O cacique Raoni Metuktire, 94 anos, permanece internado em estado grave, mas estável, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital São Paulo, vinculado à Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O líder indígena Kayapó foi transferido na manhã desta sexta-feira (19) de Sinop, Mato Grosso, para a capital paulista, após apresentar obstrução intestinal, desidratação e pneumonia aspirativa.
Um boletim médico divulgado há pouco detalha o quadro: Raoni recebe antibioticoterapia e tratamento de suporte clínico para as múltiplas condições. Apesar da gravidade, o cacique respira espontaneamente, sem necessidade de ventilação mecânica. A alimentação ocorre por nutrição parenteral, administrada via intravenosa.
O plano terapêutico prevê monitorização contínua e a realização de exames para investigação diagnóstica. A assessoria do hospital informou que uma nova atualização sobre o estado de saúde do paciente será emitida na tarde de sábado (20).
A transferência, uma operação complexa, ocorreu às 11h30 da sexta-feira. Raoni deixou o Hospital e Maternidade Dois Pinheiros, em Sinop, para seguir a São Paulo.
O acompanhamento médico na capital paulista fica sob a responsabilidade de Franz Robert Apodaca Torrez, cirurgião e professor da Unifesp, que já monitorava o caso à distância, em articulação com as equipes médicas do Mato Grosso.
Símbolo Global da Amazônia
A saúde do cacique Raoni Metuktire mobiliza mais do que sua família e comunidade. O líder indígena Kayapó, de 94 anos, é uma das vozes mais conhecidas da luta pela preservação da Amazônia e pelos direitos dos povos indígenas no mundo. Sua figura, marcada pelo adorno labial tradicional (o botoque), transcendeu fronteiras, tornando-se um ícone global.
Raoni levou a causa indígena a palcos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), e se reuniu com chefes de estado, Papas e figuras públicas de relevância em diversas ocasiões. Entre elas, o presidente francês Emmanuel Macron e o ex-secretário-geral da ONU Ban Ki-moon.
Sua voz tem ecoado em momentos críticos.
Em 2019, por exemplo, o cacique empreendeu uma extensa turnê pela Europa para arrecadar fundos e alertar sobre o crescente desmatamento e as ameaças às terras indígenas no Brasil. Ele criticou abertamente políticas governamentais que, segundo ele, incentivam a invasão de territórios e a exploração predatória da floresta. A saúde de Raoni, portanto, assume uma dimensão pública e simbólica, observada com apreensão por ambientalistas, defensores dos direitos humanos e líderes indígenas de todas as etnias ao redor do globo.
Para muitos, ele é a personificação da resistência amazônica.
O território do Xingu, onde vivem os Kayapó, tem sido palco de tensões crescentes envolvendo desmatamento ilegal, garimpo, agronegócio e invasões. A voz de Raoni tem sido um contraponto direto a essas pressões, um lembrete constante da necessidade de proteção.
Histórico de Atenção à Saúde
Não é a primeira vez que a saúde do cacique Raoni gera apreensão e mobiliza equipes médicas. Em julho de 2020, o líder Kayapó foi internado às pressas em Sinop com um quadro agudo de diarreia, desidratação e uma úlcera duodenal. Na ocasião, exames detalhados detectaram uma infecção intestinal grave.
Após alguns dias, foi necessária sua transferência para uma UTI em Cuiabá, onde recebeu alta depois de quase uma semana de intensa vigilância e tratamento. Aquele episódio já demonstrava a fragilidade inerente à idade avançada, que sempre adiciona um desafio significativo a qualquer complicação de saúde.
A idade de 94 anos coloca o cacique Raoni no grupo de maior risco para condições como pneumonia aspirativa e obstruções intestinais, que podem evoluir rapidamente para quadros críticos. A família do cacique e a Associação Floresta Protegida (AFP), entidade que representa os Kayapó, costumam ser as principais fontes de informação sobre seu estado de saúde, articulando-se diretamente com as equipes médicas para garantir a melhor assistência. A transparência na divulgação dos boletins tem sido uma constante, dada a repercussão de seu nome e a preocupação generalizada com seu bem-estar.
A obstrução intestinal, a desidratação severa e a pneumonia aspirativa são condições que exigem cuidados intensivos e vigilância ininterrupta em pacientes idosos. A equipe médica do Hospital São Paulo avalia a resposta de Raoni aos tratamentos com antibióticos e de suporte, e segue em busca de identificar a causa exata da obstrução, um processo que pode ser complexo e demandar múltiplos exames diagnósticos.
A expectativa imediata é que a monitorização contínua e a assistência especializada na UTI permitam a estabilização completa do quadro e a eventual recuperação, embora o processo possa ser longo e exija paciência. A comunidade Kayapó, os familiares do cacique e seus inúmeros apoiadores no Brasil e no exterior aguardam com expectativa cada nova informação sobre seu estado, torcendo pela plena recuperação de um de seus mais valorosos defensores.
Contexto
O cacique Raoni Metuktire é uma das mais proeminentes lideranças indígenas do Brasil e uma figura de reconhecimento mundial. Desde os anos 1980, quando ganhou projeção internacional ao lado do cantor Sting, tem sido um incansável defensor da floresta amazônica e dos direitos territoriais dos povos indígenas. Sua atuação política e ambiental é marcada por viagens ao exterior, encontros com líderes globais e participação em campanhas contra o desmatamento e o aquecimento global. Líder do povo Kayapó, que habita uma vasta área na fronteira entre Mato Grosso e Pará, Raoni personifica a resistência indígena frente às pressões sobre a Amazônia, consolidando-se como um símbolo vivo da luta pela sustentabilidade e pela autodeterminação dos povos originários.