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Folha Jundiaiense

Ipen enfrenta denúncias de contaminação radioativa por trabalhadores

A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) cobrou esclarecimentos do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) após denúncia de possível contaminação por material radioativo em suas instalações. O Ipen está localizado no campus da Universidade de São Paulo (USP), na zona oeste da capital paulista.

Sindicatos de trabalhadores exigem transparência e medidas urgentes. O caso levanta discussões sobre a segurança nuclear no país.

A ANSN confirmou, nessa quinta-feira (11), a instauração de um procedimento de verificação técnica. A autoridade solicitou registros e informações detalhadas para avaliar a situação reportada. “Nesses casos, a ANSN adota procedimento regular de verificação técnica, solicitando os registros e informações necessários à adequada avaliação da situação reportada”, declarou a agência reguladora.

Os relatos de contaminação foram recebidos pelo Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal no Estado de São Paulo (Sindsef-SP) e pela Associação dos Servidores do Ipen (Assipen). As entidades enviaram pedidos formais de posicionamento e providências às direções do Ipen e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

O Ipen é uma autarquia vinculada à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SCTI) do Estado de São Paulo. Sua gestão técnica e administrativa é responsabilidade da CNEN, órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Em nota, a CNEN confirmou o incidente. Ele consta no Relatório de Ocorrência Interna (ROI) nº 04/2026, datado de 29 de maio de 2026. O documento agora segue para análise da ANSN.

O relatório foi elaborado por profissionais habilitados em proteção radiológica. Eles analisaram a presença de traços de tecnécio-99. O material foi detectado durante a retirada de sensores biológicos de uma autoclave, equipamento usado no processo de produção de radiofármacos.

A CNEN detalhou no relatório as medições realizadas, os procedimentos adotados e os resultados obtidos. O episódio envolveu dois trabalhadores, classificados como Indivíduos Ocupacionalmente Expostos (IOEs).

Os IOEs foram submetidos a exames in vivo, utilizando o Contador de Corpo Inteiro. “As contagens detectadas foram baixas e demonstraram que não houve contaminação interna. A contaminação ficou restrita à área controlada, do Centro de Radiofarmácia do Instituto”, afirmou a comissão, buscando minimizar a gravidade do ocorrido.

Contudo, informações divulgadas pelo Sindsef-SP descrevem um cenário mais complexo. A situação teria exigido procedimentos emergenciais de descontaminação radiológica. Houve retenção de roupas utilizadas pelos trabalhadores, incluindo terceirizados. A equipe de Proteção Radiológica atuou para controlar o quadro.

O sindicato manifestou preocupação. “Consta também que parte dos procedimentos de descontaminação teria ocorrido em locais não destinados especificamente para esse tipo de atendimento, o que levanta preocupações sobre a adequação da infraestrutura disponível e o cumprimento dos protocolos de segurança exigidos para atividades que envolvem materiais radioativos”, declarou o Sindsef-SP.

A entidade exigiu a divulgação de informações oficiais sobre a ocorrência. Cobrou detalhes sobre o material radioativo envolvido, o número de trabalhadores atingidos, os níveis de contaminação, os riscos à saúde e as medidas de contenção.

Denúncia de Sucateamento Preocupa Trabalhadores do Ipen

Para o Sindsef-SP, o episódio de contaminação não se trata de um caso isolado. O sindicato aponta uma série de eventos, mesmo que não diretamente ligados à radiação, causados por cortes orçamentários, redução de pessoal e deficiências de gestão no Ipen.

O sindicato citou problemas anteriores, como o incêndio na Sala de Controle do Reator IEA-R1, ocorrido em março deste ano, como exemplo do risco crescente nas instalações.

Representantes dos trabalhadores reiteram que já denunciavam o desmonte e sucateamento do instituto há anos. Eles cobram investimentos em infraestrutura, a realização de concursos públicos para contratação de novos servidores e a definição de uma estratégia clara e soberana para o Programa Nuclear Brasileiro.

A visão sindical relaciona a crise do Ipen a uma política mais ampla. “O que vemos, ao contrário, é que os últimos governos, há mais de 15 anos, vêm, paulatina e continuamente, impondo a ideologia do neoliberalismo no Brasil. A política do ‘arcabouço fiscal’ é só o coroamento desse processo de desmonte do Estado”, criticou o Sindsef-SP.

Um agravante adicional, segundo o sindicato, é o atraso nos exames médicos específicos dos servidores que manipulam materiais ou substâncias radioativas. A defasagem superaria um ano, expondo os trabalhadores a riscos desnecessários e violando protocolos de segurança.

A USP, por sua vez, reforçou sua posição em nota. Apesar de o Ipen estar fisicamente localizado na Cidade Universitária, a instituição é uma autarquia vinculada à SCTI de São Paulo e gerida pela CNEN. A universidade se exime de responsabilidade direta pela gestão e segurança das operações nucleares.

Contexto

O Ipen desempenha um papel estratégico para o Brasil, sendo um centro de pesquisa em energia nuclear e, principalmente, o principal produtor de radiofármacos do país. Esses materiais são usados amplamente na medicina para diagnóstico e tratamento de doenças, como o câncer, por meio de exames como PET-CT e cintilografias. A instabilidade no Ipen, com denúncias de sucateamento e incidentes de segurança, afeta diretamente a capacidade nacional de produção desses insumos vitais, colocando em risco a saúde pública e a autonomia do programa nuclear brasileiro, que busca o domínio da tecnologia para fins pacíficos e energéticos.

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