“Melhor arma que um país pode ter é alimento”, declarou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta terça-feira, 30 de maio, ao lançar o Plano Safra Familiar em Brasília. O governo anunciou um aporte de R$ 97,3 bilhões em créditos e programas para agricultores familiares, sublinhando a estratégia nacional de investimento na soberania alimentar e na diversificação da produção de gêneros básicos.
Os recursos, que totalizam R$ 97,3 bilhões, incluem financiamento para custeio e investimento, seguro agrícola contra perdas climáticas, programas de compras públicas que garantem escoamento da produção e assistência técnica e extensão rural. Este pacote visa fortalecer o pequeno produtor, elemento chave na mesa dos brasileiros.
A injeção de capital mira diretamente a produção de alimentos essenciais, de grãos a hortaliças, buscando maior autonomia nacional no abastecimento e a estabilização de preços para o consumidor. O valor representa um salto significativo em relação a ciclos anteriores, sinalizando a prioridade do governo ao setor.
Lula reiterou a necessidade de o Brasil priorizar a produção do que consome.
Ele recordou um diálogo com o então presidente venezuelano Hugo Chávez (1999-2013). Na ocasião, Chávez exibia aviões de caça, e Lula respondeu: “Você sabia que a melhor arma que um país tem que ter é alimento? Você sabia que nós temos que ter soberania alimentar?”. O presidente citou a dificuldade da Venezuela em produzir itens básicos, como leite e ovos, reforçando a tese de que um país só deve importar aquilo que, de fato, não consegue produzir.
Taxas de Juros e Impacto Econômico
O chefe do Executivo incentivou os agricultores familiares a acessarem os recursos disponíveis para financiamento.
Ele destacou a busca do governo por taxas de juros mais baixas junto aos bancos públicos, visando facilitar o acesso ao crédito. Juros menores aliviam o endividamento dos pequenos produtores e estimulam investimentos em tecnologia e expansão das lavouras. “Se tiver um dinheirinho, vai utilizar em benefício da família”, afirmou Lula, associando o investimento à circulação de capital e ao crescimento econômico local, especialmente em regiões rurais.
Debate sobre Uso da Terra
Ainda no evento, Lula questionou a vasta posse de terras da União.
“Não tem porque. Nem os nossos militares necessitam de tanta terra mais. Nós não vamos ter guerra. Nós somos da paz”, declarou. A afirmação reascende a discussão sobre a destinação de áreas públicas e a possibilidade de uso dessas terras para reforma agrária ou outras finalidades produtivas, visando otimizar a exploração de recursos e o assentamento de famílias no campo.
Vozes do Campo e Políticas para Mulheres
Vânia Marques, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), celebrou o reconhecimento do governo ao protagonismo da agricultura familiar. “Isso é oportunidade para quem acorda de manhã, faça sol, faça chuva, para poder trabalhar, produzir e fazer com que o alimento chegue às nossas mesas”, disse. Ela destacou que 70% dos alimentos consumidos diariamente pelos brasileiros chegam à mesa por via da agricultura familiar.
Marques pontuou o compromisso do governo com as mulheres do campo. O acesso a políticas públicas e linhas de crédito específicas empodera as agricultoras, conferindo-lhes não apenas autonomia financeira, mas também maior voz e poder de decisão dentro de suas comunidades e famílias. Este avanço é um pilar na redução da vulnerabilidade à violência doméstica, uma pauta histórica e urgente dos movimentos de mulheres rurais.
A líder da Contag ressaltou o cenário de desigualdade social em meio às crescentes mudanças climáticas, pedindo respostas urgentes e integradas. “Nós podemos ser a solução da crise climática porque nós protegemos as nascentes, recuperamos os solos, preservamos as sementes. E somos nós que produzimos com responsabilidade”, afirmou. A declaração alinha a agricultura familiar a práticas de manejo sustentável, como a agroecologia e a conservação de recursos naturais, posicionando o setor como agente chave na mitigação dos efeitos climáticos e na construção de um sistema alimentar mais resiliente.
Solidariedade à Venezuela Abalada
Lula manifestou solidariedade às vítimas dos recentes terremotos na Venezuela.
O presidente lamentou as 1.943 mortes confirmadas, os 10.571 feridos e os 15.866 desabrigados decorrentes do desastre natural. Mencionou ainda 6.461 pessoas resgatadas dos escombros, com mais de 58 mil edifícios afetados em todo o país. “O Brasil fará tudo o que tiver ao alcance para ajudar o povo daquele país”, declarou, indicando a mobilização de apoio humanitário. Ao final do evento, um minuto de silêncio homenageou as vítimas venezuelanas.
Contexto
O Plano Safra Familiar integra uma série de políticas governamentais voltadas para o setor agrícola, que no Brasil é um dos pilares da economia e do abastecimento. A agricultura familiar responde por parcela significativa da produção de alimentos básicos consumidos no país, gerando empregos e renda no campo. Os investimentos visam fortalecer essa base, garantindo não apenas a segurança alimentar da população, mas também a sustentabilidade ambiental e social das comunidades rurais, em um cenário de crescentes desafios econômicos e climáticos. A ênfase na soberania alimentar reflete a busca por menor dependência de importações e maior autonomia na produção interna de gêneros estratégicos, atenuando a volatilidade dos mercados internacionais e protegendo o consumidor de flutuações de preços.