Pesquisar
Folha Jundiaiense

Guterres cobra ação mundial pela crise no Haiti e condena inação

O mundo não pode ignorar a crise humanitária do Haiti, declarou António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), durante visita ao país caribenho na terça-feira (16). Guterres classificou a situação como “a mais grave em curso no Hemisfério Ocidental e a que piora mais rapidamente”.

Ainda na capital, Porto Príncipe, o secretário-geral esteve em um acampamento de deslocados internos. Ele se reuniu com a força internacional para alinhar o apoio logístico no combate às gangues. Em seguida, encontrou-se com o primeiro-ministro, Alix Didier Fils-Aimé.

Guterres solicitou agilidade na transição política. Reafirmou a liderança dos haitianos na definição do destino do país e o apoio global.

Crise se Aprofunda em Meio à Violência e Fome

O Haiti enfrenta instabilidade política crônica, com grupos armados controlando vastas áreas de Porto Príncipe. O país, hoje governado por Fils-Aimé e apoiado pelos Estados Unidos, não realiza eleições desde 2016, aprofundando o vácuo de poder que fortalece os criminosos.

Desde o início do ano, a violência já matou mais de 2.300 pessoas e feriu outras 1.100. As maiores vítimas dessa insegurança, destacou Guterres, são mulheres e crianças.

O recrutamento de menores por gangues triplicou em apenas um ano. Crianças ficam sem proteção, educação e futuro.

A violência de gênero também atinge patamares alarmantes, com uma média de mais de 20 mulheres e meninas agredidas diariamente. Esses números refletem o colapso das instituições estatais e a ausência de lei em muitas comunidades.

Guterres não poupou críticas à ausência da comunidade internacional, ligando-a diretamente à falta de segurança para o povo haitiano. Ele chamou a indiferença global de “a maior desgraça” sobre o Haiti.

Milhões de Deslocados e Ajuda Escassa

A escalada da violência gerou uma crise humanitária sem precedentes. Cerca de 6 milhões de pessoas, metade da população de 12 milhões, enfrentam insegurança alimentar. Além disso, 1,5 milhão estão deslocadas pela violência.

O líder das Nações Unidas declarou a jornalistas que, apesar do avanço das gangues tentar “roubar o futuro do país”, há sinais de esperança. A solidariedade internacional, somada à cooperação local, começa a desenhar uma “luz no fim do túnel”.

No último ano, equipes de agências internacionais e parceiros humanitários prestaram auxílio essencial a quase 3 milhões de haitianos. Um esforço insuficiente diante da necessidade.

O Plano de Resposta Humanitária da ONU, que busca US$ 880 milhões para este ano, obteve apenas 25% dos recursos necessários. Isso significa que grande parte da população permanece sem acesso a serviços básicos como alimentação, saúde e abrigo. As consequências dessa lacuna financeira são diretas: menos refeições distribuídas, menos postos de saúde operando e mais famílias desabrigadas à mercê da violência.

Guterres foi enfático: “O Haiti não está pedindo caridade, mas que o mundo cumpra sua palavra em um momento em que não pode esperar”.

Mesmo com o cenário sombrio, o secretário-geral da ONU afirmou que “uma virada já começou” no país. Destacou a recuperação gradual de bairros de Porto Príncipe pelo Estado, sinais de retomada.

“Por trás dos números, existe um povo de coragem admirável que recusa a se curvar diante da violência”, concluiu.

História de Luta em Campo de Futebol

A luta pela soberania e o reconhecimento histórico do Haiti ganhou um capítulo inusitado fora das fronteiras. Poucos dias antes da visita de Guterres, a seleção haitiana de futebol foi forçada a alterar seu uniforme na Copa do Mundo. A FIFA vetou referências à luta pela independência na camisa.

Guterres, em tom otimista, citou a batalha histórica. Em 1803, na Batalha de Vertières, contra colonizadores franceses, “o povo haitiano conquistou o impossível ao quebrar suas correntes e se libertar”. Para ele, “esse mesmo espírito vive hoje”.

A independência do Haiti é um marco, não apenas por ser a primeira nação livre da América Latina, mas por ter sido liderada por pessoas negras escravizadas. A camisa trazia uma ilustração de revolucionários empunhando a bandeira nacional, o que a FIFA considerou violar o regulamento da competição, que impede manifestações políticas ou religiosas.

O incidente com a camisa serve como metáfora da contínua batalha haitiana por reconhecimento e respeito, ecoando o apelo de Guterres por mais atenção e menos indiferença do cenário internacional.

Contexto

O Haiti, país mais pobre do Hemisfério Ocidental, possui uma história complexa marcada por colonização, revolução e sucessivas intervenções estrangeiras e crises internas. A fragilidade política pós-assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021, aliada à atuação de gangues que controlam infraestrutura e rotas comerciais, intensificou uma crise humanitária de longa data. A instabilidade dificulta a governança e a entrega de serviços básicos, impactando diretamente a segurança alimentar, o acesso à saúde e a educação para milhões de cidadãos. A comunidade internacional tem sido criticada por uma resposta inconsistente e por subestimar a gravidade da situação, perpetuando um ciclo de dependência e abandono.

Leia mais

Destaques

plugins premium WordPress