O Sistema Único de Saúde (SUS) deu um salto estratégico neste sábado, 23. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) inaugurou o Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T, iniciativa que promete revolucionar o tratamento de câncer no país com a fabricação nacional de terapias celulares avançadas a custos acessíveis. O projeto visa disponibilizar para pacientes brasileiros, via SUS, uma tecnologia médica de ponta que hoje custa milhões no mercado internacional.
A terapia CAR-T, sigla para Chimeric Antigen Receptor T-Cell, é considerada um dos maiores avanços recentes na oncologia. Funciona como uma reprogramação das próprias células de defesa do paciente, modificando-as geneticamente em laboratório para que identifiquem e destruam células cancerosas. Beneficia diretamente quem enfrenta leucemia, linfoma e mieloma.
Com a produção da terapia em solo nacional, o Brasil busca independência tecnológica. E, principalmente, democratiza o acesso a um tratamento de alto valor, hoje restrito pela barreira de custo.
O investimento de R$ 330 milhões, vindo do Programa para Ampliação e Modernização de Infraestrutura do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (PDCEIS), parte do Novo PAC, sustenta a estrutura do novo centro. O montante sinaliza o compromisso federal com a saúde pública e a soberania tecnológica do país.
O Brasil se posiciona entre poucos países no mundo com potencial para ofertar terapias avançadas pelo sistema público de saúde de forma gratuita. A estrutura de instituições públicas como a Fiocruz é a base para essa apropriação tecnológica, algo raro.
O lançamento contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e do presidente da Fiocruz, Mario Moreira.
Tratamento de R$ 2 Milhões Gratuito Pelo SUS
O impacto da terapia CAR-T na vida de pacientes ganhou um rosto no evento. Paulo Peregrino, curado de câncer após tratamento com tecnologia similar pelo SUS, emocionou a audiência ao relatar sua experiência.
Peregrino participou de uma pesquisa inovadora conduzida pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Instituto Butantã, que testou a terapia celular em 14 pacientes brasileiros. Em 2022, ele estava em estado muito grave e, sem a pesquisa, teria que arcar com custos superiores a R$ 2 milhões. Uma cifra inatingível para a grande maioria da população brasileira.
“O fato de eu ter essa chance foi Deus e a ciência, porque aconteceu exatamente no momento em que eu precisava. Ter a chance de conseguir ser selecionado e ter o tratamento que tive no HC de São Paulo, pelo SUS, foi uma coisa absolutamente fantástica”, declarou Peregrino à Agência Brasil após a cerimônia, destacando a gratuidade do tratamento.
Sua história ilustra o potencial transformador da tecnologia quando aliada ao acesso público universal. Milhões de reais se tornam zero para quem mais precisa.
Fortalecimento da Pesquisa e Desenvolvimento Nacional
Outro marco no sábado foi a inauguração da nova sede do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) da Fiocruz. A estrutura exclusiva impulsiona projetos inovadores em biotecnologia.
Criado em 2002, o CDTS atua na geração de conhecimento e desenvolvimento tecnológico. Seu foco: novos produtos e serviços para o SUS, em parceria com universidades, centros de pesquisa e parceiros privados, tanto nacionais quanto internacionais.
A sede exclusiva, que recebeu R$ 370 milhões em investimentos, permitirá ao CDTS acelerar pesquisas em vacinas, fármacos, biofármacos, reagentes e métodos de diagnóstico. O avanço significa maior capacidade de inovação nacional e menor dependência de tecnologia estrangeira em saúde, crucial para a autonomia do país.
Para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a Fiocruz “não é apenas uma grande indústria de produção tecnológica”. Ele afirmou que a instituição “combina inovação, escala e acesso para salvar vidas”.
O presidente Lula ecoou a visão sobre o investimento em pesquisa. “O Brasil não é menor nem menos competitivo que ninguém”, disse. Ele reforçou a necessidade de apostar na ciência, mesmo sem resultados imediatos ou garantidos. “Você não encontraria petróleo se não fizesse pesquisa. Para tudo tem que ser feito pesquisa”, completou.
A mensagem é clara: pesquisa e desenvolvimento são pilares da soberania e do progresso, inclusive na área da saúde.
Infraestrutura e Logística para o Atendimento Básico
Além dos avanços tecnológicos, o governo federal reforçou a infraestrutura do SUS no atendimento direto à população. O programa “Agora Tem Especialistas – Caminhos da Saúde” entregou 40 veículos do SAMU a 38 municípios do estado do Rio de Janeiro.
O investimento total foi de R$ 23,3 milhões. A frota moderna qualifica o atendimento de urgência e emergência, encurtando o tempo-resposta em situações críticas em diversas regiões do estado.
Houve também a primeira entrega de um micro-ônibus. O veículo garante o deslocamento gratuito de pacientes do SUS que precisam de tratamentos contínuos, como radioterapia ou hemodiálise, localizados a mais de 50 quilômetros de suas residências. Uma ambulância extra seguiu para o município de São João de Meriti, reforçando a frota local.
Na cerimônia, houve ainda a valorização dos profissionais de saúde. Carteiras de sanitaristas foram entregues a quatro profissionais. Uma delas, de forma póstuma, às filhas de Sérgio Arouca, ex-presidente da Fiocruz e figura histórica da saúde pública brasileira, em reconhecimento à sua contribuição.
Contexto
O Sistema Único de Saúde (SUS), criado pela Constituição Federal de 1988, representa um dos maiores e mais abrangentes sistemas públicos de saúde do mundo. Ao longo de sua história, o SUS tem sido um vetor para a incorporação de tecnologias, especialmente por meio de instituições como a Fiocruz, que detém um papel central no Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Historicamente, o Brasil enfrentou desafios na autossuficiência de insumos e medicamentos de alto custo, dependendo majoritariamente de importações. A aposta na produção nacional de terapias avançadas, como a CAR-T, e o fortalecimento da infraestrutura de pesquisa e logística, sinalizam uma estratégia de longo prazo para garantir não apenas o acesso universal à saúde, mas também a soberania tecnológica do país frente a futuras pandemias e ao avanço de doenças complexas, como o câncer, reduzindo a vulnerabilidade externa e impulsionando a economia nacional.