Mulheres de comunidades quilombolas brasileiras levam a pauta da **justiça climática** ao centro do debate nacional. Enfrentam secas prolongadas e temporais extremos, vendo a agricultura familiar desaparecer e a cultura local ameaçada. O tema dominou o encontro nacional das **mulheres quilombolas** no Gama, Distrito Federal, que recebeu a visita do presidente **Lula** na quinta-feira, dia 11, encerrando-se no domingo.
No semiárido potiguar, em **Nova Esperança**, comunidade rural quilombola de Baraúna (RN), a realidade é dura. Aos 39 anos, a agricultora **Sueli Bessa** lembra do cheiro forte da goiaba na infância. Hoje, a fruta rara é um símbolo de um passado distante.
As **70 famílias** do local veem outras frutas e hortaliças também sumirem. Ora a seca castiga, ora os temporais destroem o que resta.
A adversidade força mudanças drásticas. Parte da comunidade abandonou o campo e buscou emprego nas indústrias da área urbana, a mais de 20 quilômetros de distância. O acesso, sem asfalto, complica ainda mais a vida, especialmente em dias de chuva forte, quando estradas e ruas se tornam intransitáveis.
A falta de infraestrutura básica não para por aí. Sem abastecimento regular de água e com um poço artesiano insuficiente diante da seca costumeira, a vida e o plantio se tornam um desafio diário.
Sueli Bessa, que hoje vende geleias e compotas, sonha em concluir o ensino médio e cursar enfermagem ou direito. Pretende usar a formação para ajudar o seu povo. Sua filha, **Suelene Ribeiro**, 21, segue a mesma linha. Ela confirma o engajamento de coletivos de mulheres e jovens na luta contra as dificuldades climáticas que afetam a comunidade.
Mulheres Quilombolas Denunciam Racismo Ambiental
A **Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq)** jogou luz sobre essas denúncias. Durante o encontro, lançou o livro “Vozes quilombolas: mulheres em defesa do clima”, um documento de 120 páginas que detalha os impactos em todos os biomas brasileiros.
A agrônoma **Fran Paula**, principal pesquisadora do estudo, é taxativa: as mulheres são as maiores vítimas do avanço de grandes empreendimentos e do desmonte de políticas ambientais. Ela registrou um aumento de assassinatos de mulheres nas áreas onde essa expansão ocorre.
O trabalho apresenta denúncias de impactos. Mostra como o colapso climático, somado à invasão de territórios quilombolas por projetos de larga escala, impacta severamente a vida dessas populações. Não apenas no campo, mas na própria saúde e bem-estar.
Além das denúncias, o livro apresenta estratégias de resistência. Fran Paula, nascida na comunidade de Campina de Pedra (MT) e integrante da Conaq, afirma: “Não trazemos apenas denúncias do racismo ambiental, mas também apontamentos, soluções e as estratégias que as mulheres estão construindo para enfrentar a mudança climática.”
As mulheres, que permanecem nos territórios, exercem uma vigilância ambiental constante. Elas monitoram as mudanças climáticas e suas consequências, percebendo os problemas em seu estágio mais crítico.
Terras Não Tituladas: Porta Aberta para Invasões
Os grandes empreendimentos atingem as comunidades de diversas formas. Usinas de energia eólica, apesar de vendidas como limpas, alteram o modo de vida e produção. A expansão de explorações de petróleo, minérios e monoculturas contamina o solo e a água, afetando a saúde física e cultural. Fran Paula sublinha um quadro de contaminação generalizada, que desestrutura a identidade e a continuidade dos modos de viver tradicionais.
A pesquisadora defende a titulação célere das terras quilombolas. “Não existe **justiça climática** sem território garantido, sem titularização para esses territórios que precisam ser protegidos”, afirma. A falta de demarcação abre caminho para a apropriação indevida e a destruição ambiental.
Em **Mesquita**, comunidade em Cidade Ocidental (GO), vivem 785 famílias, cerca de três mil pessoas. A coordenadora executiva da Conaq, **Sandra Braga**, nascida e criada ali, espera a demarcação para este ano. A comunidade, com registros de moradores desde o século 18, só obteve reconhecimento como território quilombola em 2006, após estudos antropológicos.
A demora na titulação tem consequências diretas. Fazendeiros de soja invadem terras da comunidade, ameaçando um dos maiores símbolos de resistência local: o marmelo. O fruto, essencial para a produção de marmelada e geleia, sofre com as variações climáticas e estiagens. “Meu pai, João Antônio Pereira, foi um grande defensor da floresta nativa”, recorda Sandra Braga, ao lamentar que o marmelo rende menos e tem tamanho reduzido hoje em dia.
Identidade em Risco: O Beiju Ameaçado
As mudanças climáticas colocam em risco não só o sustento, mas a própria identidade dessas comunidades.
Na comunidade **Divino Espírito Santo**, em São Mateus (ES) – também conhecida como Divino Beiju –, o cultivo da mandioca para o beiju artesanal diminuiu drasticamente. É a base de sua economia e sua fama.
Denise Penha, agricultora de 42 anos, disse: “Vendemos no mercado central da cidade. Somos conhecidos pelo beiju.”
Com mais de 300 famílias, a comunidade luta para preservar o plantio da mandioca dos agrotóxicos vizinhos. Garantir o sabor orgânico do beiju é manter viva uma tradição. E um modo de vida.
Contexto
As comunidades quilombolas no Brasil são descendentes de africanos escravizados que resistiram à opressão, formando territórios de liberdade e preservação cultural. Reconhecidas pela Constituição de 1988, enfrentam, historicamente, a luta pela regularização fundiária. A falta de titulação das terras as expõe a conflitos agrários e, hoje, as torna particularmente vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas, agravando um ciclo de injustiça socioambiental e econômica. A pauta da **justiça climática** é, para esses grupos, inseparável da garantia de seus direitos territoriais e da manutenção de suas tradições.