A corda arrebentou mais uma vez no futebol brasileiro. Com o Campeonato Brasileiro de 2026 a todo vapor, a gangorra de treinadores atinge um patamar assustador: são 18 trocas de comando técnico antes mesmo das rodadas finais. O mais recente a sentir a pressão foi Paulo Pezzolano, que encerrou sua jornada no Internacional neste domingo, jogando luz sobre a instabilidade que assola a Série A.
A marca, atingida após o desligamento do técnico uruguaio, mostra um cenário de terra arrasada nos bancos de reservas. Treze das vinte equipes da Série A já viram o time principal mudar de comando ao menos uma vez desde o início da temporada.
Dentre os 20 clubes que disputam a elite nacional, o ciclo de demissões e contratações se intensificou, criando um verdadeiro redemoinho. Em cinco dessas equipes, a diretoria já acionou o “botão de reset” duas vezes, tentando desesperadamente encontrar a fórmula para o sucesso ou, ao menos, para escapar do vexame.
Sete clubes, no entanto, conseguiram remar contra a correnteza e mantêm os mesmos treinadores que começaram o ano. Eles representam uma ilha de estabilidade em meio ao caos que domina o planejamento tático dos times brasileiros.
Onde a Gangorra Parou? Os Sete Nomes que Resistiram
Enquanto a maioria se rende à pressão e à busca por um novo fôlego, um grupo seleto de treinadores consegue manter seus trabalhos desde o apito inicial do Brasileirão de 2026. A continuidade, artigo de luxo no futebol nacional, se fez presente em alguns redutos.
Os “sobreviventes” que não sentiram a ponta da caneta neste ano são: Odair Hellmann no Athletico-PR, Rogério Ceni no Bahia, Fernando Seabra no Coritiba, Rafael Guanaes no Mirassol, Abel Ferreira no Palmeiras, Vágner Mancini no Red Bull Bragantino e Jair Ventura no Vitória. Estes comandantes seguem a frente de seus projetos iniciais.
A Lista Impiedosa: 18 Trocas no Ritmo Frenético da Série A
As 18 mudanças de técnicos se espalham por 13 diferentes clubes, evidenciando uma rotatividade que choca até os mais acostumados com a dinâmica do futebol. Alguns desses clubes, inclusive, protagonizaram mais de uma mudança, mostrando a impaciência das diretorias em meio à turbulência do campeonato.
Clubes com o Botão de Reset Acionado Duas Vezes
Essa distribuição inclui equipes que buscaram a troca dupla de comando. São Paulo, Vasco, Remo, Botafogo e Chapecoense são os times que, até agora, decidiram por duas novas direções técnicas, revelando a complexidade de seus desafios e a ânsia por uma solução imediata.
Em uma cronologia de saídas ao longo da temporada, diversos nomes conhecidos do cenário nacional já deixaram seus postos. A lista é longa e reflete a volatilidade do cargo de treinador no Brasil:
- Jorge Sampaoli — Atlético-MG
- Fernando Diniz — Vasco
- Juan Carlos Osorio — Remo
- Filipe Luís — Flamengo
- Hernán Crespo — São Paulo
- Tite — Cruzeiro
- Juan Pablo Vojvoda — Santos
- Martín Anselmi — Botafogo
- Gilmar Dal Pozzo — Chapecoense
- Dorival Júnior — Corinthians
- Roger Machado — São Paulo
- Fábio Matias — Chapecoense
- Renato Gaúcho — Vasco
- Luis Zubeldía — Fluminense
- Franclim Carvalho — Botafogo
- Luís Castro — Grêmio
- Léo Condé — Remo
- Paulo Pezzolano — Internacional
O desligamento de Pezzolano, o último a integrar essa extensa lista, reforça a tendência de pouca paciência e alto risco que permeia o futebol de alto nível no país.
A Queda do Último: Pezzolano e a Pressão Colorada
A derrota por 1 a 0 para o São Paulo, no Morumbis, pela 28ª rodada do Brasileirão, foi o golpe final para Paulo Pezzolano. O uruguaio deixou o comando do Internacional após um período de quase um ano de trabalho intenso, marcado por altos e baixos na temporada.
Contratado em dezembro de 2025, o técnico liderou a equipe colorada em 44 partidas ao longo de 2026. Nesse período, o Internacional conquistou 17 vitórias, empatou 12 jogos e sofreu 15 derrotas, resultando em um aproveitamento de 48% — um número que não resistiu à pressão da tabela.
A equipe colorada, sob seu comando, se viu em uma situação delicada no Campeonato Brasileiro, ocupando a 18ª posição na classificação, imersa na incômoda zona de rebaixamento. Com apenas 28 pontos conquistados após 28 rodadas, o clube busca agora um novo rumo para reverter a má fase.
Ecos da Instabilidade: Como a Dança Atinge Jundiaí e o Interior
Longe dos holofotes do Maracanã ou do Morumbis, o cenário de trocas frenéticas no Brasileirão reverbera de forma sutil, mas constante, nas realidades do futebol interiorano, incluindo Jundiaí e sua região. A busca por resultados imediatos, que leva a estas 18 demissões na elite, cria uma cultura de alta pressão que pode se espelhar nas divisões menores e no esporte amador.
Treinadores locais e jovens aspirantes à profissão, muitos formados em clubes paulistas de base ou que atuam nas séries A2 e A3 do Campeonato Paulista, observam o que acontece no topo. A mensagem implícita é clara: o tempo para desenvolver um projeto é cada vez mais curto, e a paciência, um artigo de luxo nas grandes ligas.
Isso impacta desde a formação de novos talentos nas categorias de base até a gestão de pequenos clubes da região, que muitas vezes sonham em chegar à elite. A falta de continuidade na Série A pode desestimular a aposta em trabalhos de longo prazo, preferindo soluções rápidas que, nem sempre, se mostram eficazes para a construção de um legado.
Ciclo Vicioso ou Necessidade? O Cenário Tático do Futebol Brasileiro
A avalanche de mudanças de treinadores no Campeonato Brasileiro de 2026 não é um fenômeno isolado, mas o sintoma de uma cultura enraizada no futebol nacional. Historicamente, a pressão por resultados imediatos, aliada à paixão intensa do torcedor e à pouca tolerância da diretoria, tem ditado o ritmo das demissões, tornando o banco de reservas uma verdadeira “cadeira elétrica”.
Ao longo das últimas décadas, poucas foram as temporadas em que a estabilidade se tornou a regra. A cada tropeço, a cada sequência de maus resultados, a solução mais fácil e rápida geralmente recai sobre o comando técnico, buscando um “choque” que raramente entrega frutos duradouros e consolida uma identidade de jogo.
Essa rotatividade excessiva impede a consolidação de filosofias de jogo, dificulta o planejamento a médio e longo prazo e, por vezes, prejudica o desenvolvimento de atletas que precisam de tempo para se adaptar a diferentes métodos. Para o esporte brasileiro, esse ciclo vicioso levanta um questionamento urgente: até que ponto a busca desesperada por uma virada imediata compromete o futuro e a identidade tática de nossos clubes?
A discussão não é apenas sobre números, mas sobre o impacto profundo na qualidade do futebol apresentado e na formação de uma base sólida para as próximas gerações de atletas e, consequentemente, para a própria Seleção Brasileira. A “dança das cadeiras” é mais do que uma estatística; é um espelho das nossas prioridades e impaciências no cenário esportivo atual.



