O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou na quinta-feira (25) os contratos para a conclusão da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-III) em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul. A obra, paralisada desde 2015, retoma com investimentos de mais de R$ 5 bilhões, parte do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mirando a redução da dependência brasileira de fertilizantes importados.
A Petrobras confirmou a viabilidade do projeto após reavaliação técnica e econômica. A decisão sinaliza uma mudança de rumo para a estatal no setor, após anos de desinvestimento.
“Agora vai. Era pra ter começado bem antes”, declarou Lula durante a cerimônia, referindo-se aos quase dez anos de abandono da construção.
A paralisação da UFN-III em 2015 marcou um período de forte crise para a Petrobras. Envolvida em escândalos da Operação Lava Jato e sob pressão por endividamento, a empresa reorientou sua estratégia, priorizando a exploração de petróleo e gás e vendendo ativos considerados não essenciais, como parte de sua carteira de fertilizantes. A interrupção da obra, que já estava com mais de 80% de avanço, gerou demissões em massa e um impacto econômico direto na região de Três Lagoas.
Aumento da Produção Nacional e Segurança Alimentar
O Palácio do Planalto destaca a relevância estratégica do empreendimento. Com a entrada em operação comercial, estimada para 2029, a unidade alcançará capacidade para produzir 3,6 mil toneladas diárias de ureia granulada e 2,2 mil toneladas diárias de amônia. O volume anual total, cerca de 1,3 milhão de toneladas de ureia, deve suprir aproximadamente 16% da demanda nacional pelo insumo.
Essa nova capacidade tem impacto direto na balança comercial e na segurança alimentar do país.
O Brasil figura entre os maiores consumidores mundiais de fertilizantes, mas importa cerca de 85% do que utiliza. A pandemia de Covid-19 e, mais recentemente, a guerra na Ucrânia expuseram a fragilidade dessa dependência. Conflitos geopolíticos e crises logísticas globais provocaram disparada nos preços e ameaça de desabastecimento, impactando diretamente os custos de produção agrícola e, por tabela, a inflação dos alimentos.
A nova planta em Três Lagoas se insere num esforço governamental para mitigar esses riscos. A localização da fábrica não é aleatória.
A região Centro-Oeste do país, um dos motores do agronegócio brasileiro, responde por cerca de 40% da demanda interna de ureia, impulsionada por culturas como milho, cana-de-açúcar, algodão e pastagens. A proximidade da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III com polos produtores de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná e São Paulo deve otimizar o abastecimento e, sobretudo, reduzir custos logísticos para os agricultores, um componente significativo no preço final dos alimentos.
Retomada de Ativos e Nova Estratégia da Petrobras
A UFN-III é um dos quatro ativos de fertilizantes na carteira da Petrobras dentro do Novo PAC. Fazem parte também as unidades de Fafen-BA, Fafen-SE e a ANSA.
Com a operação completa dessas plantas, a estatal projeta atender cerca de 35% do mercado nacional de ureia até 2029. Antes da retomada destas fábricas, o Brasil dependia integralmente da importação para suprir sua necessidade de ureia.
A decisão de reativar a UFN-III marca uma guinada na política da Petrobras sob a atual administração. Em governos anteriores, a empresa buscou desinvestir do setor de fertilizantes, argumentando foco no pré-sal e rentabilidade. O cenário internacional recente e a pressão por maior soberania energética e alimentar, no entanto, reverteram essa lógica. A volta aos fertilizantes reflete uma visão de segurança nacional.
“Podem ficar certos, esse país vai construir sua soberania, sendo independente de importação de fertilizantes dos outros países. É apenas esperar que a gente vai ver o que vai acontecer”, complementou o presidente Lula, reforçando a linha estratégica do governo.
Contexto
O Brasil é historicamente um dos maiores importadores de fertilizantes do mundo, uma realidade que gera vulnerabilidade econômica e estratégica para o agronegócio nacional. A maior parte desses insumos, essenciais para a produtividade agrícola, vem de países como Rússia, China e Canadá. A alta dependência se tornou mais evidente em momentos de crise geopolítica, como a guerra na Ucrânia em 2022, que impactou diretamente a oferta e os preços globais. Projetos como a UFN-III buscam, portanto, reverter esse quadro, alinhando-se a uma política de reindustrialização e de maior autonomia produtiva no setor agrícola, fundamental para a economia do país e para a mesa dos brasileiros.



