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Ouro despenca com guerra no Irã; Risco ignora queda de X%?

Ouro Desaba: Queda de 22% Surpreende Investidores e Analistas

O mercado de ouro enfrenta uma reviravolta drástica. Após atingir um pico histórico no início de 2026, o metal precioso registra uma queda acentuada, surpreendendo investidores e analistas. A cotação da onça-troy em Nova York, que havia saltado de R$ 4.341,20 no final do ano passado para US$ 5.586,20 em 29 de janeiro, despencou para US$ 4.348,20 na mínima do dia de hoje. Esse movimento abrupto levanta questionamentos sobre o futuro do ouro como porto seguro em tempos de incerteza.

A desvalorização, que já acumula 22% (US$ 1.238,00) desde o pico, ganha contornos ainda mais intrigantes diante do contexto geopolítico. A intensificação das tensões no Irã, em vez de impulsionar a demanda por ouro, parece ter acelerado sua queda. Desde o início do conflito, em 28 de fevereiro, o metal já perdeu mais de 16% do seu valor em relação à máxima do ano. Essa inversão de expectativas expõe a complexidade dos fatores que influenciam o mercado do ouro.

Correção de Preços ou Mudança de Paradigma?

A forte queda do ouro impacta diretamente os fundos multimercados, que apostavam na valorização do metal. A expectativa de um dólar mais fraco e o aumento da dívida pública nos países desenvolvidos eram os principais catalisadores dessa aposta. Agora, esses fundos amargam perdas significativas, enquanto especialistas se debruçam sobre as causas da repentina desvalorização e tentam prever o futuro do ouro.

Correção Pode Continuar, Diz Economista

Rodrigo Marques, economista-chefe da Nest Asset, avalia que o movimento atual representa uma correção de preços após um período de valorização excessiva. Segundo Marques, o fluxo de compra dos bancos centrais impulsionou a alta inicial, atraindo um movimento especulativo de investidores. A ausência de novas sanções e a flexibilização das negociações de petróleo russo enfraquecem o papel do ouro como proteção contra conflitos geopolíticos. Ele acredita que a correção pode continuar até o nível de US$ 4.200, mantendo, ainda assim, a tendência de alta no longo prazo.

A expectativa de queda nas taxas de juros americanas, que antes favorecia o ouro, também foi adiada, contribuindo para a pressão de baixa. A combinação desses fatores sugere que a volatilidade no mercado do ouro pode persistir no curto prazo.

Vendas Forçadas no Oriente Médio Aceleram a Queda

A queda do ouro durante o conflito no Irã contraria a lógica tradicional do mercado. Em vez de buscar proteção no metal, os investidores parecem estar se desfazendo de suas posições. Danilo Moreno, analista da Investo, aponta que a guerra impactou severamente as receitas de petróleo e gás dos países produtores do Oriente Médio. Essa situação leva à liquidação de ativos de alta liquidez, como ouro e títulos do Tesouro americano, para cobrir necessidades de caixa imediatas. Trata-se, portanto, de uma venda forçada, e não de uma decisão estratégica de alocação.

Esse cenário atípico pressiona ainda mais os preços do ouro, em um momento de incerteza global. A necessidade de liquidez supera a busca por segurança, desafiando as expectativas do mercado.

Especulação e Desmonte de Posições Amplificam a Queda

Além das vendas forçadas, o posicionamento especulativo em Exchange Traded Funds (ETFs) de ouro também contribui para a queda. Nos últimos três a seis meses, a especulação em torno do metal havia se intensificado, impulsionando os preços a recordes históricos. Quando os preços começam a cair, essas posições são desmontadas rapidamente, criando um efeito cascata que amplia a desvalorização, explica Moreno. Esse movimento de reversão especulativa parece ter pesado bastante em março, intensificando a queda do ouro.

A combinação de fatores técnicos e geopolíticos cria um ambiente desafiador para o mercado do ouro. A reversão das expectativas e a busca por liquidez amplificam a volatilidade, exigindo cautela por parte dos investidores.

Impacto da Política Monetária Americana e Custo de Oportunidade

O ambiente macroeconômico americano também exerce influência sobre o mercado do ouro. A cautela do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, em relação ao ritmo de cortes de juros e a alta nos rendimentos dos títulos do Tesouro, impulsionada pelas vendas dos países do Oriente Médio, aumentam o custo de oportunidade de manter ouro, que não paga juros. Essa dinâmica desfavorece o metal precioso, incentivando os investidores a buscar alternativas mais rentáveis.

O mercado acompanha de perto as decisões do Fed, antecipando seus impactos sobre a inflação e as taxas de juros. A incerteza em relação ao futuro da política monetária americana contribui para a volatilidade do ouro.

O Que Está em Jogo: Estabilidade Financeira Global

A queda do ouro levanta questões sobre a estabilidade financeira global. Em tempos de incerteza, o metal precioso tradicionalmente desempenha um papel de refúgio, protegendo os investidores da volatilidade dos mercados. No entanto, a recente desvalorização do ouro desafia essa premissa, expondo a complexidade dos fatores que influenciam o mercado financeiro.

As decisões dos bancos centrais, as tensões geopolíticas e os movimentos especulativos convergem para criar um cenário desafiador para os investidores. A busca por segurança e rentabilidade exige cautela e análise criteriosa.

Acesso ao Ouro Facilitado para o Investidor Brasileiro

Apesar da volatilidade, o investidor brasileiro tem acesso facilitado ao mercado de ouro, sem precisar adquirir o metal físico ou lidar com questões de custódia e câmbio. Moreno destaca os ETFs (Exchange Traded Funds) como o GLDX11 da Investo, que oferece exposição direta ao preço do ouro em dólar, com taxa de administração total de 0,55% ao ano e liquidez em dois dias úteis. Para quem ainda não tem ouro na carteira, esse ajuste de preços pode representar um ponto de entrada mais interessante do que as máximas recentes, avalia Moreno.

Ele alerta, no entanto, para a importância de uma entrada gradual, em vez de uma alocação concentrada de uma só vez. O ambiente de juros elevados nos EUA ainda pode gerar volatilidade no curto prazo, exigindo cautela por parte dos investidores.

Ouro Estava “Muito Caro” Para Servir de Proteção, Diz Especialista

Marcos Praça, diretor de Análises da Zero Markets, ressalta que o ouro já havia servido de proteção para a desvalorização do dólar, impulsionada pela expectativa de corte de juros e diversificação global. No entanto, com o início da guerra no Irã, o metal estava muito valorizado, limitando seu potencial de alta. A realização de lucros e a busca por liquidez em dólar, para aproveitar oportunidades nas bolsas americanas, contribuíram para a queda. Houve ainda uma alta dos juros dos títulos americanos, diante da expectativa de que a alta do petróleo pressionará a inflação. Quanto mais os juros americanos sobem, mais o investidor sai do ouro e vai para os títulos, até porque o ouro já estava muito caro, explica.

A combinação de fatores técnicos e macroeconômicos explica a desvalorização do ouro. A busca por rentabilidade e aversão ao risco impulsionam os investidores a buscar alternativas mais atrativas.

De Olho no Conflito Irã-EUA

Apesar da queda recente, Praça acredita que a tendência ainda é positiva para o ouro no médio e longo prazo. O metal saiu de US$ 2 mil a onça-troy em 2024 para mais de US$ 4 mil hoje. No curto prazo, ele tende a sofrer pelos ruídos provocados pela guerra no Irã nos mercados. A questão no curto prazo é quanto tempo vai durar o conflito, que parecia que ia acabar no início da semana e agora já se fala em tropas americanas no Irã, lembra.

Nesse caso, a tendência do conflito é piorar no curto prazo, com o Irã reagindo com os poucos recursos que restam, fechando o Estreito de Ormuz e atacando outros países. As coisas tendem a caminhar para uma solução, mas é difícil saber quando, avalia.

Ouro Como Diversificação de Longo Prazo

Praça enfatiza que a compra de ouro só faz sentido como proteção de longo prazo para parte da carteira. No momento, o ideal é o investidor aproveitar a alta dos juros nos títulos de renda fixa, prefixados, atrelados à inflação ou mesmo em Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), já que a Taxa Selic não vai cair tão rápido. Para quem pensa em aproveitar a queda para comprar ouro, Praça lembra que há vários ETFs de ouro negociados na B3, como o OURO11, AURO11, GOLD11, GOLX11 e o GOLB11. Esses ETFs variam de acordo com o preço do metal no exterior e com a cotação do dólar em reais.

A diversificação é fundamental para proteger a carteira de investimentos em momentos de incerteza. O ouro pode ser uma alternativa interessante para quem busca proteção no longo prazo.

Múltiplos Fatores Explicam a Queda, Diz Ex-Estrategista do Goldman Sachs

Robin Brooks, ex-estrategista-chefe de Moedas do Goldman Sachs, aponta três razões para a queda do metal em seu blog. O primeiro foi o aumento da base de investidores por conta da alta no começo do ano, que atraiu participantes que tradicionalmente não operavam ouro, como hedge funds e investidores de varejo via ETFs, o que tornou o mercado mais sensível a movimentos de queda. O mesmo aconteceu com outros metais preciosos, como a prata, que também teve fortes perdas.

A segunda explicação é a realização de lucros, já que muitos desses investidores embolsaram os ganhos diante do aumento da incerteza com o início da guerra do Irã. A terceira razão seria a necessidade de grandes investidores de cobrir posições alavancadas em outros mercados que tiveram fortes quedas, como as bolsas, após o início do conflito. E como o ouro havia subido bastante, foi um dos primeiros a ser vendido para fazer caixa. Apesar disso, Brooks afirma que continua vendo a tendência do ouro como de alta, com base no cenário de enfraquecimento das moedas em meio ao descontrole fiscal e forte endividamento dos governos dos países desenvolvidos.

Contexto

O mercado de ouro é influenciado por uma variedade de fatores, incluindo política monetária, eventos geopolíticos e sentimento dos investidores. A recente queda no preço do ouro destaca a importância de entender esses fatores e suas potenciais interações. A volatilidade no mercado do ouro pode ter um impacto significativo sobre os investidores e sobre a economia global.

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