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Folha Jundiaiense

Cacique Raoni melhora e permanece em UTI; estado é delicado

O cacique Raoni Metuktire, 94 anos, permanece internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital e Maternidade Dois Pinheiros, em Sinop (MT). A internação ocorreu no domingo (14), e um boletim médico divulgado nesta terça-feira (16) aponta melhora discreta no quadro do líder indígena, embora a necessidade de cuidados intensivos se mantenha pela idade avançada e comorbidades preexistentes.

A equipe médica monitora o paciente de forma contínua. Raoni demonstrou melhoria na diurese, sinalizando resposta parcial aos tratamentos. Também houve redução do volume de drenagem pela sonda nasogástrica.

Ele segue lúcido, consciente e orientado. Respira de forma espontânea, sem auxílio de ventiladores mecânicos ou outros aparelhos para a manutenção respiratória.

Contudo, a função renal, embora com melhora parcial, não se normalizou. Seu estado exige vigilância constante.

Subocclusão Gástrica Mantém Jejum do Cacique Raoni

O líder Kayapó segue em jejum. Um quadro de subocclusão gástrica impede a passagem normal de alimentos, uma condição que motivou a internação e ainda exige intervenções.

Para garantir a nutrição, a equipe iniciou a administração parenteral de nutrientes, que chegam diretamente à corrente sanguínea. Uma endoscopia digestiva alta está agendada para quando o quadro clínico de Raoni estabilizar. Não há indicação de cirurgia, afirmam os médicos.

Douglas Yanai, diretor-técnico do Hospital Dois Pinheiros, ressaltou a complexidade do caso. “Ele é um homem muito forte, mas temos que lembrar sempre que é um senhor de mais de 90 anos e que apresenta comorbidades, além dos quadros prévios de uma pessoa nessa situação de saúde”, declarou Yanai.

O diretor enfatizou que a idade e as condições preexistentes colaboram para recaídas. “Isso realmente o deixa um pouco mais frágil, inspirando bastante cuidado. Temos procurado cuidar e trazê-lo de volta à sua rotina”, completou.

A presença de um familiar acompanha Raoni na UTI. Visitas são restritas a pessoas muito próximas, para evitar sobrecarga ao paciente. “Ele está cuidado, consciente, respondendo. Tem conversado com a equipe médica e isso é uma coisa que nos alegra porque demonstra a força dele e a confiança que a gente tem na recuperação”, disse Yanai.

A internação atual representa a terceira do ano para Raoni Metuktire, um sinal das dificuldades impostas pela idade avançada e sua rotina de compromissos.

A Saúde de Raoni e a Luta Indígena e Ambiental

A saúde de Cacique Raoni mobiliza atenção nacional e internacional. Ele é um dos mais proeminentes defensores dos povos indígenas e da floresta amazônica no mundo. Sua voz ecoa em fóruns globais, denunciando o desmatamento, a invasão de terras e os impactos das atividades predatórias sobre a vida dos povos originários.

Sua presença em Sinop (MT), cidade que simboliza a fronteira agrícola do Centro-Oeste brasileiro, sublinha a tensão entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. É nesta região que Raoni, do povo Kayapó, concentra parte significativa de sua militância. O estado de Mato Grosso, aliás, enfrenta alta pressão sobre seus biomas, com avanço da agropecuária e do desmatamento.

A fragilidade de sua saúde, portanto, transcende a esfera médica. Representa um alerta sobre a vulnerabilidade dos líderes indígenas que, apesar da idade e das condições adversas, mantêm-se na linha de frente da defesa de seus territórios e da biodiversidade.

Sua hospitalização, ainda que com sinais de melhora, reacende discussões sobre o suporte de saúde e as condições de vida para idosos em comunidades indígenas, muitas vezes distantes de grandes centros e com acesso limitado a cuidados complexos. A rápida mobilização para levá-lo a um hospital de maior porte em Sinop aponta para a importância da rede de apoio ao cacique.

Raoni Metuktire, ao longo das décadas, encontrou-se com chefes de estado, monarcas e personalidades. Viajou por diversos continentes para divulgar a causa indígena e ambiental. Sua imagem, adornada com o labret nos lábios e cocares imponentes, tornou-se um ícone global da resistência amazônica.

Cada boletim médico sobre sua condição, por isso, é lido com apreensão por aqueles que veem nele a materialização de uma luta ancestral e contemporânea pela conservação da floresta e pela garantia dos direitos territoriais.

Contexto

O cacique Raoni Metuktire, do povo Kayapó, nasceu por volta de 1930 na aldeia Kapôt, no Mato Grosso. Desde a década de 1980, emergiu como um dos principais líderes indígenas mundiais. Tornou-se conhecido por sua incansável luta contra o desmatamento da Amazônia e pela demarcação de terras indígenas. Ao longo de sua vida, Raoni viajou por mais de 30 países, encontrando líderes como o Papa João Paulo II, o príncipe Charles e presidentes como François Mitterrand, para sensibilizar sobre a importância da preservação ambiental e dos povos originários. Suas ações foram essenciais para a criação do Parque Indígena do Xingu e para diversas campanhas internacionais de proteção da floresta.

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