Uma massiva manifestação pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tomou conta da Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo (11). O próprio candidato participou do evento, que serviu como um poderoso termômetro da mobilização popular a poucos dias do segundo turno. A concentração na icônica via paulistana sublinha a intensidade da campanha e o esforço de Lula para galvanizar seu eleitorado.
O ato, batizado de Marcha Pela Democracia, foi resultado da organização independente de uma vasta gama de setores da sociedade civil. Entre os participantes estavam influentes movimentos sociais, comunidades de admiradores de artistas pop — os chamados fandoms, representados por grupos de Lady Gaga, BTS, Beyoncé e Taylor Swift — e torcidas organizadas de futebol, incluindo as do Palmeiras e Corinthians.
A diversidade da mobilização também contou com a presença da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo e diversos movimentos estudantis. Essa ampla coalizão destaca a capacidade do candidato de atrair diferentes segmentos da população, unindo-os em um esforço comum pela sua reeleição.
Votação Crucial no Senado Define Direitos Trabalhistas
Em entrevista à imprensa antes do início da manifestação, o presidente Lula declarou que a semana em curso será determinante para o futuro da eleição presidencial. Ele focou a atenção na votação, agendada para a próxima quarta-feira (14 de outubro de 2026) no Senado Federal, sobre o fim da escala de trabalho 6×1.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que busca encerrar a escala 6×1 — um regime que impõe seis dias de trabalho para apenas um de descanso — é vista como um ponto-chave da agenda trabalhista. Sua aprovação representaria uma vitória significativa para os trabalhadores, garantindo dois dias de repouso semanal e, potencialmente, melhorando a qualidade de vida e a saúde laboral de milhões de brasileiros.
Lula utilizou a questão para lançar um desafio direto ao Partido Liberal (PL), legenda de seu adversário. “Nesta semana, vai se provar como é que o partido do meu adversário [o PL] vai votar: se ele vai querer manter os trabalhadores trabalhando seis dias e descansando um, ou se ele vai votar para o trabalhador ter os dois dias de descanso”, afirmou o presidente.
Questionado sobre as tentativas da oposição de adiar a votação no Senado para depois do segundo turno das eleições, em 25 de outubro, Lula classificou a manobra como uma tentativa de enganar a população. “Já está marcada a data da votação, portanto, a única coisa que a oposição pode fazer é a seguinte: demonstrar se vão ter coragem de votar contra ou a favor”, completou, elevando a pressão sobre os senadores.
Críticas ao “Tesouraço” e a Proposta de Segurança Pública
Durante seu discurso, Lula também teceu duras críticas ao plano de corte de gastos anunciado por seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), batizado de “tesouraço”. O presidente afirmou que tal medida poderia recair de forma desproporcional sobre os mais pobres e vulneráveis do país.
“O tesouraço dele possivelmente seria o mesmo tesouraço do [presidente da Argentina, Javier] Milei, ou seja, cortar direito do povo pobre, cortar direito do aposentado, cortar direito daqueles que precisam ganhar um pouco mais, e levar o povo outra vez para a situação de miséria neste país. Isso a gente não permite de forma alguma que volte a acontecer no Brasil”, declarou Lula.
A comparação com as políticas de austeridade de Javier Milei, presidente argentino, visa associar o plano de seu adversário a uma agenda que, na visão de Lula, resultaria em profundas exclusões sociais e econômicas, impactando diretamente aposentados e beneficiários de programas sociais. Esta retórica busca alertar o eleitorado sobre as potenciais consequências de um governo focado em cortes severos.
Além disso, Lula mencionou o avanço, também nesta semana, da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Segurança Pública no Congresso Nacional. A PEC tem como objetivo a criação do Ministério da Segurança Pública, uma medida que o petista defende como essencial para uma atuação federal mais direta e eficaz no combate à criminalidade.
O presidente argumentou que, com o novo ministério, o governo federal poderá ter uma intervenção mais incisiva na segurança pública, algo que, segundo ele, a Constituição Federal atual limita. “A gente poderá dizer ao povo brasileiro o seguinte: para o povo trabalhador, para a comunidade, para o território, proteção; para os bandidos, prisão, porque o governo vai fazer uma intervenção na segurança pública, coisa que a Constituição não permite até agora”, explicou, projetando um papel mais ativo da União na área.
Discurso no MASP: Retrospectiva da Pandemia e Metas para a Educação
Posicionado em um carro de som em frente ao icônico Museu de Arte de São Paulo (MASP), um dos mais importantes marcos culturais da capital paulista, Lula utilizou seu tempo de fala para criticar a administração anterior, sob o ex-presidente Jair Bolsonaro, com foco especial na gestão da pandemia de COVID-19.
O presidente relembrou momentos trágicos da crise sanitária, mencionando a falta de oxigênio em hospitais e a alegada postura negacionista do governo. “Vocês sabem o que a família bolsonarista fez neste país. Vocês sabem o que é um presidente rir de pessoas que estavam morrendo asfixiadas por falta de oxigênio. Vocês viram quantas pessoas foram enterradas em saco preto, sem poder se despedir da sua família, porque tivemos um presidente irresponsável que duvidou da ciência, que não acreditou na medicina, que receitou remédio que não prestava para nada”, declarou, em tom emocionado.
Em contraste, o candidato destacou as realizações de sua própria gestão na área da educação e projetou planos ambiciosos para o futuro. “Quando nós chegamos na presidência, em 2003, o Brasil tinha apenas 4,8 milhões de pessoas com diploma universitário no mercado de trabalho. Hoje, o Brasil já tem 26 milhões, e nós queremos 50 milhões, 100 milhões”, afirmou, reiterando seu compromisso com a expansão do acesso ao ensino superior.
Lula também prometeu uma “revolução” nas áreas da tecnologia e da segurança no país, buscando ressaltar as propostas futuras de seu governo e as melhorias esperadas para o Brasil.
O Desafio da Abstenção e a Mobilização Nacional
A alta abstenção dos eleitores no primeiro turno das eleições, que atingiu 21,08% do total de votantes, foi outro ponto abordado por Lula. Esse percentual representa milhões de brasileiros que não compareceram às urnas, e o presidente apelou para que essa parcela do eleitorado, especialmente os cidadãos acima dos 70 anos para quem o voto é facultativo, participe ativamente da escolha do próximo governo.
“Se essa pessoa não quer votar por ela, ela tem filho, filha, neto, bisneto e tem a pátria dela para cuidar. E não pode permitir que os bandidos voltem a governar este país”, acrescentou Lula, reforçando a importância do voto consciente e o papel dos eleitores mais experientes na defesa da democracia.
A força da campanha de Lula se estendeu além da capital paulista. Apoiadores da candidatura petista realizaram atos simultâneos em diversos estados neste domingo (11 de outubro de 2026). Em Alagoas, uma manifestação ocupou a Praça Sete Coqueiros, na orla de Maceió. No Rio de Janeiro, foram registradas mobilizações na orla de Copacabana e no bairro de Icaraí, em Niterói, na região metropolitana.
Esses atos regionais também reforçaram a pauta do fim da escala de trabalho 6×1, demonstrando a coerência da mensagem em nível nacional. Em Belo Horizonte, a “Caminhada Rosa” uniu a defesa dos direitos das mulheres à campanha pela candidatura do PT, evidenciando a transversalidade dos temas abordados.
No período da tarde, apoiadores de Lula se reuniram na Praça Universitária, em Goiânia. Em Salvador, houve manifestações pró-reeleição de Lula tanto na orla quanto no histórico Pelourinho. Atos em feiras e ruas marcaram o domingo em Brasília, consolidando a imagem de uma campanha com amplo suporte geográfico e social.



