Quatro gols em uma estreia avassaladora e o primeiro passo de um futuro gigante debaixo das traves. Um São Paulo já acostumado a empilhar taças vivia um momento de transição e revelações em pleno solo europeu, nos primeiros dias de junho de 1993.
Aquele voo para Santiago de Compostela carregava mais do que a delegação tricolor; levava o embrião de um novo capítulo glorioso, com o time de olho em mais uma taça internacional, mesmo que de um torneio amistoso.
Na aeronave, o então diretor de futebol, **Kalef João Francisco**, dividia o espaço com o maestro **Toninho Cerezo**, lenda que já encantava o Morumbi. Eles estavam a caminho de um torneio que, sem que soubessem, marcaria para sempre a memória de quem ama o futebol brasileiro.
A Geração de Ouro e os Primeiros Passos de Lendas
A excursão à Galícia para o Troféu Santiago de Compostela reservava surpresas. O primeiro desafio foi contra o Tenerife, em 25 de junho de 1993, uma partida que se transformaria em um palco de estreias históricas.
Foi ali que o futuro ídolo **Rogério Ceni** fez sua primeira aparição como titular da equipe são-paulina, um passo fundamental para a trajetória que o consagraria. Mas a noite reservava um show ainda mais impactante.
Além de Ceni, outros dois talentos recém-chegados também faziam seus primeiros jogos: o atacante **Guilherme** e o meio-campista **Juninho Paulista**. Ninguém esperava o que aconteceria a seguir.
O Tricolor goleou o Tenerife por 4 a 1, com uma atuação de gala de **Guilherme**, que balançou as redes quatro vezes na mesma partida. Um feito memorável que deixou os espanhóis “loucos por ele”, segundo **Kalef**, que relembrou o episódio.
O diretor, hoje conselheiro vitalício do São Paulo, contou em entrevista recente que o impacto foi tão grande que “queriam comprar seu passe” imediatamente, tamanha a impressão causada pelo jovem atacante.
Dias depois, o São Paulo enfrentou o River Plate. Um empate em 2 a 2 no tempo normal levou a decisão para os pênaltis, onde a equipe paulista triunfou por 4 a 3, garantindo o belo troféu.
Impacto na região
O brilho de um clube como o São Paulo, especialmente em sua fase mais vitoriosa nos anos 90, reverberava muito além da capital paulista. Em cidades como Jundiaí e em toda a região, a Era Telê era um farol, um sonho concreto.
Ver jovens talentos como **Rogério Ceni** e **Juninho Paulista** despontando em um torneio europeu, ou um atacante como **Guilherme** se destacar imediatamente, alimentava a paixão e a esperança de meninos que davam seus primeiros chutes em campos de várzea e escolinhas de futebol locais.
A ambição de vestir uma camisa de peso, como a do Tricolor do Morumbi, se tornava mais tangível, influenciando o esporte amador e a formação de novos atletas na busca por um futuro grandioso no cenário nacional.
Cerezo: O Maestro Veterano em Campo e Fora Dele
Ao lado de **Kalef João Francisco** naquela viagem, **Antônio Carlos Cerezo**, o lendário **Toninho Cerezo**, era uma figura central para o São Paulo. O volante mineiro havia chegado ao Morumbi em 1992, um ano antes daquele registro fotográfico no avião.
Revelado pelo Atlético Mineiro, Cerezo já era uma estrela consagrada, titular na icônica Seleção Brasileira que disputou a Copa de 1982 na Espanha. Sua carreira internacional era recheada de glórias, com passagens marcantes pela Roma e pela Sampdoria, na Itália.
Mesmo desembarcando no clube paulista com 37 anos, sua experiência e classe eram indiscutíveis. **Toninho Cerezo** não veio apenas para compor elenco; ele brilhou intensamente, consolidando seu legado no futebol brasileiro.
Com a camisa do Tricolor, ele foi peça chave em conquistas inesquecíveis, levantando dois títulos do **Mundial de Clubes** (em 1992 e 1993), a **Libertadores da América de 1993** e o **Campeonato Paulista de 1992**. Sua visão de jogo e liderança eram diferenciais cruciais.
Após sua primeira passagem pelo São Paulo, que durou até 1993, Cerezo ainda defenderia o Cruzeiro e o Louzano Paulista, antes de retornar brevemente ao Tricolor em 1995.
Encerrou sua gloriosa carreira de jogador em 1997, onde tudo começou: no Atlético Mineiro, deixando um rastro de admiração e respeito por onde passou.
Os Bastidores da Excursão e a Voz do Dirigente
A excursão à Espanha em 1993 tinha outros detalhes curiosos, revelados por **Kalef João Francisco**. O presidente **José Eduardo Mesquita Pimenta** estava presente, acompanhado de sua esposa, secretária e dois conselheiros, reforçando a importância institucional da viagem.
O dirigente lembrou que o “mini torneio” foi acertado em um encontro descontraído no Lellis Tratoria, com o próprio presidente do Compostela. A conquista do troféu, “lindo, por sinal”, teve um sabor especial para Kalef.
Coincidentemente, a vitória nos pênaltis contra o River Plate, que selou o título, ocorreu em 27 de junho, dia do aniversário do diretor, que completava 51 anos. “Foi meu presente de aniversário, além de uma imitação da garrafa da cachaça 51”, brincou ele.
Outro ponto notável foi a ausência de **Telê Santana**. O lendário treinador, buscando descanso, não viajou com a delegação são-paulina. A responsabilidade de comandar a equipe em solo espanhol recaiu sobre **Márcio Araújo**, então técnico das categorias de base.
“Eu deixei todos à vontade. Tinha outros candidatos para comandar o time, mas eu resolvi dar uma oportunidade ao **Márcio Araújo**”, destacou Kalef, reforçando a confiança na prata da casa e a flexibilidade da diretoria em um momento de transição.
Um Olhar Para o Futuro que Viria
Essa excursão, com suas estreias marcantes e a presença de veteranos laureados, não foi apenas um evento isolado. Ela simbolizava o constante fluxo de renovação e excelência que o São Paulo cultivava.
A oportunidade dada a jovens talentos e a manutenção de ídolos experientes como **Cerezo** eram pilares da filosofia que o clube abraçava, preparando o terreno para mais capítulos de sucesso.
O torneio serviu como um laboratório valioso, forjando a confiança de uma equipe que já era bicampeã mundial e que continuaria a ser protagonista no cenário internacional.
O Legado de Uma Era Dourada para o Futebol Brasileiro
Os anos 90 representaram um período dourado para o São Paulo Futebol Clube, e o Troféu Santiago de Compostela, por mais amistoso que fosse, insere-se perfeitamente nesse cenário de glórias e construção de um legado.
A “Era Telê” não foi apenas sobre títulos; foi sobre uma mentalidade. O clube paulista redefiniu o conceito de excelência no futebol brasileiro, mostrando ao mundo um time capaz de competir e vencer os gigantes europeus e sul-americanos com um estilo de jogo envolvente e eficiente.
Essas excursões internacionais, muitas vezes focadas em torneios de pré-temporada, eram cruciais. Elas não só proporcionavam experiência valiosa para os atletas em diferentes contextos e contra escolas diversas, mas também solidificavam a marca do São Paulo no exterior, pavimentando o caminho para o reconhecimento global que o clube alcançaria.
A constante busca por novos talentos, aliada à valorização de ícones experientes, criou um ambiente de desenvolvimento e sucesso que se tornou referência. O que foi construído nesses anos, com jogadores como **Rogério Ceni** dando seus primeiros passos e **Toninho Cerezo** ditando o ritmo, ainda hoje serve de inspiração e demonstra a importância de um planejamento sólido no futebol.
Aquele voo para Santiago de Compostela, as estreias de **Guilherme** e **Juninho Paulista**, e a liderança de **Kalef João Francisco** nos bastidores, são peças fundamentais de um quebra-cabeça que formou uma das equipes mais memoráveis da história do futebol brasileiro.