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Folha Jundiaiense

Varejistas da B3 definem táticas contra a concorrência gringa, XP aponta

Varejo de Vestuário: Gigantes Nacionais Blindam Mercado Apesar de Avanço Global

Um novo mapeamento realizado pela XP Investimentos revela que as grandes redes de vestuário de média renda do Brasil continuam a dominar o vasto mercado de massa, mesmo diante de um cenário competitivo em profunda transformação. A análise abrangeu o posicionamento de preços e o mix de produtos de oito players-chave do setor, destacando a resiliência das varejistas nacionais em um ambiente de acirrada concorrência.

O estudo aponta que, apesar da entrada de novas marcas globais e da decisão do governo de zerar o imposto de importação federal para compras internacionais de até US$ 50 — uma medida que visa impulsionar o comércio eletrônico e a acessibilidade de produtos estrangeiros —, as lojas de departamento brasileiras mantêm sua forte posição.

Nesse panorama de disputa, os analistas da XP Investimentos expressam uma clara preferência pela Lojas Renner (LREN3). A companhia é elogiada por sua postura altamente competitiva em relação a outras empresas do setor listadas na B3, a bolsa de valores brasileira.

Cenário Competitivo e a Reação das Varejistas Brasileiras

As transformações no varejo de vestuário não são meras tendências, mas sim forças estruturais que redefinem estratégias. A chegada de gigantes como Shein, H&M e Bershka intensifica a pressão sobre as empresas estabelecidas, exigindo adaptação constante. O governo, ao implementar a política de isenção fiscal para importações de pequeno valor (sob programas como o Remessa Conforme), busca formalizar o fluxo de compras internacionais e, ao mesmo tempo, oferecer aos consumidores maior acesso a produtos globais a preços competitivos.

Esta mudança tributária, no entanto, representa um desafio direto para a indústria nacional, que já opera com custos internos elevados. Para o cidadão brasileiro, a isenção fiscal para compras de até US$ 50 significa a possibilidade de adquirir uma maior variedade de produtos a preços mais acessíveis, potencializando o consumo. Contudo, para o mercado interno, essa medida intensifica a necessidade de as varejistas nacionais aprimorarem sua eficiência, inovação e proposta de valor para não perderem fatia de mercado de forma significativa.

Os esforços recentes das lojas de departamento nacionais em aprimorar a qualidade do produto e fortalecer a percepção de valor são pilares que sustentam seu posicionamento. “Vemos as lojas de departamento bem posicionadas no segmento, sustentadas por esforços recentes em qualidade de produto e percepção de valor, enquanto a precificação competitiva da LREN3 é um dos pilares por trás de nossa preferência pela ação”, afirma o relatório da XP Investimentos, reiterando a importância de estratégias bem definidas para a sustentabilidade do negócio.

Estratégias de Preço: Quem Domina o Consumidor de Massa

A briga pelo bolso do consumidor de massa no Brasil passa, invariavelmente, pela estratégia de preços. O levantamento da XP revela que a Shein, Lojas Renner, C&A (CEAB3) e Riachuelo (RIAA3) concentram uma parte esmagadora de seus estoques na faixa de produtos com valores abaixo de R$ 200. Essa estratégia clara visa capturar um volume maior de vendas, atendendo à realidade econômica da maioria dos brasileiros.

Entre as empresas que possuem uma robusta rede de lojas físicas, a Lojas Renner demonstra a maior agressividade nesse quesito. Cerca de 88% de todo o seu catálogo é precificado abaixo do patamar de R$ 200. Essa abordagem coloca a Renner em uma posição de liderança estratégica, oferecendo acessibilidade e variedade para o público que busca boas opções sem gastar muito, o que a torna um player fundamental no varejo de moda acessível.

Essa forte concentração em preços mais baixos para o consumidor de massa tem implicações diretas. Garante que uma ampla gama de produtos esteja acessível, democratizando o consumo de moda. Além disso, força as empresas a otimizarem suas cadeias de suprimentos e processos para manter a rentabilidade, mesmo com margens menores por peça. Para o setor, significa uma concorrência intensa, onde a eficiência operacional se torna um diferencial crítico e a inovação em processos é constante.

Variedade de Catálogo: A Batalha por Sortimento

Quando se trata do volume total de roupas oferecidas, a Shein lidera com a maior variedade da amostra, reforçando seu modelo de negócios de ultra-fast fashion. Este modelo, baseado na produção e lançamento rápido de novas coleções, permite que a varejista online ofereça uma vasta e constantemente atualizada gama de produtos, atendendo às últimas tendências com agilidade sem precedentes e a um custo baixo.

A Lojas Renner surge em seguida, solidificando sua posição de liderança no mercado físico tradicional em termos de sortimento. A C&A, por sua vez, ocupa uma posição intermediária, mas ainda assim robusta, demonstrando sua capacidade de manter um catálogo diversificado para seus clientes em suas múltiplas unidades físicas e plataformas digitais.

A entrada de novas marcas globais altera a dinâmica de sortimento. A H&M, que chegou ao Brasil em agosto de 2025 com uma pegada física inicial de apenas oito lojas, já superou o sortimento da Riachuelo em categorias selecionadas, especialmente no segmento feminino. A Bershka, lançada mais recentemente em março de 2026 com uma única loja e foco em curadoria de moda, opta por um catálogo mais enxuto, indicando uma estratégia de nicho e exclusividade, em contraste com a massificação de outras players. Essa diversidade de estratégias de sortimento beneficia diretamente o consumidor, que passa a ter acesso a uma gama ainda maior de estilos e propostas de valor no mercado brasileiro.

Do Premium ao Acessível: Análise do Ticket Médio e Posicionamento

O estudo da XP Investimentos também traça um mapa claro dos diferentes posicionamentos de mercado, revelando a Zara como uma entidade isolada no perfil puramente premium. A marca registra um ticket médio de R$ 399 por peça, um valor que supera em mais de duas vezes e meia o preço médio de R$ 140 verificado na Lojas Renner. Essa diferença de preços destaca a segmentação do mercado e as distintas propostas de valor de cada varejista.

A Zara concentra seu portfólio na faixa de R$ 201 a R$ 400 e exibe uma exposição significativa: 21% de todo o seu sortimento é precificado acima de R$ 500. Essa característica a posiciona como “praticamente a única varejista com um sortimento mais premium, deixando Renner, C&A, Riachuelo e Shein competindo entre si pelo consumidor de massa”, segundo a análise da XP. Para o consumidor, isso significa que a Zara atende a um desejo por exclusividade e moda de alto padrão, enquanto as outras oferecem opções mais acessíveis para o dia a dia, com foco em volume e tendências rápidas.

As marcas estreantes H&M e Bershka, por sua vez, estrategicamente ocupam a lacuna central de preços. Seus produtos estão concentrados na faixa entre R$ 101 e R$ 300. Elas se posicionam acima das grandes lojas de departamento nacionais em termos de preço, mas estruturalmente abaixo da Zara, buscando um consumidor que valoriza tendências e qualidade ligeiramente superior ao massificado, sem entrar na faixa de luxo. Esta “lacuna central” permite que essas novas entrantes capturem um segmento de mercado que busca um equilíbrio entre preço e estilo, oferecendo uma alternativa intermediária.

Guerras de Desconto: Shein e Renner na Linha de Frente Promocional

As políticas de promoção e desconto são ferramentas cruciais na disputa por mercado. A Shein e a Lojas Renner se destacam por possuírem as políticas mais incisivas e agressivas do varejo. A Shein opera com impressionantes 74% de suas mercadorias remarcadas, enquanto a Renner mantém 63% de seu catálogo em promoção, aplicando reduções médias de preço que variam entre 30% e 35%.

Essa agressividade por parte da Shein é um fator determinante para que a varejista chinesa, mesmo sendo estruturalmente 30% mais barata que Renner, C&A e Riachuelo em termos de preço cheio, registre estatísticas de preço médio final muito alinhadas às das lojas de departamentos locais brasileiras. Isso significa que as promoções da Shein são tão intensas que o preço que o consumidor paga por um item com desconto se aproxima do que ele pagaria por um produto de uma varejista nacional, intensificando a pressão competitiva sobre os players domésticos.

É importante frisar que os preços extraídos no estudo da XP Investimentos não embutem as cobranças estaduais de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Para o consumidor, isso é um detalhe relevante, pois o ICMS será adicionado ao preço final de produtos nacionais, tornando a comparação direta de preços mais complexa e ressaltando a vantagem fiscal inicial das importações de baixo valor, que são isentas de impostos federais.

“Shein e Renner atualmente têm a intensidade promocional mais agressiva (63-74% dos SKUs com desconto)”, destaca o relatório da XP. Este cenário se contrapõe à rigidez de preço cheio praticada por marcas como Zara, H&M e Bershka, que operam com liquidações restritas e seguem um calendário promocional mais fixo, estratégia que reforça seu posicionamento de marca premium ou intermediária superior e foca na percepção de valor intrínseco do produto, ao invés da mera atratividade do desconto, diferenciando-as claramente no mercado.

A Resiliência das Gigantes Nacionais: Blindagem Estratégica

Apesar da intensa concorrência global e das pressões advindas da internet, as varejistas brasileiras têm demonstrado notável capacidade de resiliência. Os investimentos contínuos em suas cadeias de suprimentos e na percepção de marca são cruciais para essa blindagem do mercado físico nacional contra os novos concorrentes. Esses investimentos incluem a modernização logística, a otimização de estoques, o desenvolvimento de coleções alinhadas ao gosto local e campanhas de marketing que reforçam a identidade e os valores da marca junto ao consumidor, criando fidelidade.

A XP Investimentos pontua que até mesmo marcas tradicionais como a Hering redesenharam suas tabelas de preço. A empresa buscou convergir em direção aos valores praticados pelas grandes lojas de departamento, com uma intensidade ainda maior no seu foco comercial em itens básicos. Essa movimentação estratégica da Hering reflete uma adaptação inteligente ao novo cenário, priorizando a competitividade no segmento de itens essenciais e de giro rápido, vital para o volume de vendas.

O estudo conclui que, mesmo com a forte concorrência da internet e as pressões competitivas globais, as empresas tradicionais de vestuário conseguiram defender suas margens operacionais e o valor agregado de seus produtos. Isso indica uma gestão eficiente, capacidade de inovação e um forte relacionamento com a base de clientes. “No geral, nossos achados sustentam nossa visão construtiva para o segmento e nossa preferência por LREN3”, finalizam os analistas, reforçando a confiança na estratégia das líderes nacionais em um setor tão dinâmico.

O Que Está em Jogo: A Dinâmica do Varejo de Moda

A disputa no setor de vestuário no Brasil não se resume a preços e sortimento; ela impacta diretamente a economia nacional e o dia a dia dos consumidores. Em jogo estão milhares de empregos gerados pela indústria e varejo local, a capacidade de inovação das empresas brasileiras em se adaptar a novos modelos de consumo e o poder de escolha dos consumidores, que se beneficiam de um mercado mais diversificado e competitivo. As decisões estratégicas das varejistas e as políticas governamentais moldam o futuro de um dos setores mais dinâmicos do país, exigindo vigilância e planejamento contínuos.

Contexto

O mercado de vestuário no Brasil é um dos maiores e mais complexos do mundo, impulsionado por uma vasta população e uma cultura de moda vibrante. A chegada de players globais e a evolução do comércio eletrônico alteram profundamente a dinâmica, exigindo que as empresas locais redefinam suas estratégias de produção, precificação e engajamento com o consumidor. A resiliência das varejistas nacionais é um testemunho de sua capacidade de adaptação em um cenário econômico e competitivo em constante mutação, onde a defesa de mercado e a inovação são cruciais para a sobrevivência e o crescimento sustentável.

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