

Mais de 18 milhões de litros de água por hora: essa é a impressionante capacidade que uma nova estrutura promete em Santos, especificamente na Zona Noroeste e na entrada da Cidade. A expectativa é dar um basta definitivo nos históricos alagamentos que há décadas castigam a população e o tráfego em pontos cruciais como a Avenida Nossa Senhora de Fátima.
O canteiro de obras da terceira Estação Elevatória com Comportas (EEC 0), no Saboó, já revela os primeiros movimentos de um projeto que se desenha como um dos mais ambiciosos da região. A iniciativa visa transformar a realidade de milhares de moradores e de quem utiliza diariamente as movimentadas vias santistas.
O Gigante Subterrâneo que Reverterá o Caos
A EEC 0 está sendo erguida para se tornar um pilar na macrodrenagem, com uma capacidade de bombeamento de 5 mil litros de água por segundo. Essa vazão é equivalente a mais de sete piscinas olímpicas escoadas a cada hora, um volume essencial para enfrentar as chuvas torrenciais e a força da maré.
A estrutura, com 272 m² para a estação principal e mais 170 m² para o setor administrativo, ocupa uma área estratégica. Ela se localiza no km 65 da Via Anchieta (SP-150), no sentido Santos, em um terreno cedido pelo Governo do Estado, próximo a grandes pontos comerciais.
O prefeito Rogério Santos visitou o local, ressaltando a importância desta parceria com o Governo do Estado. “São projetos há muito tempo desenvolvidos que começam a ser executados agora”, afirmou, destacando o foco em resolver os alagamentos no início da Avenida Nossa Senhora de Fátima.
Essa nova estação foi planejada para integrar o Programa de Macrodrenagem Santos Mais. A iniciativa municipal ambiciona um conjunto robusto de 13 estações elevatórias e 14 sistemas de comportas, desenhados para mitigar os impactos das chuvas intensas somadas à maré alta.
O engenheiro civil Leandro Firmino Araújo dos Santos, da Terracom, empresa responsável pelas obras, explica que as intervenções são complexas e multifacetadas. “Já finalizamos toda a parte de aterro e consolidação do solo e estamos avançando com toda a parte de fundação”, detalhou.
Impacto na Baixada Santista
A instalação da EEC 0 transcende a área imediata do Saboó. Ela promete um alívio direto para o cotidiano dos moradores da Zona Noroeste, que há anos convivem com a rotina de inundações. Ruas transformadas em rios, casas invadidas pela água e a perda de bens materiais se tornam, gradualmente, um passado distante.
Para quem transita pela Avenida Nossa Senhora de Fátima, principal corredor de ligação entre Santos e São Vicente, os benefícios serão notáveis. Motoristas, ciclistas e usuários do transporte coletivo verão o fim dos bloqueios e atrasos, melhorando a fluidez e a segurança do trajeto em dias de temporal.
Essa melhoria na infraestrutura de drenagem de Santos significa mais do que apenas ruas secas. Representa a valorização dos imóveis, a segurança de um acesso ininterrupto à cidade e a tranquilidade para planejar a vida sem a constante ameaça da água, impactando positivamente a economia local.
A Engenharia que Reversa as Enchentes: Detalhes da Operação
Os trabalhos iniciais da EEC 0 concentram-se na preparação do terreno. Já foram realizadas a limpeza do canal de captação e a crucial técnica de jet grouting. Este método injeta jatos de alta pressão para misturar solo e cimento, fortalecendo a base da futura edificação que abrigará as bombas.
As próximas fases incluem a cravação de perfis metálicos para a fundação, as escavações dos poços de emboque, a implantação das tubulações, a construção das edificações operacionais e a instalação dos equipamentos de bombeamento. Sistemas elétricos e de automação, além de novas estruturas de drenagem, também fazem parte do projeto.
O secretário de Infraestrutura e Serviços Públicos, Wagner Ramos, detalhou o funcionamento combinado das novas unidades. “A EEC 6 resolve o problema do Saboó, no sentido Centro de Santos. Já a EEC 0 vai resolver o problema na região da Rua Ana Santos”, explicou. A água que inunda a Avenida Nossa Senhora de Fátima, por exemplo, será direcionada para a estação e lançada no estuário, garantindo o escoamento.
Capacidade e Funcionamento do Sistema Integrado
A EEC 0 operará de maneira semelhante à EEC 7 Engenheiro Marco Diniz, já em funcionamento desde maio de 2023. Essa unidade, que atende bairros como Castelo e Areia Branca em Santos, e o Jardim Guassu em São Vicente, serve como um modelo eficaz do que a nova estação oferecerá.
O sistema conta com reservatórios, comportas e bombeamento mecanizado. Em cenários de chuva fraca e maré baixa, as comportas permanecem abertas. Já com maré alta, as comportas fecham para evitar o avanço da água, acumulando-a no reservatório e acionando as bombas para o escoamento.
Quando chuva forte e maré alta ocorrem simultaneamente, todas as bombas operam em potência máxima, garantindo a vazão da água acumulada. Essa capacidade de adaptação às condições climáticas e marítimas é o que torna o sistema tão eficaz contra inundações.
Fernanda Meireles, gerente de engenharia da Ecovias Imigrantes, sublinha a relevância da obra. “É uma obra que contribui para a melhoria da infraestrutura e para a operação da região, especialmente em períodos de chuvas intensas”, disse, enfatizando o reforço na capacidade de drenagem.
O Programa Santos Mais: Um Escudo Contra a Natureza
A EEC 0 é parte integrante de um plano maior, o Programa Santos Mais, que também contempla a construção da EEC 6, no Saboó. Esta última beneficiará uma vasta área de aproximadamente 2 km², com exceção das vias mais próximas à Avenida Nossa Senhora de Fátima, atendidas pela EEC 0.
A EEC 6 será um gigante ainda maior, com oito conjuntos de bombas verticais a diesel. Sua vazão total será de impressionantes 20 m³ por segundo, capaz de bombear o volume de uma piscina olímpica em apenas dois minutos. Essa obra tem previsão de entrega para fevereiro de 2029 e está com cerca de 12% concluída.
O investimento na EEC 6, incluindo estação elevatória, comporta e canal, soma R$ 153,3 milhões. A maior parte desse valor, R$ 149,2 milhões, é financiada pela Corporação Andina de Fomento (CAF), com o restante sendo uma contrapartida da Prefeitura. Esses recursos são cruciais para a transformação da cidade.
Fábio Ferraz, secretário de Governo, destaca o financiamento como um marco. “Contraímos um financiamento muito importante para estas intervenções. Vão ajudar a resolver problemas com foco principal na questão da macrodrenagem, mitigando alagamentos, em especial na Zona Noroeste”, afirmou.
A Evolução da Luta Contra a Água em Santos
As inundações são um desafio antigo em cidades costeiras como Santos, onde a urbanização se encontrou com a dinâmica natural da maré e o volume de chuvas. Por décadas, a população da Zona Noroeste e da entrada da cidade sofreu com sistemas de drenagem que não acompanhavam o crescimento urbano e as mudanças climáticas.
O cenário que vemos hoje, com grandes investimentos em estações elevatórias e comportas, é o resultado de uma evolução na compreensão e nas soluções para esses problemas. Antes, o foco se dava em ações paliativas, mas a percepção da urgência e da magnitude do problema levou ao desenvolvimento de projetos de macrodrenagem complexos e de longo prazo.
A relevância desse assunto é ampliada pelo contexto atual de mudanças climáticas, que trazem consigo eventos extremos de chuva e o aumento do nível do mar. Investimentos como o Programa Santos Mais não são apenas melhorias pontuais, mas sim adaptações estratégicas que garantem a sustentabilidade e a qualidade de vida em uma das regiões mais densamente povoadas do litoral brasileiro.
A transição de uma cidade vulnerável para uma metrópole resiliente passa por essas obras de infraestrutura. Elas não só protegem o patrimônio e a vida dos cidadãos, mas também solidificam a economia local, garantindo a mobilidade e o desenvolvimento contínuo de Santos frente aos desafios ambientais.



