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Gaeco apura operador de Vorcaro em fraude na compra de distribuidora

O Ministério Público de São Paulo (MPSP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), deflagrou nesta quinta-feira (24) a Operação Crédito Oculto. A ação, um desdobramento da Operação Carbono Oculto, mira em uma sofisticada estrutura de lavagem de dinheiro e ocultação de bens, com conexões diretas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e o setor de combustíveis. Entre os principais alvos está o empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, apontado como operador financeiro de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

A ofensiva mobilizou um vasto aparato de segurança e fiscalização, cumprindo 29 mandados de busca e apreensão simultaneamente. A operação atingiu 13 pessoas físicas e 24 empresas, espalhadas por diversos estados brasileiros. A ação coordena esforços de múltiplas instituições, sublinhando a gravidade e a complexidade do esquema investigado.

Megaoperação Abrange Vários Estados e Órgãos de Fiscalização

A execução da Operação Crédito Oculto demonstra a capilaridade da rede criminosa e a cooperação interinstitucional no combate a fraudes financeiras de grande porte. A força-tarefa conta com a participação crucial da Receita Federal, que atua na identificação de ilícitos tributários e movimentações financeiras atípicas, e da Secretaria da Fazenda, focada na fiscalização fiscal e coibição da sonegação.

Além disso, a Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo, a Polícia Militar e a Polícia Civil oferecem suporte jurídico e operacional. A articulação se estende por outras unidades do Gaeco, em estados como Rio de Janeiro, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo. Esta ampla coordenação nacional é vital para desmantelar organizações que operam transpondo fronteiras estaduais e setoriais, garantindo que a investigação abranja todas as ramificações do crime organizado.

Esquema Bilionário: Ocultação da Usina Itajobi e O Papel das Fintechs

As investigações do MPSP revelam que a organização criminosa desenvolveu uma estrutura complexa para ocultar o controle da Usina Itajobi, localizada em Marapoama, interior de São Paulo. A aquisição e movimentação financeira da usina tornaram-se um ponto central do esquema de lavagem de dinheiro. O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior emerge como peça-chave nesta engrenagem.

Freixo Júnior controlava o Grupo Entre, um conglomerado de fintechs que incluía a Entrepay, Acqio e Octa. Estas empresas, responsáveis por transações financeiras digitais, foram posteriormente liquidadas pelo Banco Central (BC) em março de 2026, um sinal claro de irregularidades graves e falhas regulatórias. A investigação aponta que a aquisição da Usina Itajobi e outras operações teriam movimentado impressionantes R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. Esse volume financeiro astronômico sublinha a escala das atividades ilícitas e o potencial impacto na economia formal.

Inicialmente, Freixo teria ingressado na estrutura criminosa em um estágio posterior, utilizando suas empresas e fintechs para criar camadas adicionais de ocultação. O objetivo era dissimular a verdadeira movimentação financeira e a real propriedade da Usina Itajobi. Os investigadores atribuem a titularidade da usina a Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”. Estes dois nomes são figuras centrais identificadas na Operação Carbono Oculto como articuladores de um gigantesco esquema de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis, evidenciando a interconexão das fraudes e o poder do crime organizado.

A Intrincada Rota do Dinheiro no Banco Genial

Parte crucial da estrutura de lavagem de dinheiro passou por operações específicas realizadas no Banco Genial. A investigação aponta para a participação de Humberto Arthur Tupinambá Neto, então executivo da instituição, e seus irmãos André e Bruno Tupinambá, que foram alvos dos mandados de busca e apreensão. Este envolvimento de uma instituição financeira de renome destaca a audácia e a sofisticação dos criminosos na exploração de brechas e na cooptação de agentes do sistema.

Análises detalhadas identificaram uma transferência de R$ 100 milhões direcionada à Usina Itajobi. Esse montante transitou, em questão de minutos, por “múltiplas contas gráficas” mantidas em fintechs, uma técnica clássica de esconder a origem e o destino do dinheiro através de transações pulverizadas e rápidas. Posteriormente, a Usina Itajobi foi integrada à carteira de um novo fundo de investimentos, criado especificamente para viabilizar sua aquisição, complexificando ainda mais o rastreamento dos ativos.

O passo seguinte na cadeia de lavagem envolveu a compra de um investimento em Certificados de Depósito Bancário (CDB) do Banco Genial. A instituição, por sua vez, teria utilizado o dinheiro para emitir duas cédulas de crédito bancário em favor de duas empresas de fachada. O ciclo se fechou com a aquisição da distribuidora de combustíveis Terrana, completando uma rota que transformava dinheiro ilícito em ativos e negócios legítimos, blindando os verdadeiros proprietários.

Interesse de Daniel Vorcaro no Setor Sucroalcooleiro e o STF

Os interesses do empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, no setor de açúcar e álcool não se limitam às operações de lavagem de dinheiro. As investigações revelam tentativas de influenciar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em uma ação crítica sobre o setor sucroalcooleiro. Este episódio ilustra a pressão exercida por grandes empresários para proteger e ampliar seus investimentos, mesmo em meio a controvérsias judiciais.

Em uma mensagem de texto interceptada, enviada ao advogado Ciro Soares, Vorcaro demonstrava urgência e preocupação com o andamento do processo. Ele menciona diretamente o ministro Gilmar Mendes, expressando sua apreensão: “Cara, urgente isso pra mim, preciso de sua ajuda. Gilmar está contra mim num caso que estão usando pra ferrar todos meus precatórios.” A declaração de Vorcaro revela a dimensão do que estava em jogo para ele pessoalmente e para seus negócios.

Na época, Vorcaro acompanhava de perto um julgamento no STF que impactava diretamente sua carteira de precatórios no setor sucroalcooleiro, estimada em cerca de R$ 10 bilhões. Precatórios são reconhecimentos de dívidas do poder público após decisões judiciais transitadas em julgado. A reação de Vorcaro ocorreu após um pedido de destaque feito pelo ministro Gilmar Mendes, que retirou o caso do plenário virtual e o levou para o plenário físico da Segunda Turma, zerando a contagem de votos já proferidos.

O Julgamento do Tema 826 e o Impacto nos Precatórios

A polêmica em torno dos precatórios do setor sucroalcooleiro girou em torno do Tema de Repercussão Geral nº 826, fixado pelo STF em 2020. Este tema aborda a responsabilidade da União por prejuízos alegadamente causados pela política de fixação de preços do setor nas décadas de 1980 e 1990. A Advocacia-Geral da União (AGU) estima que o impacto financeiro de todas as ações relacionadas a este tema espalhadas pelo país possa alcançar a cifra de R$ 145 bilhões.

O Supremo Tribunal Federal, ao fixar o Tema 826, determinou que a União só deve indenizar as empresas do setor sucroalcooleiro se for comprovado, por meio de perícia técnica individualizada, que a intervenção estatal na política de preços gerou prejuízos econômicos concretos. Com essa decisão, dois métodos de cálculo passaram a ser considerados: o novo, que exige a perícia, e o antigo, baseado na diferença entre os preços praticados e os custos levantados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) – um método que o ministro Gilmar Mendes chamou de “um estudo genérico do setor”.

O caso específico da Destilaria Alcídia ilustra o embate. A empresa havia vencido uma ação contra o governo antes da entrada em vigor do Tema 826, e o cálculo aplicado para sua indenização foi o método antigo. A questão central no STF era se esse precatório deveria permanecer inalterado, protegido pela coisa julgada, ou se deveria ser reavaliado à luz da nova exigência de perícia. Gilmar Mendes e André Mendonça defenderam uma nova apuração, enquanto a maioria — composta pelos ministros Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques — entendeu que a coisa julgada deveria ser respeitada, mantendo o benefício da Alcídia.

O placar final do julgamento foi de 3 a 2 a favor do banqueiro, com votos de Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques. Apesar da preocupação inicial de Vorcaro com o posicionamento de Gilmar Mendes, o decano se juntou a André Mendonça e votou contra a Destilaria Alcídia um ano depois, contrariando os interesses imediatos do empresário. No entanto, a maioria prevaleceu, preservando a decisão anterior que favorecia o setor.

A diferença entre os métodos de cálculo de indenização é substancial. No método antigo, a comparação de preços levava a um patamar de indenização mais previsível. A Alcídia, por exemplo, solicitou R$ 67,6 milhões em valores de 1999. No entanto, no caso da Alcídia, a perícia individual exigida pelo Tema 826 não chegou a ser produzida. Outros processos, contudo, demonstram que o resultado da perícia pode alterar drasticamente o valor devido. Em Pernambuco, uma sentença inicial fixou em R$ 692,4 milhões a indenização à Usina União e Indústria S.A. Posteriormente, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) reverteu essa decisão, concluindo que a perícia não demonstrou prejuízo concreto e específico causado pela política de preços, afastando qualquer obrigação de pagamento pela União. Este exemplo evidencia a importância da nova metodologia para os cofres públicos.

O Que Dizem os Citados na Operação Crédito Oculto

Em nota oficial, o Banco Genial se manifestou sobre as acusações e o envolvimento na Operação Crédito Oculto. A instituição esclarece que Humberto Tupinambá não integra sua Diretoria e não é sócio desde maio de 2026, quando ocorreu sua destituição. O banco afirma ter fornecido todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, incluindo as empresas Berna e Branson Holdings, ao Gaeco-SP.

A Genial também ressaltou que realizou as comunicações cabíveis ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), conforme a legislação e a regulamentação aplicáveis. O banco reiterou que, no âmbito das operações mencionadas, atuou dentro de suas atribuições, observando procedimentos, normas e regulamentos, e considerando as informações disponíveis à época.

Após tomar conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de um processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito e o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios, seguido de sua posterior destituição. A Genial informou que também buscou o apoio de especialistas externos para revisar e aprimorar seus processos e controles internos. Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial renunciou à administração do Fundo Radford e mantém sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e documentos solicitados. O banco finaliza a nota reafirmando sua disposição em colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos necessários às autoridades competentes.

A reportagem da Hardnews entrou em contato com a distribuidora Terrana, com a Usina Itajobi e com as defesas de Humberto Tupinambá, Bruno Tupinambá, Freixo Júnior, Roberto Augusto Leme da Silva e Mohamad Hussein Mourad. Não foi possível estabelecer contato com André Tupinambá até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para qualquer manifestação dos citados e de seus representantes legais.

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