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Polícia Federal aprofunda investigação contra ex-banqueiro Daniel Vorcaro por tráfico de pessoas e exploração sexual

A Polícia Federal intensifica as investigações sobre um dos inquéritos derivados do complexo caso Master. As apurações focam em possível tráfico de pessoas e exploração sexual, buscando determinar se havia mulheres menores de 18 anos envolvidas. Os investigadores querem saber se as vítimas eram trazidas ao Brasil e levadas a outros países sem documentação, sendo utilizadas em uma prática de cafetinagem. O objetivo seria “agradar” autoridades e convidados em eventos e convescotes promovidos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

A PF suspeita que Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco Master, atuava como sócio oculto de agências de recrutamento de garotas de programa. Mensagens atribuídas a Vorcaro, inicialmente reveladas pelo UOL e confirmadas pela Gazeta do Povo, mostram que as mulheres eram tratadas com termos como “escravas” e “kengas”. Os diálogos sugerem que elas estavam sendo “doutrinadas” para o trabalho, indicando um esquema organizado que vai além do colapso financeiro do banco Master e aponta para crimes contra a dignidade humana.

Nesta frente de investigação, a Polícia Federal busca confirmar a existência de um suposto agenciamento de garotas de programa. Muitas delas seriam estrangeiras, incluindo refugiadas de zonas de conflito como Ucrânia e Rússia, o que adiciona uma camada de gravidade à apuração. O ex-banqueiro, por sua vez, nega categoricamente as acusações, alegando falta de autoria e descontextualização das provas.

A linha de investigação detalha que as mulheres eram conduzidas a festas e encontros reservados com autoridades e amigos de Vorcaro. Nesses eventos, uma prática sistemática envolvia a proibição do uso de celulares, visando assegurar o anonimato dos participantes. Preferencialmente, as mulheres escolhidas não falavam ou entendiam português, o que, para os investigadores, garantia ainda mais o sigilo sobre as identidades dos envolvidos e o que realmente ocorria nas festas.

O Mecanismo da Rede: Agenciamento e Financiamento

Os diálogos rastreados, atribuídos a Daniel Vorcaro e a personagens suspeitos de atuarem como seus intermediários, sugerem a participação ativa do ex-banqueiro na seleção das mulheres. As mensagens indicam que Vorcaro autorizava pagamentos e financiava toda a estrutura. A rede de agenciamento de garotas de programa teria recebido aportes milionários, intensificando sua estruturação e alcance a partir de 2023, conforme as provas em posse da PF.

Até o momento, o rastreamento da investigação aponta para uma estrutura complexa que combinava uma agência de modelos com intermediários em diversos países. Os recursos para manter essa operação eram provenientes do ecossistema financeiro do banco Master, o que levanta sérias questões sobre uso indevido de verbas. Investigadores querem saber se todo o conjunto configurava uma prática de cafetinagem e, em última instância, tráfico de pessoas, crimes com penas severas no Código Penal brasileiro.

Este arranjo, que mesclava o glamour das agências de modelo com a clandestinidade de festas restritas, revela a sofisticação da suposta organização. A complexidade do financiamento e da logística internacional indica a tentativa de ocultar a verdadeira natureza das atividades, transformando a prática em um desafio investigativo para as autoridades.

A Gênese de uma “Agência” de Recrutamento Suspeita

A ideia de criar uma “agência” com finalidade ilícita teria partido do círculo de um promotor de eventos que mantinha proximidade com Daniel Vorcaro. Em outubro de 2023, interlocutores informavam o ex-banqueiro que a agência serviria para “ajustar as meninas” de forma indireta, minimizando a exposição do grupo e de seus financiadores. Essa estratégia buscava criar uma fachada de legitimidade para as operações.

Em dezembro de 2023, Daniel Vorcaro recebeu o contrato para adquirir 50% de uma dessas empresas que agenciariam “modelos” pelo valor de R$ 1,5 milhão, pagos em três parcelas de R$ 500 mil. Para um dos promotores citados nas investigações, a aquisição era motivo de comemoração, pois eles estariam “blindados”, utilizando a agência como um canal de recrutamento com o auxílio de agenciadores sem levantar suspeitas ou questionamentos das autoridades.

Em uma das trocas de mensagens analisadas, a PF identificou que, além das estrangeiras, mulheres brasileiras também integravam o grupo. Vorcaro teria solicitado que um intermediário fosse ao Sul do país para “buscar umas gatas” para o cadastro e mandou fazer “seleções”. Ele também sugeriu a contratação de todas pela agência e a marcação de entrevistas, estratégia que facilitaria a obtenção de vistos tanto para as estrangeiras quanto para as brasileiras que seriam levadas para festas e eventos internacionais.

As mensagens interceptadas apontam para uma clara divisão de funções dentro da suposta organização criminosa. O promotor, próximo a Vorcaro, atuava como executor, responsável por encontrar e “doutrinar” as mulheres. Outro brasileiro, proprietário de uma empresa sediada nos Estados Unidos, cuidava de toda a logística da operação, “encomendando” mulheres a recrutadores, reservando voos e hotéis, e liberando dinheiro para as despesas. Vorcaro, conforme as conversas, detinha o poder de decisão final, definindo quem entrava, quem saía e quanto cada uma receberia, reforçando sua posição central no esquema. Ninguém era pago sem a ordem explícita do “chefe”, o ex-banqueiro.

O grupo era segmentado em “times” para melhor organização e controle. Um deles, identificado como “Famiglia A”, ficaria sempre à disposição do ex-banqueiro. O grupo “B” atenderia eventos de grande volume, especialmente aqueles utilizados para a cooptação de autoridades. As mais jovens, algumas menores de idade, pertenciam a um grupo chocantemente identificado como “creche”. As conversas interceptadas no celular de Vorcaro revelam uma linguagem desumanizadora, onde as mulheres são descritas como “escravas” e “kengas”, expondo a natureza degradante da exploração.

As mulheres recrutadas eram levadas para eventos em grandes cidades como São Paulo, Rio, Paris, Londres, Roma e Dubai. Em alguns casos, as “festinhas” contavam com a presença de autoridades. Em uma festa de Halloween em 2023, foram contadas cerca de 110 mulheres, de dois grupos agenciadores distintos. Em Londres, em abril de 2024, teriam sido quase 100 garotas. As conversas indicam uma prática comum: os celulares de todas eram recolhidos antes dos “eventos”, uma medida para garantir o sigilo e evitar registros que pudessem comprometer os participantes.

Entre as recrutadas, destaca-se o caso de uma ucraniana de 19 anos, cuja situação de vulnerabilidade é um ponto central da investigação. Segundo um dos interlocutores de Vorcaro, apontado como agenciador, a jovem não tinha para onde retornar devido aos bombardeios em seu país de origem. A sugestão foi incluí-la na agência para “lavar as mãos” das responsabilidades sobre sua situação. Em abril de 2024, mesmo com Vorcaro decidindo mandar embora as russas e ucranianas, o promoter lembrou que os países das jovens ainda estavam em guerra, ressaltando a precariedade de suas vidas.

A estrutura financeira do esquema também está sob análise. Uma das agências emitia faturas que eram repassadas por Vorcaro ao setor financeiro do banco Master, enquanto as despesas no Brasil eram direcionadas para outra empresa. O investimento total envolvia cifras milionárias, cujo rastreamento completo ainda está em andamento pelas autoridades. O promotor, um dos principais interlocutores de Vorcaro, recebia R$ 120 mil por mês pelos serviços prestados, evidenciando o alto custo e a lucratividade da operação.

Para configurar o tráfico de pessoas, os tribunais brasileiros geralmente exigem a comprovação de violência ou coação, elementos que a Polícia Federal ainda apura. A condição de estrangeira ou refugiada, por si só, não configura o crime, mas agrava a situação e indica vulnerabilidade. A investigação tenta entender se essas garotas viajavam em aeronaves particulares do ex-banqueiro e se possuíam documentação regular para o trânsito internacional, aspectos cruciais para a caracterização do crime.

A Desumanização das Vítimas: Termos Chocantes Revelados

Nas conversas identificadas no celular de Daniel Vorcaro, a desumanização das mulheres é patente. O promotor e o ex-banqueiro chegavam a se referir a elas como “escravas” e “kengas”. Os diálogos revelam avaliações sobre o desempenho das mulheres e discussões detalhadas sobre suas condições de contratação, explicitando um controle extremo e uma visão mercantilista sobre suas vidas.

Em uma das trocas de mensagens chocantes, o promotor escreve sobre uma “escravinha doutrinada” e afirma que vai “escravizar” uma delas para o trabalho daquela noite. Em outro trecho, ele oferece levar duas “escravas” do Rio de Janeiro para um evento específico. As mensagens também indicam que havia homens contratados para as festas, embora em menor número. Eles eram pejorativamente chamados de “macacos”.

As mulheres, em muitos diálogos, aparecem como “flores” prontas para ficar à disposição dos convidados, sublinhando a objetificação. Em junho de 2024, ao aprovar um valor para uma mulher fazer compras durante uma festa na França, Vorcaro comentou que “essas meninas escravas eram demais”, reforçando a naturalização do tratamento degradante.

Em outra conversa, o promotor detalha o processo de “doutrinação” das escolhidas para integrar o grupo mais próximo do banqueiro, a “Famiglia A”. Ele chegou a pedir que Vorcaro fingisse não saber o que ele ensinava a essas mulheres, indicando uma tentativa de blindar o ex-banqueiro de uma responsabilidade direta, mesmo ele estando ciente das práticas.

Vulnerabilidade e Recrutamento Internacional

O caso mais sensível das investigações envolve uma refugiada ucraniana de 19 anos. Ela chegou ao grupo em outubro de 2023, entre as estrangeiras levadas a uma festa de Halloween em São Paulo. No início de novembro, Vorcaro avisou que deixaria de custear hotel e passagens para quem desejasse permanecer no Brasil. A jovem, em situação de extrema vulnerabilidade, optou por ficar.

Em 7 de novembro, o promotor relatou a presença de três refugiadas ucranianas, ao que Vorcaro respondeu que era preciso “sobrar alguma para ele”. Semanas depois, o promotor explicou que a jovem não podia retornar ao seu país, pois seus pais consideravam arriscado devido aos bombardeios. Em 14 de dezembro, ele reiterou que ela não tinha para onde ir, mencionando que a jovem havia viajado 14 horas de ônibus para sair da Ucrânia e que sua mãe lhe enviava áudios dos bombardeios, retratando a gravidade de sua situação.

“Bora colocá-las na agência e daí lavamos as mãos”, sugeriu o promotor a Daniel Vorcaro, indicando uma tentativa de desresponsabilização legal e moral diante da fragilidade da jovem. Em abril de 2024, no entanto, Vorcaro decidiu mandar embora garotas do Leste Europeu e fazer uma “seleção” de quem permaneceria no grupo. Os diálogos também indicam a presença de outras nacionalidades no grupo, incluindo venezuelanas, argentinas e polonesas, além de brasileiras, demonstrando o alcance transnacional da suposta rede.

Para os investigadores, o dado mais relevante recai sobre o possível papel central de Daniel Vorcaro. Nas mensagens, o promotor aparece como executor, enquanto o ex-banqueiro é quem decidia quem entrava, quem saía e quanto cada mulher receberia. “Chefe manda e a gente executa”, escreveu o promotor a Vorcaro, afirmando que não pagava as mulheres sem autorização direta do ex-banqueiro. Foi Vorcaro, segundo as conversas, quem mandou “zerar e recomeçar” o grupo em novembro de 2023 e quem pediu “seleções” de mulheres em janeiro e fevereiro de 2024. Os diálogos mostram ainda uma festa de aniversário organizada para uma jovem então com 18 anos, apelidada com o nome de um cereal infantil, reforçando o conhecimento e envolvimento direto de Vorcaro em detalhes da operação.

Vorcaro Nega Acusações e Sugere Delação Premiada

A defesa de Daniel Vorcaro divulgou nota em que ele nega “veementemente” ter explorado ou desrespeitado mulheres, afirmando que tal conduta “não é da sua índole”. O ex-banqueiro declara não reconhecer a autoria, autenticidade e o contexto de vários dos conteúdos vazados, argumentando que as mensagens são “pinçadas” e os prints descontextualizados. Ele alega que essa divulgação o expõe de forma indevida enquanto está impedido de se manifestar oficialmente, uma vez que se encontra preso pela segunda vez desde março.

Vorcaro classifica a divulgação como uma manipulação criminosa de mensagens obtidas ilicitamente. Ele afirma que buscará a responsabilização dos autores nas esferas cível e criminal. O ex-banqueiro também reitera o desejo de falar com transparência sobre todos os assuntos investigados e colaborar com as apurações, o que seus advogados interpretam como um sinal de que ele pode tentar um novo acordo de delação premiada, uma ferramenta jurídica que permite a redução de pena em troca de informações relevantes.

O caminho para uma delação, no entanto, apresenta incertezas. Daniel Vorcaro está detido no 19º Batalhão da Polícia Militar, no Complexo da Papuda, em Brasília. Ele já teve duas propostas de colaboração rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR). O principal motivo foi que os textos apresentados omitiam fatos que os investigadores já haviam descoberto, poupando nomes de pessoas que mantiveram relações com ele e sobre as quais a PF já havia avançado por conta própria, demonstrando uma falta de completude nas ofertas anteriores.

A rede de contatos é, aliás, um dos eixos centrais das investigações em curso. Desde que as mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro passaram a vazar, ele tem sido apontado como um grande articulador de relações com políticos, empresários e ministros de tribunais superiores. O objetivo seria obter decisões favoráveis ao banco Master no Legislativo e no Judiciário, revelando uma intrincada teia de influência que permeia diferentes poderes da República.

O tema já mereceu atenção da Polícia Federal. No dia 13, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, cobrou do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, o encaminhamento de todas as menções a ministros que aparecem no caso Master. Embora nenhum magistrado seja formalmente investigado até o momento, Fachin pretende avaliar o contexto das comunicações para adotar as medidas que achar necessárias, incluindo a possibilidade de enviar o caso ao plenário da Corte para discutir a abertura de investigações contra ministros, caso os indícios se confirmem.

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