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Folha Jundiaiense

Novas tecnologias camuflam vapes e ameaçam saúde de jovens no Brasil

O consumo de cigarros eletrônicos, ou vapes, por jovens avança no Brasil, impulsionado por disfarces tecnológicos que os tornam quase invisíveis. Esse cenário eleva drasticamente o risco de câncer no país, alerta o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, diretor executivo da Fundação do Câncer.

A preocupação da instituição converge com a campanha global da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Dia Mundial sem Tabaco, cujo lema é “Desmascarando o apelo, combatendo a dependência de nicotina e tabaco”.

Mesmo com a proibição de comercialização de vapes no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009, o uso desses dispositivos disparou. Adquire-se os produtos com facilidade em redes sociais, sites e no comércio informal.

Dados recentes da Receita Federal reforçam a necessidade de combater esses produtos, com apreensões que somaram 238.801 unidades de cigarros eletrônicos entre janeiro e fevereiro, uma média de mais de 4 mil dispositivos por dia.

A invisibilidade é uma estratégia. Muitos desses aparelhos não exalam cheiro, outros usam aromatizantes. Há ainda os que produzem apenas um vapor, quase imperceptível, abrindo caminho para o vício precoce de uma nova geração dependente de nicotina.

A Estratégia dos Disfarces Tecnológicos

Os disfarces fazem com que os vapes deixem de parecer cigarros eletrônicos. Não há mais a percepção de perigo à primeira vista. Ganham novas formas, novas funções, integrando-se ao cotidiano de forma quase indetectável.

Um exemplo notável são os vaporizer hoodies, moletons com vaporizadores embutidos no tecido.

O bocal do dispositivo fica escondido na ponta do cordão do capuz. O usuário inala nicotina de forma totalmente discreta.

“De uma maneira totalmente articulada, e muito mal articulada do ponto de vista da ética, criam até casaco com bocal escondido para a pessoa fumar”, critica Maltoni.

Esses formatos permitem o uso do vape em locais públicos como o metrô ou mesmo dentro da escola, sem que ninguém perceba. “Tudo para tornar o jovem viciado”, completa o diretor.

Luiz Augusto Maltoni aponta um risco de retrocesso. Décadas de avanços nas políticas de controle do tabaco no Brasil, que reduziram a prevalência de fumantes e se tornaram referência mundial, estão sob ameaça.

“O que estamos vendo agora é um risco real de retrocesso, agora embalado em tecnologia e integrado ao cotidiano dos jovens.”

A indústria vai além. Novos dispositivos incorporam tecnologia e interatividade: tela sensível ao toque, jogos, música, sistemas de troca de mensagens. Isso dialoga diretamente com o hábito de celulares, tablets e redes sociais dos jovens.

Alguns modelos reagem à interrupção do uso, apitando e criando um ciclo contínuo de estímulo. Maltoni define esse processo como a fusão entre dependência química e dependência digital.

“O vape deixa de ser apenas um dispositivo e passa a funcionar como um acessório interativo, integrado à rotina”, adverte.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024) revelam um salto assustador. A experimentação de cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos quase dobrou, passando de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024. “Isso é alarmante”, avalia o cirurgião oncológico.

Em resposta, a Fundação do Câncer lançou a campanha “Spoiler: ele não te ama” no Dia Mundial sem Tabaco. A iniciativa fortalece o movimento “Vape Off” com um filme que simula uma reportagem, onde jovens anônimos relatam um relacionamento abusivo que os levou à doença.

A campanha visa expor a narrativa mentirosa da indústria e os males dos vapes. “Sugere que quem nunca experimentou não experimente para não viciar. E quem já está fumando que pare”, salienta Maltoni.

Impacto na Saúde e Desenvolvimento Jovem

Quando se discute cigarros eletrônicos entre adolescentes, o problema transcende a escolha individual. Afirma Milena Maciel de Carvalho, consultora da Fundação do Câncer na área de tabagismo.

A exposição à nicotina na adolescência pode prejudicar o desenvolvimento cerebral. Isso afeta áreas ligadas à atenção, aprendizagem, humor e controle de impulsos. Também aumenta a vulnerabilidade à dependência de nicotina ao longo da vida.

Esses dispositivos expõem os usuários a substâncias tóxicas. Incluem partículas ultrafinas, compostos orgânicos voláteis e metais pesados. Tais elementos associam-se a riscos respiratórios e cardiovasculares.

A ameaça do câncer, apontada inicialmente, se consolida com a prolongada exposição a essas toxinas. Uma geração viciada hoje é um ônus para a saúde pública de amanhã.

Caminhos para Frear a Expansão

O diretor executivo da Fundação do Câncer defende medidas mais duras no Brasil para coibir a produção e comercialização de vapes. Ele cita o exemplo da Inglaterra, um país historicamente liberal e berço da indústria do tabaco.

Diante da “catástrofe” causada pela indústria do tabaco e cigarros eletrônicos, com sérios problemas pulmonares em jovens, a Inglaterra proibiu a venda de qualquer produto de tabaco para quem nasceu depois de 1º de janeiro de 2009.

Além disso, o Reino Unido ampliou medidas para restringir a publicidade, promoção, apresentação e o apelo dos vapes entre crianças e adolescentes. “Eu acho que a gente tem que caminhar nesse sentido”, defende Maltoni para o Brasil.

Contexto

O Brasil é reconhecido globalmente por suas políticas rigorosas de controle do tabaco, que resultaram em uma queda expressiva na prevalência de fumantes ao longo das últimas décadas. A proibição da propaganda de cigarros, aumento de impostos e a criação de ambientes livres de fumo foram pilares desse sucesso. Contudo, a ascensão dos cigarros eletrônicos, impulsionada por inovação tecnológica e estratégias de marketing disfarçadas, representa um novo e complexo desafio, ameaçando reverter os ganhos em saúde pública e introduzir uma nova geração na dependência da nicotina, com sérias implicações para o sistema de saúde e o bem-estar social a longo prazo.

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