

A ameaça do fenômeno El Niño e suas chuvas intensas pairava sobre a baixada santista, mas um dado surpreendente emerge do cenário da saúde pública: Guarujá conseguiu uma redução drástica nos casos de dengue. A cidade registrou 1.081 casos em 2026, uma queda impressionante quando comparado aos 3.060 do mesmo período em 2025.
Essa vitória contra o Aedes aegypti não é acaso. Por trás dos números está uma estratégia antecipada, desenhada para conter o mosquito antes mesmo da chegada da alta temporada de verão e do aumento do fluxo turístico na região.
Estratégia Antecipada: A Operação Checkout no Front
Em um movimento decisivo, a Prefeitura de Guarujá adiantou a Operação Checkout, uma iniciativa focada na prevenção e controle da dengue em hotéis e pousadas. Tradicionalmente realizada em novembro, a ação teve seu início na última semana, muito antes do usual, justamente por conta da expectativa do El Niño.
As equipes de Combate e Controle às Endemias da Secretaria de Saúde (Sesau) têm uma meta ambiciosa: vistoriar 141 estabelecimentos. Até agora, 55 locais já receberam a inspeção, que busca eliminar possíveis criadouros do mosquito e orientar proprietários e responsáveis.
Hotéis e pousadas recebem atenção especial, pois são locais de grande circulação de pessoas e, com suas estruturas, podem facilmente acumular água, favorecendo a proliferação do vetor. A medida visa blindar a cidade, tanto para seus moradores quanto para os milhões de turistas que chegam na temporada.
“Antecipamos a Operação Checkout justamente para termos um período maior de atuação antes da temporada de verão”, explica Ana Lúcia Gama, coordenadora técnica de Combate e Controle às Endemias. Ela ressalta a importância de garantir que os locais turísticos estejam livres de criadouros antes da chegada de um número maior de visitantes.
A iniciativa, em sua segunda edição consecutiva, é apontada pelos técnicos como um dos pilares para a significativa diminuição das arboviroses, incluindo não só a dengue, mas também a chikungunya.
Redução que Inspira: Os Números Contra as Arboviroses
Os resultados são ainda mais animadores com a análise dos dados. Além da queda nos casos de dengue, os registros de chikungunya também mostraram uma retração expressiva.
A cidade litorânea contabilizou apenas dois casos de chikungunya em 2026, um contraste gritante com os 141 no mesmo período de 2025. Quanto ao vírus zika, não houve qualquer registro nos dois anos analisados, reforçando a eficácia das ações de prevenção.
Impacto na região
Embora as ações aconteçam em Guarujá, o sucesso no combate à dengue em uma cidade turística como essa reverbera por todo o estado, atingindo indiretamente moradores de Jundiaí e outras cidades que frequentam o litoral. A segurança sanitária de destinos populares é crucial para quem planeja viagens, garantindo férias tranquilas e a saúde da família. Um modelo de prevenção eficiente no litoral é uma lição e uma proteção para todos que se deslocam, prevenindo a disseminação para outras localidades.
A experiência de Guarujá serve como um alerta e um exemplo para outros municípios, inclusive no interior. A ameaça da dengue não se restringe a uma única região, e a vigilância constante, aliada a estratégias inovadoras, é o caminho para proteger a população.
Além do Checkout: Estratégias que Blindam a Cidade
A Operação Checkout é apenas uma peça no complexo quebra-cabeça da prevenção em Guarujá. A equipe de Combate e Controle às Endemias mantém uma série de ações permanentes, alcançando diferentes bairros da cidade.
Essas frentes de trabalho incluem mutirões de vistoria baseados em levantamentos e pesquisas larvárias. Essas análises identificam as áreas mais vulneráveis à proliferação do mosquito, permitindo uma atuação focada e eficiente.
Prevenção Multiplicada: De Telas a Peixes
A Prefeitura de Guarujá oferece, por exemplo, a instalação gratuita de telas de proteção em caixas d’água. Essa medida simples, mas poderosa, impede o acesso do mosquito ao reservatório, um criadouro comum. Munícipes interessados podem solicitar o serviço pelo telefone 3308-6562.
Outros pontos estratégicos, como cemitérios, que devido à grande quantidade de vasos e à circulação de pessoas, são alvos de vistorias e aspiração de insetos. Ações educativas nas escolas também complementam o esforço, com atividades lúdicas, como teatro de fantoches, que ensinam as crianças a prevenir a doença em casa.
Uma estratégia inovadora adotada pela equipe é a introdução de peixes barrigudinhos (Poecilia reticulata) em locais com grande acúmulo de água. Esses pequenos predadores se alimentam das larvas do Aedes aegypti, adicionando um componente de controle biológico vital aos esforços.
A Luta Contínua: O Cenário Que Vem De Longe
A batalha contra as arboviroses, especialmente a dengue, não é recente. Ao longo das últimas décadas, o Brasil tem enfrentado surtos e epidemias cíclicas, impulsionadas por fatores como o crescimento urbano desordenado, as mudanças climáticas e a adaptação do mosquito Aedes aegypti a diferentes ambientes.
A urbanização criou ambientes propícios para a reprodução do vetor, enquanto o aquecimento global tem estendido as estações de proliferação. A cada ano, a ameaça da dengue se renova, exigindo das autoridades de saúde e da população respostas mais inteligentes e proativas.
O que antes era uma preocupação sazonal, restrita a meses mais quentes e chuvosos, agora se estende por períodos maiores, exigindo um planejamento estratégico de longo prazo. A antecipação de ações como a Operação Checkout em Guarujá reflete essa nova realidade, onde a prevenção precisa ser constante e adaptável às variáveis climáticas.
Essa luta importa agora mais do que nunca, pois a capacidade de resposta das cidades a surtos de doenças transmitidas por vetores é um termômetro da saúde pública. Proteger os moradores e visitantes não é apenas uma questão de bem-estar individual, mas de sustentabilidade para o turismo e a economia local, além de ser um modelo de responsabilidade sanitária para todo o país.



