O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sinalizou as próximas eleições presidenciais no Brasil como um “grande teste” para a estratégia de Washington. O plano, detalhado na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA publicada em 2025, busca manter a “proeminência” americana na América Latina.
Em sua rede social, Trump republicou um artigo do colunista John Gizzi, setorista da Casa Branca para o veículo conservador Newsmax. O texto, intitulado Trump conquista 8 vitórias em 7 anos na América Latina, alinha a série de vitórias de candidatos de direita na região com a agenda do republicano.
Gizzi cita a eleição do candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella na Colômbia. Essa vitória é apresentada como mais um passo no “amplo realinhamento ideológico pró-Trump que está transformando o Hemisfério Ocidental”.
A lista de “triunfos” atribuídos a Trump inclui ainda as eleições de 2026 no Peru, Honduras, Bolívia e Chile. Pleitos mais antigos em El Salvador (2019), Argentina (2023) e Equador (2023) também são mencionados.
“A tendência pró-Trump começou em 2019 com a eleição de Nayib Bukele em El Salvador e tem se intensificado de forma constante desde então”, escreveu Gizzi.
Brasil: O Próximo Grande Teste na América Latina
Apesar da lista de “vitórias”, o artigo republicado por Trump destaca quatro grandes desafios remanescentes na América Latina para seu governo: Venezuela, Cuba, Nicarágua e Brasil.
O Brasil, a maior nação e potência política da região, surge como o “próximo grande teste” para a agenda de Trump no continente. A próxima eleição presidencial brasileira é descrita como a “disputa mais importante do hemisfério”.
O autor do artigo conclui que o ex-presidente americano está “tornando as Américas grandes novamente”.
A adesão do Brasil à lista de países que, segundo o texto, se movem para a direita, mudaria drasticamente o mapa político da América Latina em comparação com uma década atrás. Esse realinhamento potencial impactaria blocos regionais e a política externa dos países membros.
O artigo ainda menciona que apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro estariam se unindo em torno do filho, Flávio Bolsonaro. O objetivo, segundo o texto de Gizzi, seria a tentativa de destituir o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Doutrina Monroe e o “Corolário Trump”
Um documento da Casa Branca, publicado em dezembro de 2025, revela a intenção do governo dos EUA de aplicar um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. Trata-se de uma releitura do projeto doutrinário do século 19, que expandiu a influência norte-americana pelo continente.
A Doutrina Monroe, criada em 1823, afirmava que a “América é para os americanos”. À época, serviu para desafiar as potências europeias na disputa por influência econômica, militar e cultural na América Latina. O lema demarcava uma esfera de interesse dos EUA.
Agora, sob um possível segundo mandato de Trump, os EUA propõem “estabelecer ou expandir o acesso em locais de importância estratégica”. Também buscam “fazer todo o possível para expulsar as empresas estrangeiras que constroem infraestrutura na região”.
Essa abordagem indica uma intensificação da competição geopolítica. O foco na expulsão de empresas estrangeiras é uma clara referência à crescente presença econômica e de infraestrutura da China na América Latina, vista por Washington como uma ameaça à sua hegemonia.
“Após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a proeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a regiões-chave em toda a região”, afirma o documento da Casa Branca. A linguagem reflete uma postura mais assertiva e de intervenção direta nos assuntos regionais, diferente de períodos de maior multilateralismo.
A revitalização dessa doutrina, sob a perspectiva de Trump, sugere um retorno a uma política externa mais unilateralista. Isso pode gerar tensões com países da região que buscam diversificar suas parcerias econômicas e políticas, afastando-se de uma dependência exclusiva dos EUA.
Para o Brasil, a aplicação desse “corolário” pode significar maior pressão. Washington atuaria para alinhar o país aos seus interesses estratégicos, especialmente em setores-chave como energia, tecnologia e infraestrutura. Isso limitaria a margem de manobra do governo brasileiro em suas relações com potências como China e Rússia.
Contexto
A Doutrina Monroe, proclamada em 1823, estabeleceu os EUA como força dominante no Hemisfério Ocidental, impedindo novas colonizações europeias. Ao longo dos séculos 19 e 20, a doutrina justificou intervenções militares e políticas americanas na América Latina. A reinterpretação dessa política sob a ótica de Donald Trump, com foco na “expulsão de empresas estrangeiras” e na “restauração da proeminência americana”, reflete uma intensificação da disputa geopolítica global, principalmente com a China, pela influência e recursos na região. A América Latina, historicamente sob a esfera de influência dos EUA, tornou-se um campo de batalha para diferentes potências, buscando parcerias econômicas e políticas.