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Folha Jundiaiense

Vereadora do PT faz ritual em frente ao Congresso e cita Maria Mulambo

Vereadora Benny Briolly Realiza Ritual de Matriz Africana em Frente ao Congresso Nacional e Reafirma Luta contra Racismo Religioso

Brasília, DF – A vereadora Benny Briolly (PT-RJ), parlamentar eleita em Niterói e mulher trans, protagonizou um ato de forte simbolismo ao realizar um ritual religioso em frente ao Congresso Nacional, em Brasília. O vídeo da prática, divulgado nesta semana nas redes sociais da própria parlamentar, mostra Benny Briolly dedicando um “trabalho” a Maria Mulambo. A iniciativa, segundo a vereadora, busca expressar sua fé, pedir proteção espiritual e, sobretudo, combater o racismo religioso que atinge as religiões de matriz africana no Brasil.

A ação da parlamentar, figura proeminente na luta por direitos da comunidade LGBTQIA+ e das religiões de matriz africana, reacende o debate sobre a laicidade do Estado brasileiro e a visibilidade de crenças historicamente marginalizadas. O local escolhido, o coração do poder legislativo nacional, confere ao ato um caráter não apenas de expressão espiritual, mas também de afirmação política e social.

O Ato no Palco da Política: Fé e Ancestralidade no Centro do Poder

No vídeo que rapidamente ganhou repercussão, Benny Briolly explicita a natureza de seu ritual. Ela relata ter firmado um “trabalho” para Maria Mulambo, uma entidade reverenciada nas religiões de Umbanda e Candomblé, associada à sabedoria, à resiliência e à capacidade de auxiliar na abertura de caminhos e na proteção espiritual. Esta prática, comum nos cultos afro-brasileiros, adquire uma dimensão amplificada ao ser realizada em um dos palcos mais emblemáticos da política nacional.

A vereadora, em sua publicação, descreve a intenção por trás do gesto com clareza: “Levei minha fé para um dos espaços mais simbólicos do poder no Brasil. Em frente ao Congresso Nacional, firmei um trabalho para Maria Mulambo, levando comigo a força da ancestralidade, dos povos de terreiro e de todas as pessoas que resistem diariamente ao racismo religioso”. A declaração sublinha a união entre a expressão pessoal de fé e a luta coletiva por reconhecimento e respeito, tornando o ato uma poderosa declaração política.

Ao invocar Maria Mulambo, entidade frequentemente estigmatizada por discursos fundamentalistas, a vereadora desafia a invisibilidade e o preconceito arraigado na sociedade. A prática não se limita a um pedido de proteção pessoal, estendendo-se a um clamor por defesa e fortalecimento para todos os praticantes das religiões de axé. A presença de uma vereadora trans e praticante de uma religião de matriz africana no Congresso é um marco de ocupação de espaços.

Significado do Ritual e a Entidade Maria Mulambo

O “trabalho” para Maria Mulambo, como mencionado pela vereadora, é uma forma de ritual que busca intervenção espiritual para superação de obstáculos, proteção e realização de objetivos. Maria Mulambo é uma Pombagira, entidade feminina cultuada na Umbanda e no Candomblé, associada a figuras femininas poderosas, à liberdade e à capacidade de desatar nós e abrir caminhos. Sua invocação no contexto do Congresso Nacional é um apelo simbólico para que as dificuldades enfrentadas pelos povos de axé sejam superadas e seus direitos garantidos em um país que, constitucionalmente, deveria assegurar a liberdade religiosa a todos.

A escolha de uma entidade feminina e poderosa para este rito em um espaço dominado pela política patriarcal e, por vezes, conservadora, carrega uma camada adicional de significado. Conecta a fé à luta por direitos das mulheres e da comunidade LGBTQIA+, grupos que Benny Briolly também representa e defende, ampliando o alcance e a relevância de seu gesto.

Defesa da Liberdade Religiosa e Combate ao Racismo Estrutural

Um dos pilares centrais da manifestação de Benny Briolly é a defesa intransigente da liberdade religiosa e o combate ao racismo religioso. A vereadora argumenta que as religiões de matriz africana enfrentam um preconceito histórico profundo, marcado por tentativas sistemáticas de apagamento de suas tradições, criminalização de seus espaços de culto (os terreiros) e desrespeito à sua fé. Tais práticas de discriminação não são eventos isolados, mas parte de um racismo estrutural que as minoriza.

“Por muito tempo tentaram silenciar nossas crenças, criminalizar nossos terreiros e apagar nossa história. Mas seguimos de pé, ocupando espaços e reafirmando que nossa espiritualidade faz parte da cultura, da identidade e do futuro deste país”, declarou Benny Briolly em sua publicação. Esta fala ressalta a persistência da discriminação e a resiliência dos praticantes dessas religiões, que há séculos lutam por sua sobrevivência e reconhecimento no Brasil, apesar da Constituição Federal de 1988 assegurar a liberdade de crença e culto.

O racismo religioso manifesta-se de diversas formas, desde agressões físicas e verbais, depredação de templos, até a propagação de discursos de ódio e a marginalização em espaços públicos e na mídia. O ato de Benny Briolly busca confrontar essa realidade, trazendo para a luz pública a resistência e a demanda por igualdade de direitos e respeito para todas as crenças, desafiando a hegemonia religiosa muitas vezes imposta.

Ocupação de Espaços e a Representatividade da Espiritualidade Afro-Brasileira

A vereadora Benny Briolly percebe seu gesto como um marco na ocupação de espaços por praticantes de religiões de matriz africana. A presença visível e sem constrangimento de uma figura política abertamente ligada a essas crenças no cenário político mais importante do país é um passo significativo para a desconstrução de estigmas e a afirmação da diversidade. Isso inspira milhares de pessoas que se sentem marginalizadas a reivindicarem seu lugar na sociedade.

Para Benny, a espiritualidade afro-brasileira não é uma prática marginal, mas sim uma parte indissociável da cultura e da identidade nacional. Essa perspectiva desafia a hegemonia de outras religiões no imaginário coletivo e busca reverter a narrativa de que as crenças africanas seriam alheias ou inferiores à formação do Brasil. É um convite à reflexão sobre a diversidade religiosa que compõe o tecido social brasileiro e a importância de todas as suas manifestações serem respeitadas.

O ato reforça a ideia de que a diversidade religiosa é um valor a ser celebrado, e não um motivo para discriminação. A coragem de Benny Briolly em expor sua fé em um local tão sensível demonstra a crescente demanda por representatividade e visibilidade para grupos minoritários na política e na sociedade, ecoando um movimento que busca maior inclusão e equidade para todos os cidadãos, independentemente de sua fé ou identidade.

O Que Está em Jogo: Luta por Respeito e Dignidade no Estado Laico

A performance da vereadora Benny Briolly no Congresso Nacional transcende o ato pessoal de fé; ela simboliza a contínua batalha por respeito, liberdade religiosa e dignidade para os povos de axé no Brasil. Em um país que se declara laico, mas onde a influência de certos grupos religiosos na política e na formulação de leis é notoriamente forte, a defesa pública das religiões de matriz africana torna-se um ato de resistência fundamental, desafiando a hegemonia cultural.

A presença de líderes religiosos e parlamentares em discussões sobre legislação que afeta diretamente a vida dos cidadãos exige que a pluralidade de crenças seja reconhecida e protegida. A iniciativa de Benny Briolly serve como um lembrete contundente de que a diversidade religiosa brasileira é um fato inegável e deve ser tratada com a devida seriedade e equidade por todas as esferas do poder público, assegurando que o princípio da igualdade seja respeitado e efetivado.

A mensagem final de Benny Briolly, “Que Maria Mulambo siga abrindo caminhos, protegendo nossos passos e fortalecendo a luta por respeito, liberdade religiosa e dignidade para os povos de axé”, ecoa o desejo de milhares de brasileiros por um país mais inclusivo e menos preconceituoso. Seu ato é um chamado à ação e um reforço da importância da vigilância constante em relação aos direitos fundamentais e à preservação de um Estado verdadeiramente laico.

Contexto

O Brasil, embora constitucionalmente um Estado laico, possui um histórico complexo de intolerância religiosa, que atinge de forma desproporcional as religiões de matriz africana, por muito tempo perseguidas e marginalizadas. A luta pela liberdade religiosa é uma pauta constante para os movimentos sociais e entidades de direitos humanos, que buscam garantir a proteção legal e social dos praticantes de todas as crenças. O ato da vereadora Benny Briolly se insere neste contexto de reivindicação por um ambiente de maior respeito, visibilidade e equidade para a pluralidade de fé no país, desafiando o racismo religioso persistente.

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