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Vorcaro: celular expõe esquema e derruba figurões no Brasil

Guarda Municipal de Jundiaí

Banco Master: PF investiga influência em Brasília após apreensão de celular de banqueiro

A Polícia Federal (PF) aprofunda a análise das informações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. O material apreendido revela uma extensa rede de contatos do banqueiro com autoridades dos três Poderes em Brasília. Mensagens indicam uma série de reuniões, jantares e contatos com figuras de alto escalão da República, além da participação em eventos jurídicos com ministros de tribunais superiores. A investigação amplia o debate sobre a influência do empresário nos bastidores do poder.

A análise do material foi realizada no âmbito da Operação Compliance Zero, conduzida pela PF sob relatoria do ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF). A operação apura um suposto esquema bilionário de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master, que resultou na prisão de Daniel Vorcaro e de outros investigados.

Entre os registros analisados, constam conversas em que Vorcaro relata encontros com autoridades, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ministros do STF e lideranças do Congresso Nacional. Em um dos diálogos, o banqueiro afirma ter participado de uma reunião no Palácio do Planalto em dezembro de 2024 e descreve o encontro como “ótimo” e “muito forte”, após discutir temas relacionados ao sistema bancário com integrantes do governo.

Outras mensagens recuperadas mencionam contatos com o ministro do STF Alexandre de Moraes e encontros com parlamentares, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Em uma das conversas, Vorcaro relata ter participado de um jantar com empresários na residência oficial da Presidência da Câmara, enquanto outros diálogos citam reuniões informais com autoridades em Brasília.

O que está em jogo

Embora a Polícia Federal ressalte que a simples menção a autoridades em conversas privadas não implica, necessariamente, envolvimento em irregularidades, o conjunto de registros está sob análise. O objetivo é mapear a rede de interlocução mantida pelo empresário nas diferentes esferas do poder. O caso Banco Master já provoca repercussões políticas no Congresso e no Judiciário e levanta questionamentos sobre a influência do setor financeiro nas decisões políticas.

Vorcaro comemora discurso para ministros do STF em evento financiado pelo Banco Master

As mensagens recuperadas indicam interlocução frequente de Daniel Vorcaro com integrantes do STF. As conversas mencionam encontros, participação em eventos com magistrados e contatos diretos com ministros da Corte, o que reforça a percepção de que o dono do Banco Master circulava com facilidade em ambientes do alto escalão do Judiciário.

Um dos episódios citados nas mensagens é o 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres em abril de 2024 e patrocinado pelo Banco Master. Em conversa com a então namorada, a influenciadora Martha Graeff, Vorcaro afirma ter discursado para ministros presentes no evento e relata surpresa com a situação. Entre os participantes estavam os ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além de integrantes do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

“Eu sou muito louco. Essa realidade. Todos ministros do Brasil, do STF, do STJ etc. E euzinho discursando”, contou o banqueiro, enviando sorrisos ao final das mensagens. “Muito louco, amor, a sua vida, tudo. Surreal. Parabéns”, respondeu Martha Graeff.

Além dos ministros do STF e do STJ, o evento também contou com a presença do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, além de Ricardo Lewandowski, então ministro da Justiça e Segurança Pública; Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia; e o advogado-geral da União, Jorge Messias.

O evento foi realizado no hotel cinco estrelas Peninsula, no centro de Londres, próximo ao Hyde Park. A diária em uma suíte júnior supera R$ 10 mil.

Contatos com Alexandre de Moraes e mensagens contestadas

As mensagens também mencionam encontros com autoridades do Judiciário em outros contextos. Em um diálogo analisado pela PF, Vorcaro relata à namorada que estava a caminho de um encontro com alguém identificado como “Alexandre Moraes”, nome que coincide com o do ministro do STF.

O material apreendido registra referências a trocas de mensagens entre Vorcaro e Moraes no dia da primeira prisão do empresário, em novembro de 2025, no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. O ministro negou ter recebido as mensagens e classificou a informação como “ilação mentirosa”, afirmando que o conteúdo teria sido divulgado com o objetivo de atacar o STF.

O ministro Alexandre de Moraes, por meio da assessoria do STF, afirmou que “uma análise técnica dos dados telemáticos de Daniel Vorcaro apontou que as mensagens de visualização única enviadas pelo empresário no dia 17 de novembro de 2025 não estavam vinculadas ao contato do ministro nos arquivos apreendidos”. De acordo com a nota, os prints dessas mensagens aparecem associados a pastas de outros contatos da agenda de Vorcaro e “jamais ao ministro Alexandre de Moraes”.

A assessoria acrescentou que os nomes das pessoas vinculadas aos arquivos não foram divulgados em razão do sigilo determinado pelo relator do caso no Supremo, o ministro André Mendonça.

Evento em Nova York reuniu ministros do STF em mesa patrocinada pelo Banco Master

Documentos que integram a investigação apontam a presença de autoridades do Judiciário em um evento patrocinado pelo Banco Master no exterior. Uma planilha com a organização das mesas de um jantar realizado durante a Lide Brazil Conference, em novembro de 2022, indica que os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli participaram do encontro sentados em uma mesa identificada como “2 Banco Master”, patrocinada pela instituição financeira.

O jantar de gala ocorreu no restaurante Fasano New York, que foi aberto especialmente para receber o evento em uma noite de domingo. Na mesma mesa em que estavam Moraes e Toffoli também aparece o nome da advogada Viviane Barci, mulher de Moraes, além do empresário Nelson Tanure. Segundo a Polícia Federal, Tanure teria exercido influência na instituição financeira por meio de fundos e estruturas societárias complexas.

A defesa de Tanure afirmou que ele jamais enfrentou qualquer processo criminal no contexto das empresas em que é ou foi acionista. A defesa ainda negou que Tanure tenha qualquer relação de natureza societária com o Banco Master e afirmou que ele é cliente do banco, “nas mesmas condições em que é atendido por outras instituições financeiras do mercado”.

Os nomes citados surgem no contexto das investigações sobre a atuação do Banco Master e suas relações com figuras públicas e empresas ligadas à instituição. No caso de Toffoli, investigações mencionam a venda de sua participação no resort Tayayá, no Paraná, para um fundo ligado ao cunhado de Daniel Vorcaro. Já o escritório de advocacia de Viviane Barci firmou contrato de cerca de R$ 129 milhões para representar juridicamente o Banco Master, segundo apuração do jornal O Globo.

A planilha também registra outra mesa patrocinada pela instituição financeira, identificada como “1 Banco Master”. Entre os convidados estavam o ex-presidente Michel Temer, a ex-primeira-dama Marcela Temer, o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, o então governador de São Paulo João Doria, o ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto e o próprio banqueiro Daniel Vorcaro. As autoridades citadas não são investigadas nesse episódio específico.

Além da proximidade com Ciro Nogueira, Vorcaro teve encontros com Motta e Alcolumbre

As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro também indicam interlocução frequente com lideranças do Congresso Nacional. Em diferentes trechos das conversas com a então namorada, o empresário relata encontros com parlamentares e reuniões realizadas em Brasília, muitas vezes em ambientes reservados e fora da agenda pública.

Um dos nomes citados nas mensagens é o do senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas (PP). Em um diálogo analisado pela PF, Vorcaro se refere ao parlamentar como um “grande amigo de vida”. Ele comemora uma proposta legislativa apresentada por Nogueira e afirma que a iniciativa seria uma “bomba atômica” para o mercado financeiro.

A emenda do Fundo Garantidor de Créditos (FGC)

A referência seria a uma emenda que pretendia ampliar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para até R$ 1 milhão por CPF. O FGC garante depósitos e aplicações financeiras em caso de quebra de instituições bancárias e foi amplamente utilizado pelo Banco Master para atrair investidores para seus Certificados de Depósito Bancário (CDBs). A proposta de Nogueira, no entanto, não foi aprovada.

O senador afirmou que conhece Vorcaro, mas negou qualquer relação irregular ou recebimento de valores. Segundo ele, associar seu nome a pagamentos apenas com base na menção ao primeiro nome em diálogos seria “um ato irresponsável e leviano”.

O material também menciona encontros com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta. Em uma das mensagens, Vorcaro afirma estar participando de um jantar na residência oficial da Presidência da Câmara com Motta e um grupo de empresários. O presidente da Câmara não se manifestou até o momento sobre o teor das mensagens.

Há ainda registros de conversas em que Vorcaro afirma ter participado de uma reunião na residência oficial do Senado, em Brasília, onde mora o presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Segundo o relato enviado à namorada, o encontro teria ocorrido em agosto de 2025 e se estendido até a meia-noite. Na sequência, a ex-namorada do banqueiro questionou: “Você fez aquilo?”. “De aparecer sem ele saber”, disse Martha. “Sim kkk. Foi na residência oficial do Senado”, respondeu Vorcaro.

A assessoria de Alcolumbre não comentou o conteúdo das mensagens até a publicação deste texto.

Um aliado político de Alcolumbre, que foi indicado por ele para gerir um fundo de previdência no Amapá, foi preso na investigação do Master. Alcolumbre nega a indicação.

Reunião com Lula no Planalto não entrou na agenda oficial

Nas trocas de mensagens, Vorcaro mencionou um encontro com o presidente Lula no Palácio do Planalto. O empresário relatou ter participado de uma reunião no local em 4 de dezembro de 2024 e descreveu o encontro como “ótimo” e “muito forte”.

Segundo o relato, a reunião teria contado com a presença do ministro da Casa Civil, Rui Costa, do então indicado à presidência do Banco Central e atual titular da instituição, Gabriel Galípolo, além do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que, de acordo com o próprio Vorcaro nas mensagens, teria ajudado a articular o encontro.

Vorcaro afirma que apresentou críticas ao funcionamento do sistema bancário brasileiro e reclamou da concentração do mercado nas mãos de grandes instituições financeiras. Segundo o relato, Lula teria respondido que eventuais disputas ou irregularidades no setor deveriam ser analisadas pelo Banco Central, responsável pela supervisão do sistema financeiro.

A reunião mencionada nas mensagens não aparece na agenda oficial divulgada pela Presidência da República para aquela data. O Palácio do Planalto e as assessorias das autoridades citadas não se manifestaram até o momento.

Em fevereiro deste ano, Lula confirmou que recebeu Vorcaro em Brasília a pedido do banqueiro. Segundo o próprio presidente, Guido Mantega foi quem levou o dono do Banco Master para vê-lo.

“Eu chamei o [presidente do BC, Gabriel] Galípolo, chamei Rui Costa, que é da Bahia, que conhecia ele, e ele então me contou da perseguição que estava sofrendo, que tinha gente interessada em derrubar ele, não sei das quantas”, relatou o petista em entrevista ao portal UOL. Ainda segundo o presidente, reuniões com empresários fazem parte da rotina institucional do cargo.

Caso reacende pressão política no Congresso e hipótese de delação

As revelações da rede de contatos de Daniel Vorcaro repercutem no Congresso Nacional e alimentaram críticas de parlamentares da oposição, que defendem o aprofundamento das investigações sobre o caso Banco Master. Nos bastidores, cresce a possibilidade de que o banqueiro avalie um acordo de colaboração premiada, hipótese que poderia ampliar o alcance político do caso.

A avaliação é que uma eventual delação de Vorcaro teria potencial para atingir diferentes esferas do poder, diante das relações mencionadas nas mensagens extraídas do celular do empresário. Esse cenário passou a ser citado por parlamentares como um fator de pressão adicional para o avanço de investigações no Congresso.

A deputada Adriana Ventura (Novo-SP), afirma que o episódio reforça a percepção de que sucessivos escândalos têm abalado a confiança nas instituições. “A gente está vivendo um momento de escândalo atrás de escândalo: roubalheira do INSS, roubalheira do Banco Master, corrupção atrás de corrupção, acordão atrás de acordão”, afirmou.

O deputado Lucas Redecker (PSDB-RS) também afirmou que o caso levanta suspeitas sobre diferentes esferas de poder. “Nós temos hoje todos os Poderes sob alguma suspeita de envolvimento com o Banco Master. Ministros do Supremo Tribunal Federal, a esposa do ministro Alexandre de Moraes, o Ricardo Lewandowski, deputados, senadores — diversas pessoas, independentemente de partido político, são suspeitas de envolvimento”, disse.

No Senado, parlamentares também defendem o avanço de investigações no Congresso. O senador Jorge Kajuru (PSB-GO) afirmou que o caso pode revelar uma das maiores fraudes financeiras do país e cobrou esclarecimentos sobre a atuação do banqueiro.

O senador Eduardo Girão (Novo-CE) afirmou que uma eventual colaboração premiada de Vorcaro poderia ter forte impacto político. “Se Vorcaro falar o que sabe, cai metade de Brasília”, declarou.

Nota do gabinete do ministro Alexandre de Moraes

Nota à imprensa

A Secretaria de Comunicação do Supremo Tribunal Federal, por solicitação do gabinete do ministro Alexandre de Moraes, informa:

Análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS, constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos.

No conteúdo extraído do celular do executivo pelos investigadores, os prints dessas mensagens enviadas por Vorcaro estão vinculadas a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes.

A mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez os prints (Vorcaro). Ou seja, fica demonstrado que as mensagens (prints) estão vinculadas a outros contatos telefônicos no computador de Daniel Vorcaro, jamais ao Ministro Alexandre de Moraes.

Os nomes e contatos das pessoas vinculadas aos respectivos arquivos não serão mencionados na presente nota em virtude do sigilo decretado pelo Ministro André Mendonça, mas constam no arquivo que a CPMI do INSS disponibilizou para toda a imprensa.

Contexto

A Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master e a atuação de seu controlador, Daniel Vorcaro, ocorre em um momento de crescente debate sobre a influência do setor financeiro no poder político. A investigação levanta questionamentos sobre a ética e a transparência nas relações entre agentes econômicos e autoridades dos três poderes, e acende o alerta sobre a necessidade de fortalecer os mecanismos de controle e fiscalização para evitar a corrupção e o favorecimento indevido.

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