A capital queniana, Nairóbi, registra mais uma morte em protestos contra a instalação de um centro de quarentena para americanos expostos ao vírus Ebola no Continente Africano. O incidente, na última terça-feira, eleva a três o número de vítimas fatais em manifestações que inflamam o país da África Oriental, onde a população teme riscos à saúde pública com o acordo entre Estados Unidos e Quênia.
A Comissão de Direitos Humanos do Quênia (KHRC) denunciou o assassinato. “A polícia destacada em Nairóbi atirou e matou um manifestante. Os moradores saíram às ruas exigindo transparência sobre a instalação de Ebola apoiada pelos EUA e garantias sólidas para a proteção da saúde pública”, afirmou a organização não governamental em comunicado.
Na semana passada, outras duas pessoas foram mortas por motivos semelhantes. A reação popular reflete uma profunda desconfiança na gestão do governo local.
O Quênia, com cerca de 56 milhões de habitantes, faz fronteira com Uganda e a República Democrática do Congo (RDC), locais onde o Ebola causa surtos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o país como de alto risco para contaminação.
Apesar disso, o Quênia ainda não registrou casos da doença. O acordo que desencadeou os protestos foi costurado secretamente entre o governo do Quênia e a administração de Donald Trump, nos EUA. Ele prevê a criação de um centro de quarentena para cidadãos norte-americanos com suspeita de Ebola em território africano.
Natalia Fingermann, coordenadora do Núcleo de Estudos e Negócios Africanos (Nenaf) da ESPM, declarou à Agência Brasil que a juventude e a população de Nairóbi ficaram “muito apreensivas”. Os detalhes do acordo permanecem em sigilo, adensando a preocupação pública.
O teor da parceria veio à tona em uma comunicação do governo Trump sobre o auxílio da Casa Branca ao continente africano no combate ao recente surto, declarado emergência global pela OMS.
A falta de transparência alimenta a revolta. “Essa questão coloca a saúde pública da população em risco porque ninguém sabe como é que vai ser feita essa construção, onde ela vai ser e quais serão as condições”, acrescentou Fingermann, professora de relações internacionais.
Diante da pressão popular, o Tribunal Superior de Nairóbi agiu. Emitiu ordem cautelar que suspende a instalação do centro de quarentena, previsto para Laikipia, a cerca de 150 quilômetros da capital.
A mídia local informa que a unidade teria 50 leitos, com planos de expansão para 250. O jornal Kenyans reportou: “O tribunal proibiu especificamente os réus de admitirem, transferirem, receberem ou facilitarem a entrada no Quênia de pessoas expostas ou infectadas com o vírus ebola, conforme o acordo relatado com os EUA”.
Em nota, a Embaixada dos EUA no Quênia manifestou o esforço para resolver obstáculos e viabilizar uma resposta conjunta ao surto. “A unidade de bioisolamento em Laikipia faz parte de uma resposta abrangente para prevenir a disseminação da doença e reduzir os riscos à saúde em toda a região; ela não representa risco para as comunidades vizinhas”, informou a representação de Washington.
A postura do governo queniano, liderado pelo presidente William Ruto, alinha-se a uma pauta ocidental na região. Fingermann destaca características autoritárias na administração.
Os protestos no Quênia não são isolados. O país já enfrentava semanas de manifestações contra o governo, impulsionadas pela alta dos preços dos combustíveis. O valor da gasolina, em particular, vem subindo no Quênia, refletindo a turbulência e as pressões globais no mercado de petróleo.
Ameaça Global: O Surto de Ebola na África
O foco dos protestos no Quênia remete a uma crise de saúde mais ampla. Autoridades sanitárias de países africanos, em colaboração com organismos internacionais, batalham para conter o surto da rara cepa Bundibugyo do Ebola. Para esta variante, ainda não existe vacina ou tratamento eficaz.
O surto, o terceiro maior já registrado, mostrava um avanço mais rápido do que a capacidade de resposta global. A União Africana e a OMS publicaram um plano para conter a expansão do vírus, altamente mortal.
Até 8 de junho, a República Democrática do Congo (RDC) contabilizava 626 casos confirmados, com 112 mortes associadas ao vírus. Uganda registrava 19 casos e duas mortes.
Os dados são consolidados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) da União Africana, a partir de informações dos ministérios da Saúde da RDC e de Uganda. A gravidade da situação intensifica o temor público e a resistência a medidas percebidas como arriscadas.
Contexto
A instalação de centros de quarentena em países em desenvolvimento, especialmente na África, levanta questões históricas de soberania, confiança pública e capacidade de resposta em saúde. A tensão no Quênia reflete uma preocupação global sobre a gestão de epidemias transfronteiriças, o papel de potências estrangeiras e a garantia de que acordos internacionais priorizem a saúde e segurança das populações locais. O Ebola, com sua alta letalidade e impacto devastador, exacerba a desconfiança em governos que negociam em sigilo, sem consulta ou transparência.