A lesão do meia Lucas Paquetá abriu caminho. O técnico Carlo Ancelotti estuda escalar Endrick como titular da Seleção Brasileira no decisivo confronto das oitavas de final da Copa do Mundo, neste domingo (5), às 17h (horário de Brasília), contra Noruega ou Costa do Marfim. A mudança tática ocorre após a vitória de virada por 2 a 1 sobre o Japão, em Houston, onde o jovem atacante, antes preterido na estreia, foi fundamental para a reação brasileira.
A decisão de Ancelotti marca uma virada na campanha brasileira. Endrick sequer entrou em campo no empate por 1 a 1 com Marrocos, pela estreia. A escolha gerou debate e ironias sobre a gestão do jovem talento.
O cenário mudou drasticamente na segunda-feira (29), em Houston. O Brasil perdia por 1 a 0 para o Japão quando Paquetá precisou ser substituído no intervalo. Ancelotti acionou Endrick.
O impacto foi imediato. O time, antes sem força ofensiva, ganhou presença na área adversária.
“Sim, podemos começar dessa maneira [com Endrick no lugar de Lucas Paquetá]. Precisávamos de mais força na área e o Endrick poderia colocar essa força e presença”, afirmou Ancelotti na coletiva pós-jogo. “Ele fez um jogo muito bom porque esteve intenso e perigoso.”
A entrada de Endrick coincidiu com uma mudança tática clara. No primeiro tempo contra o Japão, a seleção buscou infiltrações por dentro sem sucesso. Com o placar desfavorável, Ancelotti inverteu a estratégia.
O Brasil começou a pressionar a defesa japonesa com bolas alçadas. Foram 25 cruzamentos. Um deles, preciso, encontrou o volante Casemiro, que marcou o gol de empate.
A estratégia funcionou, adaptando-se às dificuldades impostas pelo adversário.
Ancelotti avaliou a evolução: “Tivemos problemas no primeiro tempo para buscar oportunidades porque o Japão estava muito fechado. Buscamos soluções, com mais cruzamentos e presença de área. Acho que é uma evolução.”
Ele comparou com a vitória por 3 a 0 sobre a Escócia na fase de grupos, onde o Brasil não teve problemas para encontrar espaços. Contra o Japão, foi diferente, mas a solução veio na segunda etapa.
A Virada Histórica e a Maturidade da Equipe
A vitória por 2 a 1 sobre o Japão carregou um peso histórico. Desde 2002, o Brasil não vencia um jogo eliminatório de Copa do Mundo de virada. Naquele ano, superou a Inglaterra por 2 a 1 nas quartas de final, em Shizuoka, no Japão, a caminho do pentacampeonato.
A coincidência da data e do resultado serve como um bom presságio, mas para Ancelotti, a virada é sinal de amadurecimento.
“Estava confiante [mesmo em desvantagem no placar] porque a equipe começou bem. Depois encontramos dificuldades para forçar o Japão, que é uma equipe respeitável, muito perigosa e com jogadores fortes nos duelos”, declarou o técnico.
Ele contrastou a performance com o início da Copa: “Mas [o Brasil] não era uma equipe perdida como no primeiro tempo contra Marrocos”.
Ancelotti minimizou erros pontuais, como a bola entregue por Danilo nos pés do volante Kaishu Sano no lance do gol japonês.
“O futebol tem erros. Temos que pensar adiante. Ninguém pensava que a equipe não iria empatar. Sofrimento é normal, sobretudo no futebol moderno. Como é normal o alívio”, concluiu o italiano, projetando os próximos desafios.
A possível efetivação de Endrick na equipe titular é mais do que uma resposta a uma lesão. O atacante, de apenas 17 anos, já tem transferência acertada para o Real Madrid e carrega a expectativa de ser um dos grandes nomes do futebol mundial. Sua presença impõe um dilema tático a Ancelotti: manter a estrutura com um atacante mais fixo ou explorar sua mobilidade e capacidade de finalização para abrir defesas fechadas.
A pressão sobre a jovem promessa é imensa, mas seu desempenho contra o Japão mostrou não apenas força física, mas também a frieza necessária para atuar em momentos de grande tensão. Ele personifica uma nova geração da Seleção Brasileira, que busca se firmar após anos de resultados aquém do esperado em Mundiais.
A adaptabilidade do time é colocada à prova. Sair de um esquema de infiltrações para um jogo mais direto, com presença de área e cruzamentos, mostra a flexibilidade exigida nas fases eliminatórias de uma Copa. A presença de um jogador como Endrick, com boa impulsão e posicionamento, potencializa essa estratégia.
O próximo adversário, seja Noruega ou Costa do Marfim, apresenta novos desafios. Ambas as seleções são conhecidas pela solidez defensiva e pela força física, características que exigirão da Seleção Brasileira não apenas talento individual, mas também inteligência tática e capacidade de superar adversidades. A lição aprendida contra o Japão — a de que é preciso ter um plano B e capacidade de reação — será valiosa.
A Copa do Mundo entra em sua fase mais cruel. Qualquer erro pode ser fatal. A virada contra o Japão, com a contribuição de Endrick, não apenas garantiu a classificação, mas também injetou uma dose de confiança e demonstrou a resiliência do elenco sob a batuta de Ancelotti.
Contexto
Desde a conquista do pentacampeonato em 2002, a Seleção Brasileira acumulou eliminações em fases importantes da Copa do Mundo, gerando uma cobrança constante por resultados e um estilo de jogo mais consistente. A experiência de Carlo Ancelotti, um dos técnicos mais vitoriosos do futebol europeu, é vista como um trunfo para gerir um elenco talentoso e, ao mesmo tempo, lidar com a pressão de um país que respira futebol. A ascensão de jovens como Endrick representa não só a renovação do plantel, mas também a esperança de reverter um ciclo de frustrações e recolocar o Brasil no topo do cenário mundial.