A maioria dos brasileiros já sente os efeitos das mudanças climáticas no dia a dia. Uma pesquisa exclusiva, realizada pelo Aurora Lab e More in Common, mostra que 85% da população percebe essas interferências. Quase metade, 46%, descreve o impacto como intenso. O levantamento, obtido pela Agência Brasil, será lançado oficialmente na próxima quarta-feira, 27, em São Paulo, e revela uma percepção disseminada sobre a crise climática e as expectativas para uma transição energética justa.
Os custos de vida aumentaram para 53% dos participantes, reflexo direto da alteração no regime de chuvas e temperaturas extremas. Essa instabilidade impacta safras agrícolas, encarecendo alimentos, e pressiona a infraestrutura de energia, elevando contas. Além do bolso, a saúde sofre. Problemas físicos, como doenças respiratórias agravadas pela poluição ou estresse térmico, atingem 45%. O adoecimento mental afeta 32%, muitas vezes ligado à ansiedade e incerteza geradas por eventos extremos e a degradação ambiental.
Obstáculos ao acesso ao local de trabalho foram citados por 40%. Enchentes, deslizamentos e interrupções no transporte público viram rotina em grandes centros urbanos, complicando o deslocamento. Outros 17% reportam perda de renda, e 10% falam em perda de emprego, um sinal da crescente vulnerabilidade econômica em setores e regiões mais expostas às alterações do clima.
Estado lidera busca por soluções para mudanças climáticas
Sete em cada dez brasileiros, ou 67% dos entrevistados, veem o Estado como o principal responsável por garantir a proteção de trabalhadores frente aos desafios do clima. Apenas 7% depositam essa confiança nos empregadores, e menos de 6% em grupos auto-organizados, como os de direitos socioambientais. Essa preferência pelo governo surpreendeu os pesquisadores.
A diretora-executiva do Aurora Lab, Gabriela Vuolo, declarou preocupação com os dados. “É um dado muito preocupante, porque ele tira ou não coloca a responsabilidade em cima dos empregadores”, afirmou Vuolo. Ela reforça que eventos climáticos extremos são cada vez mais frequentes, e empresas “têm um papel muito importante em garantir a proteção dos trabalhadores no processo de transição também”.
A concentração da expectativa no poder público pode aliviar a pressão sobre o setor privado e a sociedade civil. Isso indica uma lacuna na percepção sobre a corresponsabilidade na adaptação e mitigação. O ônus, na visão da maioria, recai sobre as políticas públicas e o aparato estatal, o que levanta questões sobre a capacidade do Estado de absorver sozinho tamanha demanda e a importância de fomentar a participação de todos os setores.
A pesquisa aponta também para uma alta consciência da necessidade de transformação. Noventa e três por cento dos brasileiros entendem que os modelos de produção e consumo atuais precisam mudar para enfrentar a crise climática. Setenta e quatro por cento concordam totalmente com essa afirmação. Isso inclui a descarbonização da indústria, o investimento em energias renováveis e a adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis.
Para 67%, essas mudanças trarão bons frutos para a classe trabalhadora, abrindo novas vagas. Setores como instalação de painéis solares, produção de bioplásticos, gestão de resíduos e desenvolvimento de novas tecnologias verdes demandarão uma nova mão de obra qualificada. Apenas 10% temem o efeito contrário, a redução de postos de trabalho, um receio comum em transições industriais.
A maioria dos entrevistados — 45% — acredita que a transição energética pode reduzir as desigualdades sociais. Isso ocorreria pela democratização do acesso a novas tecnologias e a geração de empregos em regiões que hoje carecem de desenvolvimento. Outros 40% imaginam que as desigualdades se manterão ou até aumentarão. Desses, 23% veem um aumento, e 17% preveem estabilidade. O argumento para o aumento inclui o custo inicial elevado de algumas tecnologias e a potencial desvalorização de ativos em setores antigos, afetando trabalhadores menos qualificados.
A diretora Gabriela Vuolo comenta que parte dos respondentes até projeta um aumento nos salários. Esse otimismo reflete a esperança em um modelo econômico mais justo e inclusivo, onde as novas tecnologias e práticas gerem valor de forma mais equitativa, distribuindo ganhos para além das grandes corporações.
Mesmo em tempos de notícias falsas, a ciência sustenta a credibilidade. Universidades e cientistas são a fonte de informação mais confiável para 69% dos entrevistados. Ao mesmo tempo, 65% usam as redes sociais como principal meio para se informar sobre o clima.
Essa dualidade expõe um paradoxo: a busca por fontes confiáveis, mas a dependência de plataformas frequentemente saturadas por desinformação e narrativas polarizadas. A lacuna entre a confiança na ciência e o consumo de conteúdo em redes sociais levanta questões sobre a eficácia da comunicação científica e a resiliência da população frente à proliferação de dados não verificados. É um desafio para a formação de opinião e para a adesão a políticas públicas baseadas em evidências.
O estudo, intitulado Clima, Trabalho e Transição Justa, será apresentado no evento “Quem move o Brasil? Debates sobre Trabalho, Energia e Desenvolvimento”. As entrevistas aconteceram entre maio e setembro de 2025. Participaram 2.630 pessoas, com 16 anos ou mais, de nove capitais brasileiras: Belém, Brasília, Fortaleza, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Contexto
A discussão sobre mudanças climáticas e transição energética ganhou escala global nas últimas décadas, saindo da esfera científica para o centro das agendas políticas e econômicas. O Brasil, signatário de acordos internacionais como o de Paris, tem o desafio de descarbonizar sua economia e proteger sua biodiversidade, ao mesmo tempo em que busca crescimento e redução de desigualdades. A dependência de combustíveis fósseis, ainda significativa em várias cadeias produtivas e na matriz de transporte, exige um planejamento de longo prazo que contemple a requalificação da mão de obra e a criação de novas oportunidades. A transição justa busca assegurar que os benefícios das novas economias verdes sejam distribuídos equitativamente, e que trabalhadores de setores intensivos em carbono não sejam penalizados pela inevitável transformação.