A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) abriu investigação contra a CazéTV por supostas irregularidades na publicidade de apostas esportivas. O órgão do Ministério da Justiça e Segurança Pública apura como o canal, fenômeno digital, promoveu casas de “bets” durante as transmissões das eliminatórias da Copa do Mundo 2026.
O caso reacende um embate antigo: a tênue linha entre conteúdo editorial, entretenimento e publicidade explícita em plataformas digitais de alto alcance.
A CazéTV, em parceria com a LiveMode e o streamer Casimiro Miguel, virou um dos principais destinos para os fãs de futebol. A plataforma transmite todos os 104 jogos da competição, disputando audiência com emissoras tradicionais.
Durante as exibições dos jogos e nos pré-jogos, a equipe do canal não se limitava a narrar. Narradores recomendavam odds, os indicadores de probabilidade e retorno financeiro das apostas. Dicas diretas sobre “em quem apostar” apareciam na tela.
Um levantamento do portal ICL Notícias monitorou 48 partidas. Identificou 74 sugestões de apostas esportivas. Em 61% delas, a previsão não se confirmou, expondo o risco do conselho. As ofertas eram das três empresas que patrocinam a CazéTV na Copa: Bet365, Betnacional e KTO.
Publicidade e o Novo Cenário
As empresas de apostas esportivas dominam o cenário publicitário. Tornaram-se a segunda maior categoria anunciante durante a Copa, superadas apenas pelo setor de alimentos e bebidas. Globo, CazéTV e SBT, as emissoras oficiais, carregam patrocínios de “bets”.
A diferença da CazéTV está no formato. Anderson Santos, professor da Universidade Federal de Alagoas e coordenador do Observatório das Transmissões de Futebol, aponta para o estilo de transmissão do canal.
O modelo integra informação, entretenimento e publicidade em uma única entrega. Isso funciona para marcas de consumo comum, mas é perigoso quando envolve apostas.
“Essa tentativa de interagir como algo natural com a mercadoria eles conseguem fazer bem, mas caíram no problema sério porque [aposta] esportiva é um problema de saúde coletiva, né? Saúde financeira, corpo físico e mental. E aí você transformar isso como algo do dia a dia é extremamente perigoso”, declarou Santos.
Janaine Aires, professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vê na internet um “terreno fértil” para as empresas de aposta. Um espaço com regras menos rígidas que a televisão tradicional, que separa blocos publicitários do conteúdo editorial.
O modelo da CazéTV expõe uma lacuna na fiscalização.
Os órgãos reguladores ainda tentam entender como lidar com formatos digitais nativos. Isso abre brechas para uma “investida mais predatória das marcas”, segundo Aires.
“Diante da possibilidade de uma brecha, há uma migração para uma nova plataforma que não responde às regras impostas para o contexto tradicional. E aí os investidores, os financiadores, criam suas próprias regras até que, de alguma forma, existe algum tipo de freio para que as coisas não sigam fora do rumo”, explicou.
A expansão das “bets” é inegável. Estudo da Agência Macfor registrou mais de 18 milhões de buscas ativas pelo termo “bet” no Brasil no mês anterior à Copa do Mundo. Seis em cada dez brasileiros pretendiam apostar. Nos últimos cinco anos, o interesse por apostas esportivas subiu 496% no país.
O Ministério da Fazenda calcula um lucro bruto de R$ 37 bilhões para o setor em 2025.
Enquanto o interesse cresce no Brasil, em países como Reino Unido, Portugal e Espanha, a procura por “bets” caiu. Na Argentina, por outro lado, o avanço foi de 268,8%, de acordo com a Agência Macfor.
O Estilo da CazéTV
A CazéTV nasceu em 2022. É fruto da união da empresa LiveMode, com duas décadas de experiência em direitos de transmissão, e o streamer Casimiro Miguel. Ele ganhou destaque com lives descontraídas durante a pandemia.
A aprovação da Lei do Mandante (Lei nº 14.205/2021) em 2021 deu força à parceria. A lei permitiu aos clubes negociar as transmissões dos jogos, enfraquecendo o monopólio da Rede Globo. Na Copa do Mundo de 2022, a CazéTV transmitiu 22 jogos em parceria com a Fifa.
Anderson Santos classifica o estilo do canal como cobertura esportiva com foco em entretenimento. O objetivo é gerar engajamento. Não se trata de jornalismo esportivo, ele argumenta.
“Você tem uma liberdade de conteúdo maior, e isso de vez em quando gera alguns problemas a partir dos comentários. Então, a gente está vendo em casa, no celular, enfim, como se tivesse encontrando os amigos numa mesa de bar para comentar do jogo.”
Santos refuta a ideia do fim da televisão tradicional. O consumo, segundo ele, se manterá estável, com adaptações às necessidades do público, que busca flexibilidade.
Janaine Aires vê nesse modelo, onde as fronteiras entre informação e entretenimento se diluem, uma estratégia da CazéTV. E também uma precarização do mercado de trabalho.
“O profissional do entretenimento é mais barato que o profissional do jornalismo. Fazer jornalismo é mais caro. Então dizer que não faz também é uma forma de precarizar, porque se eles dissessem ‘ah, não, a gente faz jornalismo’, por exemplo, eles teriam que obedecer às regras sindicais, né?”, pontuou.
Projetos de Regulamentação
O Congresso Nacional debate a regulamentação do setor. Dois projetos de lei tramitam. O PL 2.478/2026, na Câmara dos Deputados, e o PL 2.470/2026, no Senado. Ambos propõem proibir a publicidade e o patrocínio de apostas esportivas e jogos online em diversos meios de comunicação e eventos. A Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental apoia as propostas.
Janaine Aires faz um paralelo com a proibição da publicidade de tabaco. Contudo, ela alerta para a dificuldade de aprovar tais medidas, dada a forte presença das empresas de “bet” no patrocínio de vários setores do país.
“Se eu tenho uma empresa jornalística que é patrocinada por bet, e isso já é uma realidade no país, então essa discussão não vai ser tratada no jornalismo, por exemplo. Quando a gente traz essa informação, pesquisas já apontam que o próximo congresso vai somar mais um B aos Bs que a gente já tem, que é o boi, a bala, a Bíblia e agora a Bet. Então o cenário da democracia brasileira de alguma maneira está em risco”, finalizou.
Contexto
O crescimento exponencial das apostas esportivas no Brasil segue a legalização do setor em 2018. A ausência de uma regulamentação publicitária clara para o ambiente digital criou um vácuo. Plataformas emergentes, como a CazéTV, exploraram essa lacuna, integrando publicidade diretamente ao conteúdo, ao contrário dos modelos tradicionais de mídia. A investigação da Senacon representa um passo na tentativa de balizar essa nova realidade, buscando proteger o consumidor e mitigar riscos associados ao jogo, como o endividamento e a ludopatia, enquanto o Congresso avalia a urgência de uma legislação específica para o segmento, que já movimenta bilhões e exerce forte influência econômica e política.