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Folha Jundiaiense

Brasil celebra 1 ano fora do Mapa da Fome, mas segurança alimentar é desafio

Um ano depois de ter deixado o Mapa da Fome das Nações Unidas, em julho de 2024, o Brasil registra o menor patamar de risco de subnutrição em sua história. Menos de 2,5% da população enfrenta vulnerabilidade alimentar, mas cerca de 6,5 milhões de brasileiros permanecem em situação de insegurança alimentar grave. Especialistas alertam: a permanência do país fora da lista da ONU depende de políticas públicas contínuas em áreas como emprego, renda e acesso à saúde.

A saída do Brasil do Mapa da Fome, elaborado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), representa um indicador internacional de progresso. O critério para deixar a lista estabelece que menos de 2,5% da população deve viver com risco de subnutrição ou falta de acesso suficiente a alimentos.

O percentual atual coloca o país abaixo dessa marca pelo segundo período consecutivo.

Apesar da conquista, os 6,5 milhões de brasileiros em insegurança alimentar grave indicam um desafio latente. São cidadãos com acesso precário ou inexistente a uma alimentação básica e nutritiva. Este número, embora o menor da série histórica, ainda é alarmante.

Manter o resultado exige estratégias duradouras. É o que afirma Lucas de Almeida Moura, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome, ligado à Faculdade de Saúde Pública da USP. “Ter alcançado esse marco, pela segunda vez, de saída do Mapa da Fome, é resultado de uma intersetorialidade muito forte entre as políticas públicas. Isso precisa de fato ser mantido e, mais do que mantido, aprimorado”, declarou Moura.

Moura sublinha a complexidade do tema. Combater a insegurança alimentar transcende a mera oferta de comida. Envolve a garantia de renda mínima, educação, saneamento básico, segurança pública e emprego. Uma estrutura completa.

Índice Multidimensional Radiografa a Fome no País

A análise da fome no Brasil ganhou uma nova ferramenta com o Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (MUFII). Criado por Lucas Moura e sua equipe, o MUFII avalia a situação com base em 12 indicadores de Desenvolvimento Sustentável. O primeiro levantamento, divulgado em janeiro, abrangeu o período de 2018 a 2022.

Os dados do MUFII, publicados na revista Sustainability, traçaram um panorama preocupante. Houve piora no cenário nacional em 2022. Estados do Norte e Nordeste, como Maranhão, Acre e Amazonas, registraram os maiores níveis de insegurança alimentar multidimensional, acima de 50%. Santa Catarina apresentou os menores valores. Os pesquisadores pretendem atualizar o índice para os anos seguintes a 2022.

Plano Brasil Sem Fome Articula Ações Governamentais

O governo federal aposta na articulação de medidas para consolidar os avanços. Valéria Burity, secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), aponta a meta de longo prazo: “Garantir direito à alimentação adequada saudável como um direito para toda a população brasileira”, disse Burity.

O Plano Brasil sem Fome reúne políticas econômicas e de proteção social. Fomenta a agricultura familiar, reajusta a alimentação escolar e apoia cozinhas comunitárias. O plano visa garantir proteção social, trabalho, renda e acesso à alimentação adequada. A prioridade atual do MDS é incluir os que ainda estão em risco nas políticas públicas, apoiando estados e municípios.

Três Pilares Sustentam Saída do Mapa da Fome, Diz Especialista

A professora Semíramis Domene, da Unifesp e diretora do Instituto Fome Zero (IFZ), detalha os movimentos que impulsionaram a redução da fome. Ela aponta três frentes de atuação.

A primeira é o combate à desigualdade. “Se o acúmulo de riqueza e desigualdade estão na raiz da fome, combater a desigualdade está na raiz do caminho para sair dela”, afirmou Domene. Políticas de emprego e renda foram decisivas. O Brasil tem hoje o menor índice de desemprego em 13 anos. O salário mínimo registrou reajustes superiores a 6% a partir de 2022.

A segunda frente reforçou as políticas públicas de proteção social. Não se trata apenas de mais empregos. O fortalecimento de programas como o Bolsa Família mostra resultados concretos. Famílias beneficiadas melhoram a escolarização de crianças e, muitas, deixam o programa ao evoluir sua condição. O Cadastro Único, modernizado em 2025, e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) também contribuíram.

O terceiro pilar concentra-se na produção de alimentos. Incentivos à agricultura familiar fortalecem o abastecimento. Esse setor, mais próximo da mesa do brasileiro, é visto como vital. O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), antes quase extinto, voltou com força. “Pode-se discutir abastecimento na perspectiva do alimento como função social e da terra não como um bem que favorece o mercado internacional de commodities”, concluiu a diretora.

Bolsa Família e Mercado de Trabalho Essenciais para Manutenção

O economista Daniel Duque, pesquisador associado do Ibre/FGV, corrobora o protagonismo do Bolsa Família. O aumento da assistência à renda permitiu a milhões de famílias recuperar o poder de compra.

Duque aponta outros fatores. Os preços dos alimentos desaceleraram em relação à inflação geral a partir de 2023, mantendo-se em 2024 e 2025. Boas safras nacionais ajudaram a controlar os valores. O mercado de trabalho também melhorou significativamente. Para o Brasil se manter fora do Mapa da Fome, a situação do emprego precisa ser favorável. “Até agora, não parece haver nenhum indicativo de reversão do emprego”, declarou Duque.

Contexto

A saída do Brasil do Mapa da Fome em julho de 2024 marca a segunda vez que o país alcança este status. A primeira ocorreu em 2014, fruto de políticas sociais e econômicas implementadas a partir dos anos 2000, como o programa Fome Zero e a valorização do salário mínimo. No entanto, a deterioração econômica e social, acentuada a partir de 2015, e a crise sanitária da COVID-19, reverteram o quadro, levando o Brasil de volta ao mapa em 2018. A atual reconquista, em 2024, reflete o retorno e o fortalecimento de programas de proteção social e incentivos à produção alimentar, buscando assegurar o direito à alimentação adequada de forma perene. O desafio agora é evitar um novo retrocesso, consolidando as estratégias que permitiram este avanço.

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