Enquanto a busca por soluções educacionais desafia inúmeras cidades brasileiras, um pequeno município paulista ousou cruzar fronteiras em busca de respostas. A jornada, que levou representantes de Itaquaquecetuba até a Colômbia, revela uma aposta audaciosa em metodologias globais para transformar a realidade da alfabetização e da recomposição das aprendizagens nas escolas.
A iniciativa, que se alinha a esforços de outros países como Índia e Estados Unidos, destaca a urgência em adotar estratégias que respondam diretamente ao nível de conhecimento de cada estudante, prometendo um salto qualitativo no ensino fundamental e abrindo caminhos para uma educação mais equitativa.
Missão Internacional: As Raízes de Uma Nova Abordagem
A Prefeitura de Itaquaquecetuba, por intermédio de sua Secretaria de Educação, participou de uma imersão formativa intensiva na Colômbia. A viagem, promovida pela organização Parceiros da Educação, visava um aprofundamento nas melhores práticas para alfabetização e recuperação do conteúdo pedagógico perdido.
Representantes de Itaquá, ao lado de delegações de outros quatro municípios paulistas e de países como Índia, Estados Unidos, Equador e El Salvador, trocaram experiências valiosas. A agenda incluiu visitas técnicas a escolas de ensino fundamental em Santa Marta, evidenciando o funcionamento prático de abordagens inovadoras.
O ponto alto foi a Conferência Latino-Americana sobre Alfabetização e Competências Numéricas Fundamentais (CLAVE) 2026, em Bogotá. Organizada pela indiana Pratham, a conferência foi um celeiro de ideias e debates sobre como acelerar o aprendizado das crianças.
O prefeito Eduardo Boigues enfatizou a relevância da participação municipal. “Para mantermos uma educação de qualidade, precisamos buscar e aprimorar constantemente os métodos de aprendizagem,” afirmou. “Participar de um evento como esse é fundamental para conhecer experiências bem-sucedidas e identificar estratégias que impulsionem o desenvolvimento de nossos estudantes.”
TaRL: A Metodologia Que Promete Revolucionar o Ensino
O cerne da formação e do intercâmbio de conhecimento reside na metodologia Teaching at the Right Level (TaRL), desenvolvida pela Pratham. Essa abordagem tem um objetivo claro: acelerar a aprendizagem individualizada, adaptando o ensino ao nível real de conhecimento de cada aluno.
Ao invés de seguir um currículo rígido por idade, o TaRL foca nas necessidades específicas em leitura e matemática, utilizando atividades customizadas. Essa personalização permite que estudantes avancem no seu próprio ritmo, solidificando bases essenciais.
Em Itaquaquecetuba, a metodologia já é testada em um projeto-piloto abrangendo dez unidades escolares da rede municipal. O atendimento ocorre no contraturno escolar, oferecendo um reforço direcionado no período oposto ao das aulas regulares, maximizando o tempo de aprendizagem efetiva.
Impacto na região
Embora as ações detalhadas pela prefeitura de Itaquaquecetuba estejam focadas em seu próprio território, os desafios da alfabetização e da recomposição de aprendizagens são uma realidade compartilhada por municípios de todo o estado de São Paulo. A urgência em qualificar a educação dos primeiros anos ecoa em cidades como Jundiaí e sua região, que também enfrentam a necessidade de inovar.
Iniciativas bem-sucedidas em um município podem servir de inspiração e modelo para outras redes de ensino. O intercâmbio de conhecimento gerado por participações internacionais, como a de Itaquaquecetuba, demonstra que é possível buscar caminhos alternativos para lidar com a lacuna de aprendizado.
A experiência com o TaRL, se comprovada eficaz em larga escala, pode influenciar futuras políticas educacionais e práticas pedagógicas em um cenário mais amplo. A busca por excelência educacional em uma cidade ressoa em todo o estado, criando um precedente e um banco de práticas que podem ser adaptados em contextos diversos, como os enfrentados pelas escolas em Jundiaí e cidades vizinhas.
Os Desafios do Avanço e os Próximos Passos na Educação
Durante o congresso na Colômbia, a experiência de Itaquaquecetuba com o TaRL foi apresentada em uma reunião com a Pratham International, Parceiros da Educação e a Fundação Alba. O encontro foi crucial para discutir os avanços já alcançados e os obstáculos para o planejamento de 2027.
Entre os desafios levantados, a assiduidade dos estudantes emerge como um ponto crítico. Outra pauta relevante foi a possibilidade de expandir a metodologia para o horário regular de aula, implementando a docência compartilhada — onde dois professores atuam conjuntamente para enriquecer o processo de ensino.
O secretário de Governo e Tecnologia, Marcello Barbosa, destacou a importância da cooperação. “Compartilhar experiências que fortalecem a alfabetização e as competências numéricas fundamentais é uma oportunidade de ampliar o conhecimento sobre os desafios da educação pública,” pontuou. O contato com profissionais de outros países permite uma visão mais global e a construção de soluções colaborativas.
A programação da imersão incluiu uma série de oficinas e atividades práticas. Temas como acompanhamento pedagógico, formação de professores e estratégias para fortalecer o aprendizado foram amplamente discutidos, oferecendo ferramentas concretas para a equipe brasileira.
Um dos pontos de destaque foi a prática de mentoria in loco adotada em Itaquaquecetuba. Essa metodologia, que consiste no acompanhamento e orientação direta dos professores nas escolas, recebeu elogios dos organizadores indianos, evidenciando o valor da iniciativa local.
Maria Cristina Perpetuo, secretária de Educação, reiterou o compromisso do município. “Itaquá segue avançando no aprimoramento das práticas pedagógicas ao buscar estratégias que considerem os diferentes níveis de aprendizagem dos estudantes,” finalizou. A experiência com o TaRL, segundo ela, contribui para um olhar mais atento às necessidades de cada criança e para qualificar o planejamento docente.
O Que Está por Trás Desta Revolução na Sala de Aula
A busca de Itaquaquecetuba por métodos educacionais inovadores não é um fato isolado, mas sim um reflexo de uma crise global e nacional na educação, agravada pela pandemia de COVID-19. Milhões de crianças em todo o mundo sofreram perdas significativas no aprendizado, tornando a recomposição de aprendizagens uma prioridade inadiável para governos e educadores.
Historicamente, o ensino focado apenas na progressão por idade ou série, sem considerar o nível real de domínio do conteúdo, tem sido um entrave para muitos estudantes. A metodologia TaRL surge, nesse cenário, como uma resposta pragmática a essa lacuna, defendendo que a eficácia do ensino reside em atender o aluno “onde ele está”, e não “onde deveria estar”.
Este movimento representa uma evolução na forma de pensar a educação, deslocando o foco do currículo para o estudante. O TaRL, com sua origem na Índia e sua disseminação global, demonstra que soluções escaláveis podem ser adaptadas a diferentes realidades, oferecendo um caminho promissor para garantir que todas as crianças desenvolvam as competências fundamentais.
A urgência de ações como a de Itaquaquecetuba é evidente: sem uma base sólida em leitura e matemática nos primeiros anos, o estudante acumula dificuldades que podem comprometer toda a sua trajetória escolar e suas oportunidades futuras. Investir em estratégias como o TaRL agora significa construir um futuro com mais equidade e potencial para as próximas gerações, um objetivo que transcende as fronteiras de qualquer município.



