A imagem do professor universitário que passa a vida em uma única instituição, construindo uma trajetória acadêmica linear, está longe da realidade para quase metade dos docentes no Brasil. Uma pesquisa surpreendente da Unicamp revela que a mobilidade empregatícia é uma constante na carreira acadêmica brasileira, desmistificando a ideia de uma jornada estática.
Entre 2003 e 2021, impressionantes 46,9% dos professores do ensino superior tiveram pelo menos um episódio de movimentação. Isso significa que, em menos de duas décadas, praticamente um em cada dois docentes deixou uma instituição para trabalhar em outra, ou passou a acumular múltiplos vínculos profissionais, redefinindo o que se entende por estabilidade na academia.
A Lógica por Trás das Cadeiras Vagas e Ocupadas
O estudo, liderado por Ana Maria Carneiro, coordenadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP) da Unicamp, acompanhou docentes de instituições públicas e privadas em todo o país. O objetivo era lançar um olhar menos estático sobre a carreira, compreendendo as motivações por trás de cada mudança.
Por trás de uma nova contratação, pode haver um concurso público, a busca incessante por estabilidade, uma oportunidade profissional única ou a simples necessidade de complementar a renda mensal. Em muitos casos, o desejo de retornar para mais perto de casa ou da família também impulsiona essas decisões cruciais.
Os pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre a Organização da Pesquisa e da Inovação (Lab-Geopi) utilizaram os microdados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego. Essa abordagem permitiu analisar os vínculos formais em escala nacional, revelando padrões complexos.
Quatro padrões principais de mobilidade foram identificados: professores que mantêm um único vínculo, aqueles que acumulam cargos, os que fazem a transição entre instituições e, por fim, os que retomam a atividade após um período de interrupção.
A pesquisa demonstra que essa mobilidade não se manifesta da mesma forma em todos os ambientes acadêmicos. Grandes universidades públicas, com forte perfil de pesquisa e pós-graduação, exibem taxas menores de movimentação em seu corpo docente.
Por outro lado, a maior rotatividade é observada em faculdades e centros universitários privados. Instituições públicas focadas prioritariamente no ensino de graduação também registram um volume considerável de alterações em seu quadro profissional.
No setor privado, a mobilidade muitas vezes está ligada à busca por sobrevivência. Professores remunerados por hora-aula frequentemente acumulam vínculos em diferentes instituições, não por um planejamento de carreira, mas para garantir uma renda mínima e adequada.
“Grande parte dessas mobilidades no setor privado ocorre como uma forma de buscar sobrevivência, mais do que buscar melhores condições de trabalho”, observa a pesquisadora Ana Maria Carneiro, destacando a dura realidade enfrentada por muitos profissionais.
Já no serviço público, a lógica pode ser inversa. Muitos docentes aceitam uma remuneração inicialmente menor ao sair do setor privado para ingressar em uma universidade federal ou estadual. Fatores como a estabilidade empregatícia e as condições de trabalho mais favoráveis são determinantes nessa decisão.
Impacto na região
A dinâmica da mobilidade acadêmica tem reflexos diretos em cidades como Jundiaí e em toda a região. Com a presença de instituições de ensino superior públicas, como um campus da Unifesp, e diversas faculdades privadas, a movimentação de professores impacta a oferta de cursos e a qualidade do corpo docente.
Um professor que se desloca de uma universidade em São Paulo para uma vaga em Jundiaí, ou vice-versa, pode trazer consigo novas metodologias e experiências. A maior rotatividade em instituições privadas pode, por exemplo, influenciar a continuidade de projetos ou a formação de equipes de pesquisa locais.
Para os estudantes e para o mercado de trabalho regional, entender essas movimentações significa compreender as fontes de conhecimento e as oportunidades de aprendizado disponíveis. A busca por docentes especializados, muitas vezes, é suprida por essa mobilidade de “curtas distâncias” que caracteriza o cenário brasileiro.
Quando a Carreira Acadêmica Encontra o Mapa Pessoal e Familiar
A mobilidade acadêmica no Brasil é, em grande parte, uma história de proximidade geográfica. Contrariando a imagem de grandes deslocamentos pelo país, a pesquisa aponta que a maioria das movimentações acontece dentro do mesmo estado ou em regiões adjacentes.
É comum que os deslocamentos não ultrapassem os 50 quilômetros, especialmente em áreas metropolitanas e entre municípios vizinhos. Esse fenômeno se intensificou entre 2007 e 2014, período do Reuni – Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais.
A expansão e interiorização das universidades federais abriram um leque de oportunidades, mas também permitiram a muitos docentes retornar para mais perto de suas origens. O mapa profissional, nesse sentido, se sobrepõe a um mapa afetivo e familiar, onde a escolha do trabalho está intrinsecamente ligada à escolha do lar.
Escolher onde lecionar significa também definir a cidade para viver, o tempo gasto em deslocamentos diários e a proximidade com entes queridos. A vida fora da universidade, com seus vínculos e suas necessidades, é um fator determinante na trajetória de um acadêmico.
Ao analisar as diferenças de gênero, o estudo revela um panorama ainda mais complexo. Mulheres, por exemplo, tendem a realizar deslocamentos geográficos menores do que os homens, um dado que ressalta as barreiras implícitas na carreira.
A maternidade é um dos fatores que contribuem para essa disparidade. Mulheres que tiraram licença-maternidade em seu primeiro emprego frequentemente apresentam menor valor de hora-aula e contratos com menor duração, influenciando suas opções de mobilidade.
Existe também uma distribuição desigual entre os tipos de instituições. Homens são encontrados em maior proporção em instituições de ensino tecnológico ou intensivas em pesquisa, enquanto as mulheres concentram-se mais nas instituições voltadas ao ensino de graduação.
Esses dados ampliam a discussão sobre as condições que permitem, ou não, a um profissional mudar de cidade ou aceitar uma oportunidade mais distante. A possibilidade de reorganizar uma trajetória profissional não está disponível da mesma maneira para todos, independentemente do currículo.
A carreira acadêmica, embora muitas vezes pareça uma jornada individual, é atravessada por fatores concretos: renda familiar, responsabilidades com filhos, vínculos afetivos, localização das instituições e as condições específicas de trabalho oferecidas.
Desvendando a Trajetória Não Linear: O Que Aprendemos sobre o Professor Moderno
O levantamento da Unicamp também descontrói outra percepção comum: a de que toda mobilidade representa, necessariamente, uma ascensão. Nem sempre uma mudança de instituição se traduz em um salário mais alto, e a permanência não é sinônimo de estagnação profissional.
Um professor pode trocar uma universidade por outra em busca de maior estabilidade, mesmo que isso signifique aceitar um salário inicial menor. Ele pode acumular aulas em diversas faculdades para compor uma renda mais robusta ou, após uma mudança, fazer um novo movimento para se aproximar da família.
As trajetórias acadêmicas, como muitas carreiras contemporâneas, são muito menos lineares do que se imagina. Essa é, talvez, a principal contribuição do estudo: revelar as camadas de escolhas, circunstâncias e deslocamentos que moldam a vida de quem leciona e pesquisa.
A pesquisa transcendeu as fronteiras nacionais, levando os pesquisadores a integrar a quarta rodada do consórcio Future Academic Profession. Esta iniciativa internacional investiga os desafios da profissão docente em diferentes países, ampliando a relevância dos achados brasileiros.
A discussão está longe de ser concluída. Se quase metade dos professores universitários brasileiros se moveu em menos de duas décadas, é imperativo questionar que tipo de carreira está sendo construída para aqueles que ensinam, pesquisam e formam as futuras gerações em um cenário tão dinâmico.
No fim, a universidade também é um organismo em constante movimento, moldada por seus professores. E, com eles, as bases do conhecimento e da formação de novas mentes são continuamente redefinidas e fortalecidas.



