Um novo horizonte para a saúde dos ossos pode estar surgindo a partir de um centro de pesquisa brasileiro. Um estudo inovador, desenvolvido no programa de Pós-Graduação em Bioengenharia da Universidade Brasil (UB) em Fernandópolis, acaba de receber uma menção honrosa de prestígio nacional.
A pesquisa foi laureada com o Prêmio Cândido Pinto de Melo, concedido pela Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB), durante o 30º Congresso Brasileiro de Engenharia Biomédica (CBEB 2026). Este reconhecimento sinaliza um avanço significativo na forma como avaliamos a resistência óssea e o risco de fraturas em pacientes.
O novo placar que pode mudar o diagnóstico da saúde óssea
Batizada de SM-BQS, ou Escore Estrutural-Mecânico de Qualidade Óssea, a tecnologia é uma aposta para ir além dos exames convencionais. Ela propõe uma análise mais aprofundada da estrutura e da capacidade de carga dos nossos ossos, elementos cruciais para a prevenção de doenças degenerativas.
Enquanto a popular densitometria óssea concentra-se na densidade mineral, o SM-BQS integra uma série de informações. Esse método promete fornecer um panorama mais completo e preciso sobre a qualidade óssea.
A ferramenta é resultado de um esforço conjunto entre o professor doutor Alessandro Márcio Hakme da Silva, coordenador da pós-graduação na UB de Fernandópolis, e o pesquisador Rodrigo Nolasco dos Santos. A equipe contou ainda com a valiosa colaboração da professora doutora Marise Lazaretti-Castro, chefe do Setor de Doenças Osteometabólicas da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O objetivo é claro: oferecer aos médicos uma visão tridimensional e mecânica do osso, superando as limitações dos diagnósticos atuais. Isso abre portas para intervenções mais assertivas e personalizadas no tratamento e prevenção de diversas condições.
Quatro pilares para um diagnóstico mais completo
O novo escore sintetiza quatro parâmetros essenciais em uma escala de zero a 100 pontos. Ele considera a densidade mineral óssea, a massa muscular dos membros inferiores, a arquitetura interna do osso, avaliada por tomografia computadorizada de alta resolução, e a rigidez simulada computacionalmente sob cargas na tíbia.
A partir dessa pontuação multifacetada, o SM-BQS classifica a qualidade óssea em quatro categorias distintas. Elas vão desde “preservada” até “comprometida”, oferecendo um mapa detalhado da saúde do esqueleto.
Nos primeiros testes, conduzidos com 67 voluntárias, os índices demonstraram uma forte correlação com a rigidez óssea simulada em laboratório. Este resultado sugere um grande potencial para prever com maior exatidão o comportamento mecânico dos ossos em situações de estresse.
Com o pedido de patente já depositado junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), a expectativa é que a tecnologia avance rapidamente. Os próximos passos incluem a expansão dos testes para um número maior de participantes, englobando também homens, e a validação do método na predição de riscos de fraturas.
Impacto na região
Embora desenvolvida em Fernandópolis, a inovação trazida pelo SM-BQS reverbera por todo o sistema de saúde do estado de São Paulo, alcançando, de forma indireta, os moradores de Jundiaí e cidades vizinhas. Avultados em bioengenharia como este representam um salto para a medicina diagnóstica.
Aprimorar a capacidade de identificar precocemente a fragilidade óssea tem consequências diretas na qualidade de vida. Moradores de Jundiaí, assim como outros cidadãos, podem se beneficiar de diagnósticos mais precisos para condições como a osteoporose, levando a tratamentos mais eficazes e, principalmente, à prevenção de fraturas debilitantes.
Essas fraturas impactam significativamente a autonomia dos idosos e geram altos custos para a saúde pública. Um instrumento que antecipa esses riscos significa menos internações e mais independência para a população.
A pesquisa demonstra o potencial das universidades paulistas em gerar soluções de impacto real para os desafios da saúde pública. O investimento em ciência, mesmo que concentrado em um campus específico, tem o poder de transformar a realidade de milhões.
Além dos ossos: o celeiro de inovações da Bioengenharia
A conquista do Prêmio Cândido Pinto de Melo não é um fato isolado na Universidade Brasil. O programa de pós-graduação em Bioengenharia de Fernandópolis se destaca por um ambiente efervescente de pesquisa e desenvolvimento.
No mesmo congresso nacional, docentes e discentes apresentaram uma série de outros projetos instigantes. Entre eles, destacam-se trabalhos em áreas como a impressão 3D de biomateriais, a engenharia de tecidos e a reabilitação cardiovascular a distância.
Esses estudos recebem financiamento de importantes órgãos de fomento à pesquisa, como FAPESP, CNPq e EMBRAPII. Tal apoio é fundamental para que o Brasil continue a gerar conhecimento e tecnologia de ponta na área da saúde.
A diversidade das pesquisas mostra como a bioengenharia atua em múltiplas frentes. Da criação de substitutos ósseos à recuperação cardíaca, a área se posiciona como um motor de inovação médica.
Quando o envelhecimento encontra a ciência: a urgência por novas respostas
O estudo sobre a qualidade óssea ganha especial relevância ao se observar o cenário demográfico global e brasileiro. O envelhecimento da população é uma realidade incontornável, e com ele, a crescente prevalência de doenças osteometabólicas, como a osteoporose.
Por muito tempo, a densitometria óssea foi a principal ferramenta para avaliar a saúde dos ossos. No entanto, a medicina moderna compreende que a densidade mineral é apenas um dos fatores. A arquitetura interna, a microestrutura e a capacidade de suportar cargas também são decisivas na resistência óssea.
É nesse contexto que a bioengenharia emerge como uma área crucial. Ela busca integrar conhecimentos da biologia e da engenharia para desenvolver novas abordagens diagnósticas e terapêuticas, preenchendo as lacunas deixadas pelos métodos mais antigos.
A criação do SM-BQS é um exemplo claro dessa evolução. Ele reflete a necessidade premente de ferramentas mais abrangentes e preditivas. Isso permite não apenas tratar a doença quando ela se manifesta, mas atuar preventivamente, melhorando a qualidade de vida e reduzindo o impacto social e econômico das fraturas.
Este avanço recente da Universidade Brasil, portanto, não é apenas um feito acadêmico. Ele representa um passo adiante na busca por soluções que garantam mais saúde e autonomia para as futuras gerações.



