Brasília – O desempenho de estudantes que concluíram o ensino médio na rede pública do país melhorou de forma acentuada entre 2022 e 2025, indicam dados divulgados nesta sexta-feira (26) pelo Ministério da Educação (MEC). A reprovação caiu 62%, o abandono recuou 61%, e o atraso escolar diminuiu 28%. No mesmo período, a taxa de aprovação subiu 11%, um resultado que reverte tendências de anos anteriores.
Os novos números são parte da segunda etapa do Censo Escolar 2025, elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O levantamento anual permite calcular as taxas de rendimento escolar em nível nacional, mapeando a evolução do sistema educacional brasileiro.
A melhoria dos indicadores, segundo o MEC, decorre da implementação de diversos programas estruturantes a partir de 2023. Essas iniciativas incluem o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, o Escola em Tempo Integral, a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, além da criação do Pé-de-Meia em 2024 e avanços no próprio Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
O ministro da Educação, Leonardo Barchini, declarou que o cenário reflete “uma combinação de políticas públicas voltadas à permanência, à aprendizagem e ao aprimoramento das condições de oferta da educação básica”. Ele também destacou a melhoria simultânea nos indicadores de abandono, repetência e atraso escolar.
Permanência em Sala de Aula
Os dados do Inep apontam que mais estudantes conseguem permanecer no ensino médio. Entre 2022 e 2025, a taxa de não retorno ao ensino médio caiu 28%. Isso significa que menos jovens interromperam os estudos de um ano letivo para o outro.
Para o presidente do Inep, Manuel Palacios, essa queda é significativa. Ele estimou que, se o indicador tivesse permanecido no nível de 2022, o Brasil teria quase 250 mil estudantes a menos no ensino médio em 2025.
“Um número muito grande de jovens, que poderia estar fora da escola, seguiu estudando”, afirmou Palacios, reforçando o impacto direto das políticas de retenção sobre a vida desses jovens.
O Programa Pé-de-Meia e seus Incentivos
Entre as iniciativas que mais contribuíram para a melhoria do ensino médio na rede pública, o MEC cita o programa Pé-de-Meia. A poupança do ensino médio já beneficiou 7,2 milhões de estudantes desde sua criação, em 2024.
A iniciativa federal oferece um incentivo financeiro para os estudantes. Para receber o benefício, os alunos precisam frequentar as aulas, avançar de ano, concluir a educação básica e realizar as provas do Enem. É uma forma de atuar diretamente sobre as barreiras econômicas que muitas vezes levam à evasão.
O ministro Barchini classificou o Pé-de-Meia como o “carro-chefe” na recuperação da educação básica brasileira. Ele o considera um dos mais relevantes das últimas duas décadas, enfrentando a desigualdade de oportunidades.
“O jovem mais vulnerável precisa ter as mesmas chances de concluir os estudos que qualquer outro estudante”, disse Barchini. “O Pé-de-Meia não é apenas uma transferência de renda. É uma política educacional para melhorar a permanência e o desempenho dos estudantes, garantindo que a pobreza não seja um fator limitante.”
Estratégias Integradas na Educação Básica
Os avanços no ensino médio refletem também ações desenvolvidas em outras etapas da educação básica. O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, lançado em 2023, está diretamente associado à elevação do índice de alfabetização no país, que saltou de 36% em 2021 para 66% em 2025.
O Compromisso visa garantir a alfabetização de todas as crianças até o final do 2º ano do ensino fundamental. Ele também busca recuperar aprendizagens afetadas pela pandemia entre alunos do 3º, 4º e 5º ano, atacando defasagens que impactam o percurso escolar subsequente.
Outra frente foi a expansão do Ensino em Tempo Integral. O percentual de matrículas nessa modalidade subiu de 15,1% em 2021 para 25,8% em 2025, abrangendo 8,8 milhões de estudantes da rede pública.
A modalidade prevê a permanência dos alunos na escola por, no mínimo, sete horas diárias ou 35 horas semanais. O objetivo é ampliar as oportunidades de aprendizagem, com atividades que vão além da grade curricular tradicional, contribuindo para uma formação mais completa.
Essa expansão adicionou mais de 1,8 milhão de novas matrículas no período. Pela primeira vez, a educação em tempo integral alcançou a meta do Plano Nacional de Educação (PNE), que estabelecia um em cada quatro estudantes nessa modalidade.
Conexão e Inovação Tecnológica
O MEC também atribui os resultados à transformação digital da escola pública. A Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec) ampliou a infraestrutura tecnológica das redes de ensino e o acesso à internet de qualidade nas escolas públicas de educação básica.
Como resultado da iniciativa, o número de escolas com conexão à internet cresceu 43,7%. Em 2023, o Brasil contava com 66,8 mil escolas estaduais e municipais conectadas; agora, são 100 mil. Esse investimento garante maior acesso a recursos educacionais digitais, enriquecendo o aprendizado.
Entre 2023 e 2025, mais de R$ 3 bilhões foram investidos diretamente nas escolas para essa finalidade. A Enec beneficiou cerca de 24 milhões de estudantes, modernizando o ambiente escolar e integrando a tecnologia ao processo pedagógico.
O Novo Papel do Enem
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil através de programas como Sisu, ProUni e Fies, também teve seu papel fortalecido.
O exame registrou um aumento de 46% nas inscrições feitas por concluintes da escola pública entre 2022 e 2025. Isso indica maior engajamento dos alunos e acesso às oportunidades de ensino superior.
Em 2025, o Enem retomou a certificação de conclusão do ensino médio para participantes que atendam aos critérios estabelecidos. Além disso, passou a contar com inscrição pré-preenchida para os concluintes da educação básica na rede pública, facilitando o processo para milhões de alunos.
O ministro Barchini reforça o objetivo do governo federal: que mais estudantes ingressem no ensino superior ou na educação profissional.
A partir de 2026, o Enem terá um papel ampliado. Ele será adotado, pela primeira vez, como instrumento para avaliar a qualidade do ensino médio brasileiro. Isso o transforma em uma ferramenta de acompanhamento das políticas educacionais e de balizador para futuras intervenções.
Contexto
A melhoria do desempenho de estudantes no ensino médio público sinaliza um avanço na equidade educacional do Brasil. Historicamente, a disparidade entre redes pública e privada representou um obstáculo significativo ao acesso ao ensino superior e ao mercado de trabalho qualificado. As políticas de incentivo financeiro, expansão do tempo escolar e conectividade buscam reduzir as taxas de evasão e reprovação, permitindo que mais jovens completem a educação básica e se preparem para as próximas etapas de sua formação. A longo prazo, a qualificação da mão de obra e a redução das desigualdades sociais dependem da capacidade do país em manter seus estudantes na escola e oferecer um ensino de qualidade, garantindo que o ciclo de estudos não seja interrompido por vulnerabilidades econômicas ou falta de infraestrutura educacional. O investimento contínuo e a coordenação entre as diversas esferas governamentais são essenciais para sustentar esses resultados e transformar a educação pública em um pilar para o desenvolvimento nacional.