

Poderia parecer inusitado: uma cidade brasileira, conhecida por suas praias e ondas, recebe reconhecimento internacional não apenas pelo esporte, mas por sua vanguarda social. Santos, que respira surfe, conquistou o prêmio de “Cidade Mais Inclusiva” na prestigiosa World Surf Cities Network (WSCN).
Esta distinção, outorgada em Ericeira, Portugal, em outubro, destaca um trabalho silencioso, porém profundo, que transcende a competição e transforma o acesso ao mar em ferramenta de inclusão, saúde e dignidade para milhares de pessoas.
Uma Onda de Reconhecimento Global
A premiação da Rede Mundial de Cidades do Surfe não é um feito isolado. Ela discute pilares como economia, turismo, inovação e, crucialmente, a inclusão e a sustentabilidade no cenário global.
A cidade foi representada por Cisco Araña, figura lendária que participa do projeto desde sua criação em 1991, e por César Augusto Andrade, diretor de marketing do CSC Group, da Blue Med Saúde, parceira fundamental das escolas.
Este ano marca a segunda vez que Santos é laureada como “Cidade Mais Inclusiva”. Em 2023, o reconhecimento veio em Viana do Castelo, também em Portugal, evidenciando a excelência dos programas para alunos com mais de 50 anos e as ações de surfe adaptado.
O trabalho com o surfe adaptado e a valorização do público 50+ já havia rendido à Escola Radical de Surfe de Santos o prestigiado Aloha Award 2025, concedido pela International Surfing Therapy Organization (ISTO).
Essa consistência faz de Santos um pilar na WSCN, que celebra 15 anos de atuação global e tem Cisco Araña como seu embaixador oficial no Brasil, ampliando a influência do modelo local.
Impacto na região
Mesmo sem a proximidade do litoral, moradores de Jundiaí e cidades vizinhas podem ver na experiência de Santos um farol inspirador. A conquista valida a ideia de que o investimento em programas sociais robustos, focados na saúde e bem-estar, pode gerar impacto e reconhecimento que ultrapassam fronteiras geográficas.
A visibilidade internacional obtida por Santos ressoa como um incentivo para que outras regiões, incluindo o interior paulista, avaliem o potencial de suas próprias vocações esportivas e de lazer. Isso estimula a busca por inovação em políticas públicas de inclusão em atividades físicas, adaptadas às realidades locais e aos diferentes públicos.
Das Primeiras Remadas ao Patrimônio Vivo
A história de sucesso se mede em números: mais de 50 mil pessoas já passaram pelas aulas das escolas públicas de surfe ao longo das décadas, testemunhando a transformação de vidas.
Localizada no Posto de Salvamento 2, na Praia da Pompeia, a Escola Radical oferece aulas de surfe e bodyboard para todas as idades, desde crianças até pessoas com mais de 80 anos.
Atualmente, cerca de 550 alunos estão ativos, com uma atenção especial ao público 50+, que encontra no esporte uma nova forma de viver e se manter ativo.
Um novo capítulo na inclusão foi escrito em 2020, com a inauguração da Escola Pública de Surfe Adaptado, no Posto 3, na Praia do Gonzaga. Esta unidade foi projetada para atender pessoas com os mais variados tipos de deficiência, consolidando Santos como uma verdadeira referência em acessibilidade esportiva.
Em um reconhecimento de sua importância sociocultural, as duas unidades — a Escola Radical, no Posto 2, e a Escola de Surfe Adaptado, no Posto 3 — foram declaradas Patrimônio Imaterial e Cultural de Santos em janeiro de 2025.
O Modelo que se Espalha pelo Litoral
Cisco Araña ressaltou a importância da parceria público-privada, envolvendo a Prefeitura, a Secretaria de Esportes (Semes) e a Blue Med, como pilar central para o sucesso e a longevidade dos projetos. Ele descreve o trabalho como “à frente do tempo, na vanguarda”.
A influência de Santos vai além de suas próprias praias. A cidade também colaborou ativamente para que outras localidades, como Itanhaém e Imbituba, pudessem integrar a Rede Mundial de Cidades do Surfe, expandindo o impacto do modelo santista.
Com um foco principal no público 50+ do Posto 2 e no surfe adaptado do Posto 3, as escolas agora somam quase 800 alunos, demonstrando a vitalidade e a capacidade de expansão do projeto.
“Esse prêmio é muito importante para mostrar ao mundo como se faz”, reforçou Cisco Araña, destacando o valor da validação internacional. A declaração de Patrimônio Imaterial e Cultural reforça que o projeto de Santos é um exemplo global, não apenas por sua infraestrutura, mas por seu profundo impacto social.
O Cenário Global da Inclusão Esportiva
A valorização de iniciativas como as de Santos insere-se em um movimento global de redefinição do papel do esporte nas cidades. A busca por comunidades mais saudáveis e cidades mais inclusivas deixou de ser uma tendência para se tornar uma prioridade.
Historicamente, o esporte muitas vezes foi associado apenas ao alto rendimento e à competição. Contudo, nas últimas décadas, a perspectiva ampliou-se para englobar o bem-estar coletivo e o acesso democrático a atividades físicas, independentemente da idade ou condição.
Este cenário é impulsionado por evidências científicas crescentes que atestam os múltiplos benefícios da prática esportiva regular na saúde mental, na socialização e na prevenção de doenças, impactando diretamente a qualidade de vida urbana.
Cidades que investem em programas adaptados e acessíveis, a exemplo de Santos, não apenas fortalecem o tecido social local, mas também se destacam como referências em planejamento urbano e inovação em políticas públicas.
O surfe, com sua simbologia de superação e conexão com a natureza, torna-se uma metáfora potente para a quebra de barreiras, incentivando uma cultura onde todos têm a chance de explorar novos horizontes e viver uma vida mais ativa e plena.



