O professor de surfe José Ricardo Ramos, conhecido como Bocão, foi encontrado sem vida na manhã deste domingo (28). Seu corpo estava no costão da Avenida Niemeyer, na Zona Sul do Rio de Janeiro, após dias de buscas do Corpo de Bombeiros. O desaparecimento ocorreu na última quarta-feira (24), quando Bocão, um pilar da comunidade do surfe carioca, entrou no mar em São Conrado durante a madrugada, sem prancha, num momento de aparente desespero pessoal.
A travessia iniciou nas primeiras horas da quarta-feira, por volta das 3h. Bocão deixou seus documentos em um quiosque na praia de São Conrado, em frente ao Posto 13 do Corpo Marítimo de Salvamento, na altura do Hotel Nacional. Ele declarou a pessoas próximas que nadaria até as Ilhas Tijucas, um percurso desafiador até mesmo para nadadores experientes.
As buscas começaram imediatamente e se estenderam por quatro dias, envolvendo equipes marítimas e terrestres dos bombeiros, que vasculharam a orla entre São Conrado e o Leblon, até o trágico desfecho na manhã de domingo.
O Legado de um Mestre do Surfe
José Ricardo Ramos era mais que um professor de surfe; ele foi um mentor e uma figura central na vida de centenas de crianças e jovens. Fundador da Escola de Surfe de São Conrado, ele usou o esporte como ferramenta de transformação social, tirando meninos e meninas da ociosidade e oferecendo um novo horizonte a moradores da comunidade da Rocinha.
Seu filho, o DJ Ricardo Ramos, lamentou a perda e destacou o impacto do pai. “A aula dele não era só surf. Era alegria. Meu pai ajudou a formar muita gente, centenas de crianças no surf”, afirmou. Ele descreveu Bocão como “um pilar na transformação social de jovens da comunidade”, ressaltando a generosidade e o engajamento do professor.
O filho também revelou que o pai enfrentava problemas financeiros. A comunidade e amigos próximos se uniram em uma campanha para custear as despesas do enterro, demonstrando a forte rede de apoio e carinho que Bocão construiu ao longo dos anos.
A notícia de seu desaparecimento e morte mobilizou a comunidade artística. O rapper e compositor Gabriel, o Pensador, usou as redes sociais para prestar sua homenagem. Ele contou ter conhecido Bocão aos 12 anos, chamando-o de uma “figura importantíssima na história do surf do Cantão”.
Gabriel, o Pensador lembrou o trabalho incansável de Bocão. “Sempre batalhou muito para apoiar a garotada do morro, incentivando o esporte e o caminho do bem, ensinando surf, arrecadando e recuperando pranchas usadas, entre outras ações solidárias, deixando um legado de bondade e atitude positiva”, declarou o músico, que compartilhou anos de amizade e surfe com o professor.
A Noite da Travessia: Um Refúgio no Mar
Detalhes sobre a última noite de Bocão lançam luz sobre o drama pessoal que ele vivia. Amigos próximos, como o próprio Gabriel, o Pensador, relataram que o professor costumava fazer travessias longas no mar. No entanto, desta vez, a situação era diferente. Ele entrou na água sem prancha, uma atitude incomum e mais perigosa para grandes distâncias.
A avaliação dos que o conheciam sugere um ato de “descontrole e estresse”, uma busca por “refúgio no mar num momento problemático da vida”. A conjunção dos problemas financeiros e do mergulho solitário e desequipado sinaliza um ato extremo de quem via no oceano, seu ambiente natural, uma forma de lidar com pressões.
O local onde o corpo foi encontrado, no costão da Avenida Niemeyer, é uma área de difícil acesso e conhecida por suas fortes correntes marítimas, o que dificultou as operações de busca e resgate. A região, com suas formações rochosas e o mar agitado, representa um perigo constante para quem se aventura sem o equipamento adequado.
A perda de Bocão deixa um vazio significativo não apenas no cenário do surfe carioca, mas principalmente nas vidas dos jovens da Rocinha que encontraram nele um caminho para o esporte e uma oportunidade de futuro.
Contexto
O surfe, como outros esportes praticados em comunidades carentes, desempenha um papel fundamental na inclusão social e na formação de jovens. Ao oferecer disciplina, rotina e um senso de pertencimento, projetos como a Escola de Surfe de São Conrado, fundada por José Ricardo Ramos, o Bocão, se tornam ferramentas essenciais para a resiliência e o desenvolvimento em áreas com alta vulnerabilidade social. A história de Bocão reflete a dedicação de muitos indivíduos que, por meio do esporte, buscam construir pontes e transformar realidades, apesar dos desafios pessoais e estruturais que podem enfrentar.