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Folha Jundiaiense

Sócrates, ídolo de Corinthians e seleção, ganha honraria na Alesp

A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) homenageia Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o “Doutor”, nesta sexta-feira (12), em reconhecimento póstumo à sua trajetória no futebol e ao seu engajamento político. Familiares do ex-jogador, ídolo do Corinthians e da Seleção Brasileira, recebem o Colar de Honraria ao Mérito Legislativo, a mais alta condecoração da casa.

A Alesp distingue não apenas o talento em campo, mas também a liderança de Sócrates na Democracia Corinthiana e na campanha pelas Diretas Já, momentos cruciais da história recente do país.

Sócrates foi mais que um jogador. Foi um pensador em campo.

Nascido em Belém, Pará, em 1954, o “Magrão” iniciou a carreira profissional no Botafogo de Ribeirão Preto (SP), onde atuou entre 1973 e 1977. Sua inteligência e visão de jogo já ali o diferenciavam, antecipando uma trajetória singular.

Em 1978, chegou ao Corinthians. Rapidamente, transformou o meio de campo alvinegro com passes precisos e uma rara elegância.

Com a camisa do Timão, conquistou os Campeonatos Paulistas de 1979, 1982 e 1983. Seus passes de calcanhar tornaram-se uma assinatura, um lance de maestria que cativava a torcida e confundia adversários. O Doutor era um craque.

Em 1984, transferiu-se para a Fiorentina, na Itália. Uma passagem breve, mas que marcou a presença de um ícone brasileiro no exterior.

Representou o Brasil em duas Copas do Mundo, 1982 e 1986. Em ambas, capitaneou a Seleção, considerada por muitos uma das mais talentosas de todos os tempos, embora sem levantar a taça.

A dimensão de Sócrates, contudo, transcende os gramados. Sua formação médica, aliada a um aguçado senso crítico e uma profunda preocupação social, impulsionou seu ativismo.

A efervescência política do início dos anos 80 encontrou nele uma voz potente, em um momento de grandes transformações para o Brasil.

O país ainda vivia sob a ditadura militar, com a repressão estatal tentando sufocar qualquer manifestação de dissenso. O futebol, paixão nacional, era frequentemente usado como espaço de controle e distração.

A Democracia Corinthiana e a Luta por Direitos

Em meio ao regime, germinava no vestiário do Corinthians um movimento inédito: a Democracia Corinthiana. Liderada por Sócrates, Casagrande e Wladimir, a iniciativa dava voz igual a todos no clube – atletas, comissão técnica, roupeiro. Cada um tinha um voto com o mesmo peso.

O movimento era uma resposta direta à estrutura autoritária do futebol e da nação. Decisões sobre treinos, premiações e até contratações eram votadas em assembleia. A concentração obrigatória antes dos jogos, prática comum no futebol da época, foi abolida. Isso desafiava hierarquias estabelecidas, reverberando fora dos campos.

Era uma experiência de autogestão. Um modelo radical para os padrões da época, que refletia a busca por liberdades mais amplas na sociedade. O time, com Sócrates à frente, não se calava. Tornou-se porta-voz de uma geração que ansiava por liberdade.

O lema “Ganhar ou Perder, mas Sempre Com Democracia” estampava as camisas. O time de Sócrates e Casagrande virou um símbolo de resistência, ganhando admiradores mesmo entre torcidas rivais.

Sócrates e as Diretas Já

A atuação do “Doutor” não ficou restrita aos muros do Parque São Jorge. Ele levou a luta para as ruas.

Entre 1983 e 1984, Sócrates se juntou a outros líderes da campanha pelas Diretas Já. Subiu em palanques ao lado de figuras como Lula, Ulysses Guimarães, Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso. Sua presença nos comícios dava um rosto popular e carismático à demanda por eleições diretas para presidente.

Sua voz amplificava a pressão popular. Um ídolo do futebol, com a credibilidade de um médico e a mente de um intelectual, desafiava abertamente o poder estabelecido. Milhões acompanhavam os comícios; a presença de Sócrates trazia a mensagem a um público ainda maior, muitas vezes despolitizado por décadas de regime.

Ele chegou a declarar, em um dos maiores comícios da história, que só deixaria o país para jogar na Itália se a emenda das Diretas Já fosse aprovada. A emenda foi derrotada. Sócrates, então, cumpriu a palavra e foi para a Fiorentina.

O Colar de Honraria ao Mérito Legislativo da Alesp reconhece essa dupla vertente: a de atleta brilhante e a de cidadão engajado. A honraria é destinada a personalidades que prestaram relevantes serviços ao estado de São Paulo e à sociedade brasileira. A entrega desta sexta-feira, às 18h, simboliza a perpetuação da memória de um homem que usou o esporte como plataforma para ideias.

Morreu em 4 de dezembro de 2011, aos 57 anos. Uma partida que emocionou o Brasil e fez a torcida corintiana gritar “Doutor, Doutor” pela última vez.

A homenagem póstuma reitera a influência duradoura de Sócrates. Seu legado inspira ainda hoje debates sobre o papel do esporte na sociedade e a responsabilidade social de figuras públicas. Sócrates mostrou que um atleta pode ser um agente de mudança, e não apenas um espetáculo.

Contexto

O engajamento político de atletas no Brasil possui um histórico que remonta a diferentes períodos de crise ou transformação social. Durante a ditadura militar (1964-1985), o esporte, e o futebol em particular, era frequentemente instrumentalizado pelo regime para promover uma imagem de unidade e poderio nacional. No entanto, figuras como Sócrates e o movimento da Democracia Corinthiana desafiaram essa narrativa, usando sua visibilidade para criticar a falta de liberdades e exigir a redemocratização. O caso de Sócrates representa um dos exemplos mais emblemáticos de como o esporte pode servir como palco para manifestações cívicas, influenciando o debate público e inspirando novas gerações a conectar performance atlética com responsabilidade social e política.

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