O cenário era de cansaço extremo e desfalques. O São Paulo, em meio à lendária excursão que o consagraria como o Furacão da Europa em 1964, se viu num dilema antes de encarar o Milan em pleno San Siro. A solução? Um empréstimo inusitado que traria ao gramado italiano um craque tchecoslovaco, capitão do exército e violinista erudito, para vestir a camisa Tricolor por apenas 90 minutos.
Ninguém esperava que aquele jogo, um amistoso histórico, reservaria um dos capítulos mais singulares da vasta galeria de jogadores europeus que passaram pelo clube paulista. Uma estrela internacional faria sua única, mas inesquecível, aparição, deixando um legado de humanidade e paixão pelo futebol que transcende o tempo.
O Gigante Europeu em Campo: Uma Partida para a História
Em sua rica história, o Tricolor acumulou 13 jogadores nascidos na Europa. A maioria deles imigrou para o Brasil ainda jovens, possuindo, inclusive, dupla nacionalidade, e construindo aqui grande parte de suas carreiras.
Nos anos mais recentes, outros nomes como Juanfran, Jamal Lewis e Cédric Soares chegaram ao São Paulo já com uma trajetória estabelecida no velho continente, marcando presença de forma mais duradoura.
Mas um profissional em particular se destaca pela peculiaridade de sua passagem: František Šafránek. Sua história no clube paulista é um ponto fora da curva, um relance breve e fascinante que ecoa até hoje.
O Jogo Inesperado em San Siro
Em 24 de junho de 1964, o Tricolor vivia o auge e o limite físico da famosa excursão invicta pela Europa, que rendeu ao time o apelido de Furacão da Europa e a condecorada Fita Azul. Eram 12 jogos em um mês e meio, com uma rotina exaustiva de partidas e viagens.
Para o derradeiro confronto contra o Milan, na Itália, a equipe estava desgastada e desfalcada de peças importantes como Benê e De Sordi. Sem opções para algumas posições, o São Paulo buscou ajuda em campo, apelando aos compatriotas do Madureira e aos tchecoslovacos do Dukla Praha, que também excursionavam por lá.
Assim, solicitaram o empréstimo provisório de dois atletas: o atacante Zezé e o defensor Šafránek. Aquele dia em Milão se tornaria o único da carreira do zagueiro tcheco vestindo a camisa são-paulina.
Šafránek, o terceiro em pé, da esquerda para a direita, pela equipe da Tchecoslováquia.
O Violino no Vestuário e a Alma de um Craque
Nascido em Praga, em 2 de janeiro de 1931, František Šafránek era um lateral ambidestro, capaz de atuar pelas duas beiradas do campo. Sua reputação no futebol já era considerável, sendo um jogador de renome da seleção tchecoslovaca.
Ele havia disputado duas Copas do Mundo (1954 e 1958) e participado da Eurocopa de 1960, competição em que a Tchecoslováquia conquistou o terceiro lugar. Ao todo, foram 22 partidas pela seleção e um gol marcado, evidenciando sua importância no cenário europeu.
Por clubes, iniciou sua jornada nas categorias de base do Vršovice e subiu aos times principais pelo Spartak Sokolovo em 1949. Três anos depois, em 1952, transferiu-se para o Dukla Praha, então conhecido como ATK Praha, onde se tornaria uma lenda.
Entre suas qualidades em campo, destacava-se o chute potente, como no gol de falta de mais de 40 metros contra o CDNA Sofia, da Bulgária, que garantiu a classificação do time de Praga para a Copa dos Campeões da Europa de 1961/1962. Seus companheiros o viam como um exímio lançador, de passes precisos, fruto de uma rotina diária de quatro horas de treinamento.
Fora dos campos, porém, a grande paixão de Šafránek era outra: o violino. Uma faceta que o tornava ainda mais especial, distanciando-o do estereótipo do jogador.
“É por isso que seus amigos o apelidaram de Paganini (famoso compositor). Šafránek foi um verdadeiro artista, um músico, daqueles que não se vê muito por aí. Graduou-se em conservatório. Ele carregava o violino para todos os lugares e, a pedido dos ouvintes, tocava canções folclóricas de Mozart, valsas de Beethoven, e mesmo sucessos da moda mais recente, como Smetana. Após os treinos, enquanto os companheiros relaxavam, ele praticava violino”, resumiu a página do Uda Dukla na internet, na galeria dos grandes ídolos.
Šafránek, ao centro (terceiro da esquerda para a direita após o goleiro), em partida da Eurocopa de 1960.
Impacto na região
A história de František Šafránek é um lembrete vívido da universalidade do futebol, um esporte que conecta culturas e gerações. Para os torcedores e praticantes de Jundiaí e cidades vizinhas, essa narrativa ressoa de maneira particular.
A paixão pelo Tricolor, um gigante do futebol brasileiro, ecoa nos gramados de várzea e nas escolinhas que formam futuros talentos na região. É um espelho do amor incondicional pelo jogo, presente em cada canto do país.
A trajetória de um atleta tão especial, que em um dia vestiu a camisa de um clube brasileiro e em outro encantava com seu violino, inspira a muitos que enxergam no esporte mais do que apenas uma competição. Ela reforça os laços entre o futebol de elite e o dia a dia dos aficionados, mostrando que a magia do jogo está também nas histórias improváveis e nas conexões humanas.
Esses valores se replicam nos clubes amadores de Jundiaí e região, onde cada partida é uma nova página na paixão local pelo futebol. O futebol transcende fronteiras, gerações e até mesmo as esferas profissionais, mantendo sua chama acesa no coração de cada torcedor.
Mais que um Jogo: O Legado do Atleta-Músico
O jogo em si, no dia 24 de junho de 1964, foi um amistoso internacional no Stadio Giuseppe Meazza, em Milão. O São Paulo enfrentou o forte Milan e venceu por 1 a 0, com gol de Leal aos 10 minutos do segundo tempo.
A escalação do Tricolor naquele dia contava com Suly no gol; František Šafránek, Bellini e Virgílio na defesa; Leal e Jurandir no meio; e Faustino, Marco Antônio (Prado), Del Vecchio, Bazzaninho e Zezé no ataque. O técnico era Oto Vieira.
No Milan, um time de estrelas como Maldini, Altafini e Rivera. A vitória não só manteve a invencibilidade da excursão, como também marcou o único registro de Šafránek com a camisa do São Paulo.
Segundo o relato de Orlando Duarte para A Gazeta Esportiva na época, o defensor tcheco, de 32 anos, professor de violino e capitão do exército, rapidamente conquistou o carinho dos jogadores são-paulinos. Sua simpatia e inteligência facilitaram a integração imediata, mesmo com a barreira da língua.
Ao final da partida, em um gesto emocionante, o clube brasileiro presenteou Šafránek com a camisa 2 com a qual atuou, além do calção, uma flâmula autografada, café brasileiro e 40 dólares. O tcheco, com lágrimas nos olhos, beijou a camisa, demonstrando seu orgulho.
Até 1966, quando deixou Praga, Šafránek acumulou oito títulos nacionais pelo Dukla, disputando 238 partidas de Liga e marcando 28 gols. Ele seguiu a carreira no Spartak de Vlašim e aposentou-se no Strašnice, em 1976.
Seu amor pelo futebol foi tão profundo que ele faleceu praticando o esporte, em uma partida de veteranos do Dukla, em 27 de junho de 1987. Um final poético para uma vida dedicada à bola e à música.
Quando a história cruza o gramado
A excursão do São Paulo de 1964, coroada com a Fita Azul e o apelido de Furacão da Europa, representa um período de ouro na história do futebol brasileiro, quando os clubes nacionais se aventuravam pelo Velho Continente, exibindo seu talento e superando os gigantes locais.
A presença de jogadores estrangeiros em equipes brasileiras, como a do tcheco Šafránek, era, em grande parte, resultado de fluxos migratórios ou de circunstâncias muito específicas, como a que vimos aqui. Contratar um atleta europeu já estabelecido em seu país para apenas um jogo era algo impensável para os padrões atuais, mas comum na improvisação do futebol daquela época.
Hoje, com o mercado globalizado e a profissionalização extrema, a história de Šafránek ganha um brilho ainda maior. Ela nos transporta para um futebol mais romântico, onde a paixão e a camaradagem podiam, em um momento de necessidade, unir um gigante brasileiro a um talentoso zagueiro tchecoslovaco, apenas por uma noite.
Para o torcedor do São Paulo, a memória de František Šafránek serve como um capítulo curioso e enriquecedor, que sublinha a capacidade do clube de se adaptar e, mesmo nas situações mais adversas, escrever páginas memoráveis. É a prova de que a história de um time é tecida por muitas mãos, ou, neste caso, pelos pés de um zagueiro-violinista.
Mesmo que por um breve instante, seu nome está gravado nas páginas tricolores, um testemunho da universalidade e da beleza inesperada que só o futebol consegue proporcionar.