

A notícia chegou como um lamento silencioso no final de semana: Telma de Souza, a única mulher a ter chegado ao mais alto cargo do executivo em Santos, partiu aos 82 anos. Sua morte, ocorrida no sábado (10) em decorrência de falência múltipla de órgãos, encerrou uma trajetória política e pessoal marcada por pioneirismo.
O impacto da perda de uma figura tão proeminente foi sentido imediatamente. A ex-prefeita estava internada na UTI do Hospital Monte Serrat desde a quarta-feira (7), após sofrer uma parada cardiorrespiratória que mobilizou a Baixada Santista e além.
Despedida no Coração de Santos
O Salão Nobre do Palácio José Bonifácio, sede da Prefeitura de Santos, abriu suas portas neste domingo (11) para o velório de Telma de Souza. Um cenário carregado de simbolismo, refletindo a importância da vida pública que ali se encerrava.
Familiares, amigos e uma série de autoridades políticas se reuniram para a última homenagem. A cerimônia de despedida foi conduzida pelo padre Denilson de Freitas, em um momento de reflexão e memória.
O prefeito de Santos decretou luto oficial de três dias pela perda de sua ex-comandante, um gesto que sublinha a relevância de Telma para a história da cidade.
Entre os presentes, destacaram-se nomes como os deputados estaduais eleitos Eduardo Suplicy (PT) e Luiza Erundina (PT), além do deputado federal eleito Guilherme Cortez (PSOL), que prestaram suas homenagens.
Eduardo Suplicy relembrou a longa parceria: “Foram tantas as ocasiões em que nós três, Telma, Luiza e eu estivemos juntos do mesmo lado em situações das mais diversas dentro do PT, mas sempre lutando pelo aperfeiçoamento da democracia. A Telma era uma amante da democracia extraordinária”.
A comoção alcançou a esfera federal. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a primeira-dama Janja Lula da Silva enviaram flores à cerimônia, marcando a importância nacional da figura de Telma de Souza.
Nas redes sociais, o presidente expressou seu pesar, reforçando o legado da ex-prefeita. “Telma deixou um legado que permanece vivo, na forma de tratamento humanizado às pessoas que mais precisam. E nossas políticas públicas devem muito ao que ela defendeu e colocou em prática”, destacou Lula.
Fiquei muito triste com a notícia do falecimento da companheira Telma de Souza neste sábado. Pioneira em várias áreas, ela foi uma das fundadoras do PT e, até hoje, a única mulher a comandar a cidade de Santos.
Telma deixou um legado que permanece vivo, na forma de tratamento humanizado às pessoas que mais precisam. E nossas políticas públicas devem muito ao que ela defendeu e colocou em prática.
A rede de atendimento em saúde mental que fundou em Santos foi uma das precursoras da rede de CAPS – Centros de Atenção Psicossocial – que temos hoje. Suas políticas de prevenção e tratamento da AIDS, ainda no final dos anos 80, foram referência para diversas outras cidades e para as políticas levadas pelo SUS a todo o país.
Tenho certeza de que muitas vidas foram salvas, muitas pessoas passaram a ser tratadas de forma mais digna graças às experiências que Telma implantou e às políticas públicas que defendeu e formulou em sua trajetória, que incluiu mandatos como vereadora, deputada estadual e federal.
A todos os seus familiares, amigos e companheiros, eu deixo minha solidariedade e meu forte abraço.
Após a emoção do velório, o corpo seguiu em cortejo para o Memorial Necrópole Ecumênica, no bairro Marapé, também em Santos. Ali, a cerimônia de cremação encerrou o ciclo de uma vida dedicada à política e ao serviço público.
Impacto na região
Embora sua atuação fosse centrada em Santos, o trabalho de Telma de Souza ressoou muito além dos limites municipais. Suas políticas inovadoras, especialmente na área da saúde pública e assistência social, estabeleceram modelos de referência que foram observados e, em muitos casos, replicados por outras cidades e esferas de governo.
A criação do Centro de Referência em Aids (Craids), apontado como o primeiro do país, e suas iniciativas na luta antimanicomial e na saúde mental, foram precursoras. Tais exemplos contribuíram para o desenho de programas nacionais, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do SUS.
Para moradores de Jundiaí e de outras cidades do interior paulista, isso significa que a concepção e aprimoramento de serviços de saúde acessíveis, humanizados e focados na comunidade podem ter raízes nas experiências pioneiras de gestoras como Telma. O impacto de suas escolhas se traduziu em melhores práticas que, eventualmente, se disseminaram, beneficiando indiretamente a qualidade do atendimento e das políticas sociais em suas próprias localidades.
Um Legado Forjado em Lutas e Inovação
A trajetória política de Telma de Souza é um capítulo à parte na história de Santos e do estado de São Paulo. Ela não apenas liderou a Prefeitura de Santos entre 1989 e 1992, mas também serviu em quatro mandatos como vereadora e representou a região como deputada estadual e federal.
Sua gestão municipal foi marcada por profundas transformações. A reorganização administrativa e a municipalização do transporte público foram passos importantes para a modernização da cidade e a otimização dos serviços para os cidadãos.
Na área da saúde, seu governo deixou marcas indeléveis. A criação de policlínicas e a implantação do Centro de Referência em Aids (Craids) representaram um avanço significativo no tratamento e prevenção de doenças, com um olhar humanizado e inovador para a época.
A Luta Antimanicomial e o Olhar Social
A luta antimanicomial foi outra bandeira fundamental de Telma de Souza, demonstrando um compromisso com a dignidade e a reintegração social. Suas ações nessa frente anteciparam debates e políticas que só ganhariam força a nível nacional anos depois.
Além da saúde, a ex-prefeita dedicou-se intensamente a pautas sociais, ambientais e de preservação histórica, sempre com foco em Santos e no litoral paulista. Sua visão abrangente buscava um desenvolvimento que integrasse progresso e cuidado com o patrimônio.
Mesmo após seus últimos mandatos como vereadora, entre 2017 e 2024, Telma de Souza não se afastou do debate público. Ela continuou participando ativamente de discussões sobre políticas públicas e o desenvolvimento da região, mantendo-se uma voz influente.
Em reconhecimento à sua dedicação, o Instituto para o Desenvolvimento da Baixada Santista (IBS), fundado em 2007, foi renomeado em 2025 para Instituto Telma de Souza, perpetuando seu nome e sua influência nas futuras gerações.
O Que Está por Trás Desta Despedida
A partida de Telma de Souza não é apenas a perda de uma figura pública; ela simboliza o fim de uma era de pioneirismo político e social que transformou a Baixada Santista e reverberou em todo o Brasil. Na virada dos anos 80 para os 90, o cenário político brasileiro fervilhava com a redemocratização e a busca por novos modelos de gestão.
Foi nesse contexto de efervescência que Telma surgiu como a primeira mulher a assumir a prefeitura de uma cidade portuária tão estratégica como Santos. Suas decisões audaciosas, como a municipalização do transporte público e a revolução na saúde, desafiaram o status quo e pavimentaram o caminho para um novo paradigma de serviço público.
A importância deste momento se estende à forma como as políticas públicas, que hoje são consideradas pilares do Sistema Único de Saúde (SUS), começaram a ser gestadas e testadas. As iniciativas de Telma na saúde mental e na prevenção da AIDS não foram meros projetos locais; elas se tornaram um farol para a inovação, influenciando a criação de programas que beneficiam milhões de brasileiros atualmente.
Sua morte, portanto, nos convida a uma reflexão sobre a evolução do compromisso social e da governança no Brasil. É um lembrete do valor das visões progressistas e da coragem de implementar mudanças que, de fato, colocam o cidadão no centro das prioridades, um legado que continua a inspirar e a moldar o futuro das políticas em nosso país.



