificultaria a ratificação e implementação do acordo UE-Mercosul, mas também colocaria em risco a credibilidade ambiental do Brasil e seus compromissos internacionais, com potenciais sanções econômicas e comerciais.



