Relembre disputas territoriais e tensões geopolíticas que moldaram a região

Entenda os principais conflitos territoriais que moldaram a América Latina ao longo da história.
As relações entre a Venezuela e os Estados Unidos emergiram como um ponto focal nas tensões geopolíticas atuais, especialmente após uma série de declarações e movimentações militares no Caribe. O governo de Donald Trump intensificou operações navais alegando a necessidade de combater o narcotráfico, incluindo o envio do porta-aviões USS Gerald R. Ford, que foi acompanhado por navios de guerra e aeronaves de vigilância. Essa postura militar robusta sugere que a pressão sobre Caracas está longe de diminuir.
Além disso, Trump declarou que o espaço aéreo da Venezuela deve ser considerado “totalmente fechado”, aumentando o risco de incidentes e intensificando os temores de possíveis incursões terrestres contra redes de tráfico associadas ao regime de Nicolás Maduro.
Apesar de ser uma região com um histórico recente de poucos conflitos armados, a América Latina é marcada por disputas territoriais que perduram ao longo do tempo, frequentemente influenciadas por decisões judiciais contestadas e fronteiras mal definidas. O último confronto armado significativo na América do Sul ocorreu há 24 anos, na Guerra de Cenepa entre Peru e Equador, que deixou um rastro de cerca de 80 soldados mortos e expôs as fragilidades das fronteiras herdadas do século 19.
A Guerra do Paraguai e suas consequências
Entre 1864 e 1870, Brasil, Argentina e Uruguai se uniram contra o Paraguai em um dos episódios mais sangrentos da história da América Latina, resultando na morte de pelo menos 250 mil soldados. O Paraguai, sob o comando de Francisco Solano López, ficou devastado, perdendo grande parte de sua população e vendo seu território drasticamente alterado. Esse conflito também marcou a ascensão política e militar do Brasil na região.
Disputas territoriais no século 19
A disputa pelo deserto do Atacama, rica em minerais, entre Chile, Bolívia e Peru (1879–1883) alterou a geografia andina para sempre, resultando na perda do acesso ao mar pela Bolívia, um tema que ainda molda sua diplomacia. O último grande conflito armado no continente, a Guerra das Malvinas em 1982, quando a Argentina tentou recuperar o arquipélago sob controle britânico, resultou em 650 mortos argentinos e 255 britânicos, além da rendição das tropas argentinas e a subsequente redemocratização do país.
Tensão atual: Disputa pelo Essequibo
Atualmente, a disputa pelo território do Essequibo voltou a acirrar os ânimos políticos na América do Sul. Este território, que representa cerca de 70% do território da Guiana, é rico em petróleo e outros recursos naturais. A controvérsia aumentou após descobertas da ExxonMobil em 2015, levando o governo da Guiana a acelerar concessões para exploração de petróleo. A Venezuela reivindica esse território com base no Acordo de Genebra de 1966, que previa negociações diretas sobre a soberania da área.
Caracas considera o laudo arbitral de 1899, que atribuiu o Essequibo à Guiana Britânica, nulo e argumenta que houve favorecimento a Londres. Com as recentes descobertas de petróleo, o tema tornou-se central na política interna da Venezuela, e o governo Maduro intensificou mobilizações militares, além de promover um plebiscito interno para reforçar a narrativa de que o Essequibo pertence ao país.
Por sua parte, a Guiana buscou apoio jurídico internacional e apresentou o caso à Corte Internacional de Justiça (CIJ), que determinou que Caracas não pode alterar unilateralmente os limites territoriais enquanto o processo estiver em andamento.
Disputas territoriais em andamento
Atualmente, a América Latina abriga pelo menos dez disputas territoriais ativas, concentradas em fronteiras definidas no século 19. Muitas dessas disputas estão sendo analisadas pela CIJ, enquanto outras ressurgem durante períodos eleitorais. A ausência de um acordo claro, especialmente entre Guatemala e Belize, sobre uma área correspondente a quase metade do território belizenho, facilita o tráfico de drogas e a violência na região. A decisão da CIJ, que ainda está pendente, poderá redefinir o acesso ao Atlântico.
Outro foco de disputas é entre Colômbia e Nicarágua, que brigam pelo arquipélago de San Andrés, Providência e Santa Catalina há décadas. Apesar de a CIJ ter confirmado a soberania colombiana sobre as ilhas em 2012, a Nicarágua foi reconhecida como detentora de parte significativa do mar circundante, uma decisão contestada por Bogotá. Novos recursos estão sendo pedidos para que se cumpra a sentença e se amplie a plataforma continental nicaraguense.
Na fronteira entre Chile e Bolívia, a disputa sobre o Rio Silala permanece parada na CIJ desde 2019, com a Bolívia afirmando que parte do fluxo ocorre por canalização artificial. Santiago, por outro lado, defende que o rio é internacional e deve ser compartilhado. Apesar das tensões, os países anunciaram avanços diplomáticos nos últimos anos.