Cientistas e ambientalistas destacam um aliado subestimado na luta contra as mudanças climáticas: o carbono azul. Armazenado em ecossistemas costeiros, como manguezais e pradarias marinhas, o dióxido de carbono capturado pelos oceanos emerge como peça-chave para frear o aquecimento global. A atenção se intensifica no Dia Mundial dos Oceanos, celebrado anualmente, com foco no potencial da costa brasileira.
O conceito refere-se especificamente ao CO₂ que ambientes marinhos absorvem e fixam. Esses espaços atuam como sumidouros naturais, retirando o gás da atmosfera. Reduzem, assim, os efeitos da elevação das temperaturas.
Natali Piccolo, diretora do Programa Costeiro Marinho da Conservação Internacional (CI-Brasil), afirma que o oceano absorve cerca de 30% das emissões globais de CO₂. Além disso, produz mais da metade do oxigênio que respiramos.
“A Amazônia é comumente chamada de ‘pulmão do mundo’, mas o oceano cumpre o equivalente a esse papel”, declarou Piccolo. Ela ponderou: “O que não descarta, claro, a importância da floresta tropical na regulação do clima.”
A funcionalidade desses ecossistemas vai além da captura de carbono.
São berçários de vida, oferecendo abrigo vital para a biodiversidade marinha.
Sustentam diretamente a pesca artesanal, garantindo sustento para milhões.
Ainda protegem comunidades costeiras contra a erosão, ressacas e eventos climáticos extremos, uma barreira natural de custo-benefício inestimável frente aos crescentes desastres.
Brasil e o Potencial do Carbono Azul
O Brasil abriga o maior sistema contínuo de manguezais do mundo, localizado na costa da Amazônia. Essa condição posiciona o país como um ator estratégico na busca por soluções baseadas na natureza para a crise climática global.
Apesar desse protagonismo potencial, a analista de conservação do WWF-Brasil, Marina Corrêa, observa uma disparidade. O oceano recebe menos atenção que outros biomas brasileiros.
“O mar ainda é, em muitos aspectos, o sistema invisível da conservação brasileira”, disse Corrêa. Ela critica a visão histórica: “Foi tratado como uma imensidão azul vazia, quando na verdade é um território vivo, cheio de biodiversidade, cultura, trabalho e modos de vida”.
O Sistema Marinho-Costeiro brasileiro se estende por aproximadamente 5,7 milhões de quilômetros quadrados. Representa cerca de 40% do território nacional. Mais da metade da população do país vive nesse ecossistema.
Mesmo com esses números, biomas como Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica concentram a maior parte da atenção pública, política e financeira voltada à conservação ambiental.
Impacto Direto nas Comunidades Costeiras
O interesse crescente em projetos de carbono azul traz consigo um debate necessário sobre os direitos territoriais e a participação efetiva das comunidades tradicionais.
Marina Corrêa, do WWF-Brasil, enfatiza que resultados duradouros dependem diretamente do respeito a esses direitos e da repartição justa dos benefícios gerados.
“O sucesso dessas iniciativas não deve ser medido apenas pela quantidade de carbono armazenado”, afirmou a analista. “Deve ser também pela capacidade de fortalecer territórios, conservar a biodiversidade e melhorar a qualidade de vida das pessoas que historicamente cuidam desses ecossistemas”.
Quando degradados, esses ambientes perdem a capacidade de oferecer serviços essenciais. Isso inclui a manutenção dos estoques pesqueiros, a proteção natural da costa e a conservação da biodiversidade. A perda desses serviços afeta a segurança alimentar e a economia local.
A destruição desses ecossistemas, por outro lado, pode liberar para a atmosfera o carbono acumulado por décadas ou séculos. Isso agrava, de forma considerável, o aquecimento global.
É uma via de mão dupla: a conservação do carbono azul protege o clima e, ao mesmo tempo, as formas de vida das populações costeiras.
Além do Gás Carbônico: Sustento e Cultura
Proteger os oceanos significa mais do que regular o clima. Implica salvaguardar empregos, garantir segurança alimentar, preservar culturas tradicionais e manter formas de subsistência construídas ao longo de gerações.
Natali Piccolo, da CI-Brasil, detalha a dimensão econômica: “Globalmente, a maior renda do oceano é gerada pela pesca, que sustenta 100 milhões de empregos e produz 80 milhões de toneladas de pescado marinho, além de 30 milhões de toneladas da aquicultura marinha”. Isso sustenta a segurança alimentar de milhares de pessoas, fornecendo proteína de alta qualidade.
No Brasil, cerca de 1,7 milhão de pescadores artesanais dependem diretamente da saúde dos ecossistemas marinhos. Os dados são do Registro Geral da Atividade Pesqueira, do Ministério da Pesca e Aquicultura.
Essa dependência direta demonstra a urgência de políticas coordenadas. O trabalho conjunto de instituições públicas com organizações da sociedade civil mostra-se essencial para garantir um futuro mais promissor para os oceanos e para as comunidades que deles dependem.
A CI-Brasil atua de forma sistêmica. Busca preencher as lacunas na proteção, manejo e restauração de ecossistemas marinhos (manguezais, recifes de corais, restingas). Paralelamente, apoia os “povos do mar” a prosperarem e a sociedade brasileira a desenvolver conhecimento e experiência sobre o oceano.
A estratégia do WWF-Brasil para os próximos anos foca em quatro frentes. Fortalece áreas marinhas protegidas, conserva e restaura recifes de coral – o ecossistema mais vulnerável às mudanças climáticas. Promove uma transição energética justa e atua na incidência política para fortalecer a governança dos oceanos no Brasil e internacionalmente.
Contexto
A discussão sobre o carbono azul reflete uma mudança de paradigma na conservação ambiental, afastando-se do foco exclusivo em florestas terrestres para abraçar a complexidade e a importância dos ecossistemas marinhos. Historicamente relegados a segundo plano na agenda climática, os oceanos e suas zonas costeiras, particularmente os manguezais, são agora reconhecidos como sumidouros de carbono de longo prazo, superando em eficiência muitas florestas terrestres em capacidade de sequestro e armazenamento. A degradação acelerada desses ecossistemas, impulsionada por poluição, expansão urbana desordenada e impactos diretos das mudanças climáticas, não apenas libera o carbono acumulado, mas também compromete a resiliência de milhões de pessoas que dependem diretamente deles para seu sustento e proteção costeira. O reconhecimento do papel estratégico do Brasil, que detém grande parte dos manguezais do mundo, impõe ao país uma responsabilidade maior na liderança e na implementação de políticas que integrem a conservação marinha à sua estratégia climática e de desenvolvimento sustentável.