A deputada federal Erika Hilton (SP), uma das vozes proeminentes do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), vê sua candidatura à reeleição em 2026 envolta em uma disputa acirrada por recursos do fundo eleitoral. A sigla prevê destinar R$ 2,3 milhões para sua campanha, um montante que, embora superior à média de outros parlamentares da legenda, está no centro de uma série de acusações de quebra de acordos internos. A manifestação pública da deputada, ocorrida três semanas antes da decisão final da Executiva Nacional do partido, expõe fissuras profundas na legenda e coloca em xeque a distribuição equitativa de verbas para o próximo pleito.
A tensão atinge seu ápice em um momento crucial: em 18 de julho, a Executiva Nacional do PSOL reunirá-se para formalizar a divisão dos recursos. O valor de R$ 2,3 milhões para Erika Hilton supera os R$ 2,2 milhões a serem recebidos por outros deputados do partido que também buscam a reeleição na Câmara dos Deputados. Mais significativamente, o montante representa um aumento de 61,5% em comparação com os recursos destinados à parlamentar em 2022. Contudo, essa quantia não atende às expectativas da deputada, que alega a inviabilidade de sua postulação sem um apoio financeiro mais robusto.
Escalada da Tensão: Acusações de Erika Hilton e o Fundo Eleitoral
Na última terça-feira, Erika Hilton veio a público para denunciar que a direção nacional do PSOL estaria “rasgando” acordos firmados internamente. A parlamentar sustenta que o cenário de distribuição atual de verbas torna sua campanha para as eleições de 2026 “inviável”. Como figura de destaque e uma das principais puxadoras de votos do partido no estado de São Paulo, a deputada argumenta que sua atuação exige uma logística complexa e um esquema de segurança robusto, elementos que demandam um aporte financeiro considerável.
Para percorrer o vasto território paulista e mobilizar eleitores, a deputada afirma que ela e seu grupo político “correm riscos que a burocracia do partido não pode simplesmente ignorar”. A falta de investimento adequado, segundo ela, não apenas compromete a sustentabilidade de pré-candidaturas alinhadas a seu grupo, mas também pode resultar no rebaixamento do potencial de votos do PSOL e, mais gravemente, em ameaças à sua integridade física. A urgência de sua declaração ressalta a importância da pauta de segurança para políticos que representam minorias sociais, especialmente em um cenário de polarização política.
Ameaças e Riscos na Disputa por Votos
A reivindicação de Erika Hilton por mais recursos transcende a mera disputa financeira. A deputada, sendo uma mulher negra e transexual, enfrenta desafios únicos no cenário político brasileiro, onde a segurança e a logística de campanha adquirem uma dimensão crítica. Os “riscos” mencionados por ela não são meramente retóricos; figuras políticas que representam grupos minoritários frequentemente são alvos de violência e hostilidade. A inviabilização de sua campanha, portanto, não significa apenas a perda de uma cadeira no Congresso, mas também a redução da representatividade e da capacidade de mobilização do PSOL.
A relevância de Erika Hilton como “puxadora de votos” é estratégica para o partido. Candidatos com alto poder de captação de votos são cruciais para o cálculo do quociente eleitoral, auxiliando na eleição de outros nomes da legenda. Ignorar as necessidades específicas de segurança e logística para uma figura de tal projeção pode ter um impacto direto na performance eleitoral do PSOL em São Paulo e, consequentemente, na composição da bancada federal do partido. A disputa pelos recursos, assim, expõe uma tensão entre a lógica puramente matemática da distribuição e a necessidade de proteger e potencializar lideranças estratégicas.
O Racha Interno: Federação, Dissidência e Objetivos Políticos
A atual controvérsia em torno do fundo eleitoral do PSOL é um sintoma de tensões internas que se arrastam há meses. Em março, o grupo político de Erika Hilton, denominado Revolução Solidária, decidiu disputar as eleições pelo PSOL, mesmo após o diretório nacional da sigla ter optado por não ingressar na federação com o Partido dos Trabalhadores (PT), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o Partido Verde (PV). Essa união era ardentemente defendida pela deputada e pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, ambos integrantes da Revolução Solidária. A decisão do PSOL de seguir um caminho de isolamento gerou um profundo descontentamento na ala de Hilton e Boulos, deixando em aberto os rumos políticos de seus integrantes.
Fontes internas do partido, alinhadas à ala oposta a Erika Hilton, interpretam a manifestação pública da parlamentar como uma jogada estratégica com três objetivos principais. Primeiramente, haveria uma tentativa de barganhar o aumento do valor do fundo destinado à sua própria campanha. Em segundo lugar, a movimentação visaria trabalhar pela eleição de Natália Boulos à Câmara dos Deputados, uma figura próxima a Erika. Por fim, alguns integrantes sugerem que a deputada estaria iniciando a construção de uma narrativa para justificar uma eventual saída do partido em um futuro próximo, pavimentando o caminho para uma possível migração para outra legenda.
Objetivos Velados e a Defesa da Direção Nacional
A direção nacional do PSOL, por sua vez, defende que a destinação dos R$ 2,3 milhões a Erika Hilton já representa uma “deferência a ela”. A sigla argumenta que, no pleito de 2022, nenhum candidato recebeu um montante superior aos demais dentro de suas respectivas faixas de recursos. Inclusive, o então puxador de votos Guilherme Boulos teria recebido menos do que candidatos que tentavam a reeleição naquele ano. A comparação serve para justificar a proporcionalidade atual e refutar a ideia de que Erika estaria sendo preterida.
Contrariamente à interpretação de que a manifestação de Erika Hilton seria um “ensaio” para deixar o PSOL, algumas fontes da legenda questionam essa visão. Argumentam que a parlamentar não precisaria de uma “desculpa” para uma eventual saída, especialmente após a divulgação de uma carta pública da Revolução Solidária. Esta carta foi publicada após a direção do PSOL, sob o comando de Paula Coradi, rejeitar por maioria a formação de uma federação com o PT. Na ocasião, o grupo de Erika e Guilherme Boulos afirmou que o PSOL optou por um “caminho de isolamento” em detrimento do debate de soluções políticas, deixando claro o descontentamento e a possibilidade de novos rumos para seus integrantes.
A ala que apoia Erika Hilton sustenta que seu apelo ocorre em um momento de profunda crise interna no partido. A tensão é agravada pela possibilidade de uma saída coletiva de figuras importantes após as eleições. Esse cenário, segundo essas fontes, estaria influenciando as discussões financeiras, com a ideia de não investir pesado em campanhas de figuras que poderiam, em breve, deixar a sigla. Tal estratégia, se confirmada, revelaria um cálculo político que prioriza a manutenção da estrutura partidária em detrimento do fortalecimento de lideranças específicas, mesmo que estrategicamente importantes.
Privilégios Questionados e a Lógica dos Critérios de Repasse
A deputada federal Erika Hilton questiona abertamente os critérios adotados pela direção do PSOL para o financiamento das campanhas. Ela compara o valor previsto para sua reeleição com a verba destinada a outros nomes, alguns com menos tempo no Congresso ou recém-filiados à federação PSOL-Rede (Rede Sustentabilidade). Erika ressalta seu compromisso de permanecer no PSOL para auxiliar a sigla a alcançar a cláusula de barreira, um mecanismo que exige um mínimo de votos e cadeiras no Congresso para que o partido tenha acesso a recursos do fundo partidário e tempo de rádio e TV. Em troca, ela esperava ter direito a recursos adicionais, conforme definido para a categoria de “puxadores de voto”.
Em postagens nas redes sociais, Erika Hilton citou nominalmente outros parlamentares que estariam insatisfeitos com a gestão dos recursos. Entre eles, estão os deputados estaduais Renata Souza (RJ) e Carlos Giannazi (SP), além do vereador Rick Azevedo (RJ), que receberá R$ 900 mil para sua candidatura à Câmara dos Deputados, um valor similar ao de outros vereadores na mesma condição. A deputada ainda afirmou ter sido informada por aliados sobre uma planilha apresentada pela Executiva Nacional que não a teria incluído na faixa de recursos combinada, e que não teve acesso ao documento oficial.
A denúncia mais contundente de Erika Hilton reside na percepção de um “privilégio branco e cis” na distribuição. “Hoje, Juliano Medeiros, presidente da Federação PSOL-Rede, em sua primeira candidatura, teria exatamente a mesma prioridade que eu. Manuela d’Ávila, que acabou de chegar ao partido, tem previsão de receber mais que o dobro. Respeito a trajetória deles e adoraria vê-los eleitos, mas isso é o privilégio branco e cis sobrepondo tudo: os acordos feitos conosco, cálculos eleitorais sérios… A inteligência política passou longe”, declarou a deputada. Essa fala expõe uma camada delicada de discriminação, especialmente em um partido que se pauta pela defesa das minorias. O cenário ganha ainda mais gravidade após a validação, por maioria do Supremo Tribunal Federal (STF), de uma emenda que anistia partidos que violaram cotas eleitorais para minorias, um precedente que pode ser interpretado como um enfraquecimento das políticas de inclusão.
A Estratégia do PSOL para Nomes de Peso
O PSOL defende a destinação de R$ 5 milhões para a campanha de Manuela d’Ávila ao Senado pelo Rio Grande do Sul. A justificativa para o valor significativamente maior reside no fato de se tratar de uma eleição majoritária, que por natureza exige mais recursos. Além disso, Manuela lidera as pesquisas de intenções de voto no estado e é vista como uma aposta da esquerda gaúcha, integrando uma chapa encabeçada por Juliana Brizola (PDT) e Edegar Pretto (PT) ao governo. O partido avalia que a campanha de Manuela tem o potencial de alavancar a votação proporcional do PSOL no Rio Grande do Sul, ajudando a eleger mais deputados federais e estaduais, e que o valor previsto atinge o teto de repasse para postulantes ao Senado.
Em contraste, Juliano Medeiros e Natália Boulos receberão, cada um, R$ 2 milhões para suas campanhas à Câmara dos Deputados por São Paulo. O PSOL também exemplifica o caso de Luiza Erundina, que, embora inicialmente cotada para uma vaga federal, disputará uma cadeira estadual em São Paulo e é vista como uma puxadora de votos. Ela receberá um montante superior à média dos demais candidatos estaduais, embora menor do que se tivesse concorrido para o Congresso. Essa diferenciação sublinha a complexidade na alocação de recursos, que busca equilibrar o potencial de voto individual, o tipo de eleição (majoritária ou proporcional) e as necessidades estratégicas do partido.
Contexto
A disputa interna no PSOL sobre a distribuição do fundo eleitoral destaca desafios recorrentes na política brasileira, como a transparência na gestão de recursos partidários e a representatividade de grupos minoritários. A polêmica envolvendo Erika Hilton reflete uma tensão latente entre a burocracia partidária e a demanda por apoio equitativo para candidaturas estratégicas, especialmente aquelas que defendem pautas identitárias. O desfecho dessa controvérsia pode influenciar não apenas o desempenho do PSOL nas eleições de 2026, mas também a dinâmica da federação e o futuro político de lideranças importantes dentro da esquerda brasileira.