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Folha Jundiaiense

Lula pressiona por acordo Mercosul-China em Cúpula do bloco

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta terça-feira, em Assunção, no Paraguai, o início de negociações para um acordo comercial entre o Mercosul e a China. A proposta foi apresentada durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do bloco, que reuniu líderes sul-americanos e marcou a transição da presidência paraguaia para o Uruguai pelos próximos seis meses.

Lula, em seu discurso, ressaltou a importância de o bloco buscar parcerias com os “mercados mais dinâmicos do planeta”, citando avanços nos diálogos com Canadá, Índia e Vietnã. Ele também confirmou o lançamento das negociações de uma parceria econômica com o Japão. A estratégia visa fortalecer a relevância econômica e política do Mercosul em um cenário global de maior fragmentação comercial e ascensão de tendências protecionistas.

“Em breve, queremos fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta”, declarou o presidente brasileiro.

Mercosul: Autonomia e Críticas Geopolíticas

A fala de Lula na cúpula incluiu uma crítica direta ao que classificou de “alinhamentos automáticos” e “escolhas excludentes” na política externa.

“Ninguém é dono do mundo. E ninguém é dono da América do Sul”, afirmou o presidente, em um recado sobre a autonomia do bloco em suas relações internacionais. A observação ecoa debates sobre a influência de grandes potências e a necessidade de o Mercosul traçar sua própria rota estratégica, sem subserviência a blocos hegemônicos.

A Cúpula do Mercosul reuniu chefes de Estado de Chile, Paraguai, Uruguai, Equador e Bolívia. O evento evidenciou a busca por uma agenda unificada, mesmo diante de diversidades ideológicas entre os países membros e associados.

A ausência do presidente da Argentina, Javier Milei, chamou a atenção. Milei cancelou a viagem à última hora, em meio a uma crise política interna que levou à renúncia do chefe de gabinete da Casa Rosada, Manuel Adorni, envolvido em acusações de corrupção e enriquecimento ilícito.

Esse vácuo na representação argentina levanta questões sobre a coesão interna do bloco, em um momento crucial para sua redefinição comercial e geopolítica regional.

Lula fez um pedido de minuto de silêncio em homenagem às vítimas dos terremotos na Venezuela. Em seguida, reforçou a importância estratégica dos 35 anos do Mercosul. O bloco, afirmou ele, é uma “necessidade estratégica” diante de um mundo com mais guerras e ações unilaterais.

O comércio intrabloco do Mercosul cresceu de US$ 4,5 bilhões em 1991 para US$ 50 bilhões em 2025. As exportações totais dos países do bloco alcançaram US$ 770 bilhões em 2025, um aumento de 6% em relação ao ano anterior. Os dados sublinham a relevância econômica do Mercosul como plataforma para o comércio exterior da região.

O Novo Focem e a Redução de Assimetrias

Entre os temas centrais da cúpula, destacou-se a discussão sobre a criação de um novo Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem). O mecanismo substituirá o fundo atual, considerado insuficiente para os desafios de desenvolvimento e integração da região.

O Brasil anunciou um aporte significativo: US$ 100 milhões anuais ao longo de uma década para o novo Focem. Lula afirmou que a inclusão da Bolívia no fundo será um passo adicional para “reduzir as assimetrias” entre os países do bloco. A ideia é equalizar condições de desenvolvimento, garantindo infraestrutura e projetos sociais em nações com economias menos robustas.

O governo brasileiro pressiona a Argentina a também elevar sua contribuição. O Paraguai, por sua vez, defende aportes 50% superiores aos do fundo original. A renovação do Focem busca ampliar a capacidade de investimento em projetos de infraestrutura e coesão social.

Desde sua criação, em 2004, o fundo já financiou mais de mil quilômetros de rodovias, 680 quilômetros de ferrovias, 750 quilômetros de linhas de transmissão de energia e 100 quilômetros de redes de saneamento básico. Esses projetos impactaram diretamente a conectividade e a qualidade de vida nas áreas fronteiriças e nos países-membros.

Segurança Regional e Integração Comunitária

A segurança pública também figurou na pauta dos líderes sul-americanos. O Brasil apresentou uma proposta de pacto regional para combater o feminicídio e a violência contra mulheres, um problema transnacional que exige resposta coordenada.

Outra medida anunciada foi a implementação de um escritório regional da Interpol em Buenos Aires, Argentina. O objetivo é fortalecer o combate ao crime organizado e ao tráfico internacional de drogas. O Brasil se comprometeu a custear a presença de delegados dos 12 países da região na capital argentina por um ano, ampliando a coordenação entre as forças de segurança.

Nos últimos meses, o bloco avançou no reconhecimento da nova Carteira de Identidade Nacional (CIN) como documento válido para ingresso nos países do Mercosul e Estados associados. Esta medida simplifica a circulação de cidadãos, fomentando o turismo, a integração cultural e os fluxos econômicos na região.

Contexto

O Mercosul, fundado em 1991, representa o principal motor de integração econômica da América do Sul, congregando aproximadamente 73% do território regional, 65% da população e cerca de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) da área. Desde sua criação, o comércio intrabloco saltou de US$ 4,5 bilhões para US$ 50 bilhões anuais, com as exportações totais atingindo US$ 770 bilhões em 2025. O bloco, composto por Argentina, Bolívia (em processo de adesão), Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela (suspensa), além de diversos estados associados, busca se reposicionar em um cenário geopolítico complexo, equilibrando a manutenção de seus princípios de integração com a necessidade de abertura a mercados globais e o enfrentamento de desafios como a polarização regional e o avanço do protecionismo.

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