Fintech Asaas Desafia Gigantes e Consolida Modelo “Remote First” com Projeção de R$ 1 Bilhão
Enquanto grandes corporações de tecnologia intensificam o retorno aos escritórios, a Asaas, fintech com sede em Santa Catarina, reafirma sua aposta estratégica no modelo de trabalho “remote first”. A empresa catarinense projeta alcançar um faturamento próximo de R$ 1 bilhão até 2026, operando com mais de 1.300 colaboradores distribuídos por todo o Brasil. Essa abordagem, que diverge da corrente predominante no mercado, é vista como um pilar fundamental para o crescimento contínuo e a robustez da cultura organizacional da companhia.
A decisão de manter o formato totalmente remoto não configura uma medida provisória para a fintech. Segundo o cofundador Diego Contezini, não existe nenhum plano para reverter o modelo atual. “A gente não vai deixar de ser remoto. A gente funciona melhor por ser assim. O remoto fortaleceu nossa cultura e aumentou nossa produtividade”, declarou Contezini durante entrevista ao podcast Do Zero ao Topo. A visão da liderança reflete uma convicção interna de que o trabalho distribuído não apenas otimiza as operações, mas também impulsiona os resultados financeiros e a satisfação geral dos funcionários.
A Visão Estratégica que Precedeu a Crise Sanitária Global
A consolidação do modelo remoto na Asaas não emergiu como uma resposta à imposição da pandemia de Covid-19, mas sim de uma análise estratégica realizada anos antes. Em 2019, quando a empresa se aproximava da marca de 100 funcionários, Diego Contezini identificou que os rituais internos de sua cultura organizacional estavam perdendo eficácia no formato presencial. O tradicional “cafezinho” matinal e vespertino, antes um catalisador natural de interações e alinhamentos informais, já não supria as necessidades de conexão e engajamento de uma equipe em rápida expansão.
Foi nesse período crucial que a liderança da Asaas iniciou o planejamento e o desenvolvimento de uma cultura digital estruturada, meses antes de o conceito de home office se tornar uma regra e uma necessidade global. Essa proatividade garantiu que, ao chegar o ano de 2020 e a imposição do isolamento social, a Asaas já contasse com processos e rituais plenamente preparados para operar de forma eficiente no ambiente online. “Todo mundo ficou assustado com a velocidade que a gente resolveu isso. Mas a gente já estava há um ano escrevendo tudo. Foi só colocar em prática”, afirma Contezini, ressaltando a significativa vantagem competitiva obtida com a antecipação.
A preparação antecipada permitiu à fintech navegar pela abrupta transição global para o trabalho remoto com mínima interrupção e sem perda de produtividade, em contraste com muitas outras empresas que lutavam para adaptar suas estruturas físicas e rotinas de gestão. Este preparo reforça a ideia de que o sucesso em um modelo de trabalho distribuído depende de um planejamento robusto, do investimento em tecnologia e, principalmente, da criação de uma cultura organizacional digitalmente nativa, e não apenas da mera realocação do espaço de trabalho.
“O Problema Não é o Remoto”: Uma Análise da Falha na Adaptação Digital
Para Diego Contezini, o insucesso observado em diversas empresas na implementação do home office não reside na natureza intrínseca do modelo remoto, mas em uma abordagem equivocada. Ele argumenta que o erro está em tentar replicar a cultura presencial em um ambiente digital, sem as adaptações necessárias. “O problema é que as pessoas tiveram que encarar o remoto por obrigação, mas não enxergam o remoto como algo natural”, explica o cofundador, apontando para a resistência e a falta de intencionalidade nas transformações adotadas por muitas organizações.
Essa perspectiva de Contezini ressalta a necessidade de uma reengenharia completa dos processos e interações. No ambiente físico, gestos como parabenizar com um abraço ou transmitir empatia com um sorriso são naturais e espontâneos. No universo digital, no entanto, cada um desses rituais de conexão e engajamento precisa ser planejado e executado de forma consciente e eficaz, utilizando as ferramentas e plataformas disponíveis. A Asaas compreendeu esta premissa fundamental e investiu proativamente na criação de rituais de relacionamento, integração e gestão especificamente desenhados para o formato online, buscando replicar a eficiência das interações presenciais através de métodos digitais.
Rituais Digitais: A Reinvenção da Conexão e o Impulso à Produtividade
A Asaas redesenhou integralmente seus fluxos de trabalho e interações internas. Reuniões, processos de onboarding (integração de novos colaboradores), apresentações de resultados e até mesmo as conversas informais foram meticulosamente adaptados para o ambiente digital. Esta abordagem garantiu que a conexão e o engajamento entre os colaboradores não fossem perdidos com a distância física, mas sim recriados em uma nova dinâmica, totalmente alinhada à realidade do trabalho distribuído.
- Integração Personalizada: Todos os novos funcionários efetivados na Asaas participam de encontros virtuais diretos com o cofundador Diego Contezini. Este ritual personalizado fortalece o senso de pertencimento e alinha os colaboradores aos valores centrais da empresa desde o momento inicial, garantindo que se sintam parte da missão.
- Alinhamento Cultural Contínuo: A empresa mantém rotinas semanais dedicadas ao alinhamento cultural e à gestão distribuída. Isso assegura que a visão, os objetivos estratégicos e os valores da companhia sejam constantemente comunicados e internalizados por toda a equipe, promovendo uma coesão mesmo à distância.
- Gestão de Relacionamento Eficaz: Contrária à percepção comum de que a distância física diminui a conexão interpessoal, Contezini relata um resultado surpreendente: “Com 400 colaboradores, eu conhecia melhor quem estava entrando no Asaas do que quando a gente tinha 100”. Isso demonstra que a intencionalidade e o design de processos digitais podem, de fato, aprofundar as relações profissionais e o conhecimento mútuo dentro da organização, superando as barreiras físicas.
Além de fortalecer a cultura organizacional, o modelo remoto do Asaas também impulsiona a produtividade e a qualidade de vida dos colaboradores de maneira significativa. A eliminação do tempo de deslocamento, que pode consumir duas ou três horas diárias em grandes centros urbanos, permite que os profissionais dediquem mais tempo a atividades pessoais e familiares, resultando em maior bem-estar e engajamento. “Uma pessoa que economiza duas ou três horas por dia de transporte e consegue almoçar com a família vai fazer mais ainda. O remoto resolveu problemas que o presencial não resolvia mais”, conclui Diego, evidenciando o benefício mútuo para a empresa e seus valiosos talentos.
Essa defesa consistente do trabalho remoto se tornou parte intrínseca da identidade da fintech, transformando-se em um diferencial competitivo crucial na retenção de talentos. Em um mercado de tecnologia cada vez mais acirrado, a flexibilidade, o foco no bem-estar do colaborador e a autonomia são fatores decisivos para atrair e manter os melhores profissionais, consolidando a Asaas como um player inovador não apenas em seu setor de atuação no mercado financeiro, mas também em suas avançadas práticas de gestão de pessoas.
O Que Está em Jogo: O Futuro do Trabalho e a Resiliência Organizacional
A postura pioneira da Asaas representa mais do que uma simples escolha de modelo de trabalho; ela se insere em um debate global e complexo sobre o futuro do trabalho. Em um cenário onde muitas empresas, de gigantes a startups, ainda lutam para encontrar o equilíbrio ideal entre o presencial, o híbrido e o totalmente remoto, a experiência da fintech catarinense oferece um estudo de caso valioso sobre a viabilidade e os benefícios de uma abordagem remote first executada com excelência estratégica.
Para o mercado de trabalho brasileiro e para o cidadão, a consolidação de modelos como o da Asaas significa a expansão da possibilidade de um acesso mais democrático a oportunidades de emprego de qualidade, desvinculadas da localização geográfica dos grandes centros urbanos. Contribui também para discussões fundamentais sobre a resiliência organizacional frente a crises inesperadas, a otimização de recursos operacionais e a construção de ambientes de trabalho mais flexíveis, inovadores e inclusivos. O sucesso projetado da Asaas, com seu ambicioso faturamento bilionário em vista para 2026, serve como um forte argumento de que a inovação na gestão de pessoas e na cultura corporativa é tão crucial quanto a inovação tecnológica para o êxito empresarial no século XXI.
Contexto
O debate sobre o modelo de trabalho ideal intensificou-se globalmente após a pandemia de Covid-19, transformando as dinâmicas corporativas em diversos setores. Empresas como Google e Apple implementaram modelos híbridos ou iniciaram um retorno gradual ao presencial, enquanto outras, a exemplo da Asaas, optam por consolidar integralmente o trabalho remoto. Este cenário reflete uma transformação profunda nas expectativas dos colaboradores e nas estratégias de gestão, impactando diretamente a cultura corporativa, a produtividade e a capacidade de atração e retenção de talentos em todo o mundo.