Um cenário climático desafiador se desenha para o Brasil nos próximos anos, com projeções indicando um retorno de um El Niño de forte intensidade. Este fenômeno global, conhecido por alterar padrões de chuva e temperatura, promete redesenhar as operações de setores vitais, desde o campo até os portos.
Para antecipar e discutir esses desdobramentos, especialistas em clima, representantes do agronegócio e da cadeia portuária se reúnem em Santos. O encontro visa analisar as consequências para o ciclo 2026/2027 e como as empresas podem se preparar.
A Associação Comercial de Santos (ACS) organiza o “El Niño Day” na próxima quarta-feira (21), das 8h às 13h. Com o tema “O clima muda. O cenário também”, o evento foca na compreensão dos riscos e na busca por estratégias de mitigação.
Inscrições gratuitas estão abertas e podem ser realizadas online. O objetivo principal é proporcionar uma plataforma para que produtores, operadores e demais agentes econômicos identifiquem os possíveis efeitos sobre a economia regional e nacional.
O que esperar do “El Niño Super”: alertas e previsões
A abertura do evento, às 9h, trará o pesquisador José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Sua palestra abordará uma questão central: “El Niño: o que é? Por que será ‘super’?”.
O foco estará nos aspectos científicos do fenômeno e nas características que indicam uma intensidade acima da média para o período. Compreender essa dimensão é crucial para dimensionar os desafios à frente.
Às 10h, Lucas Carvalho, da Climatempo, detalhará os impactos específicos para o agronegócio brasileiro. As variações climáticas podem alterar profundamente o calendário de plantio e colheita de culturas essenciais.
Café, milho, soja e açúcar são algumas das commodities que sentirão os efeitos diretos das chuvas irregulares ou secas prolongadas. A produtividade e a qualidade desses produtos estarão sob um novo regime climático.
Impacto na região
Mesmo que o evento ocorra em Santos, as consequências de um El Niño intenso se estendem por todo o estado de São Paulo, afetando diretamente moradores de cidades como Jundiaí e sua região. A agricultura local e a logística de transporte de mercadorias podem sofrer com eventos extremos.
Jundiaí, com sua relevante produção agrícola e papel estratégico no corredor logístico, enfrentará desafios na gestão hídrica, na segurança alimentar e na manutenção de sua infraestrutura. O custo de vida, influenciado por preços de alimentos e transportes, também pode ser impactado.
Do campo ao porto: a cadeia produtiva em xeque
Após o intervalo, a programação segue às 11h com Rodrigo Moreira Albano da Silva, da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé). Ele explorará os reflexos do El Niño na rotina do campo, desde o plantio até a complexa etapa da colheita.
As decisões no campo são diretamente influenciadas pelas condições climáticas, e a previsão de um El Niño intenso força agricultores a repensar suas estratégias. A adaptabilidade será a chave para minimizar perdas e garantir a produção.
Comércio e logística marítima na berlinda
Às 11h45, o debate se aprofundará na relação entre clima, comércio exterior e as operações portuárias, essenciais para a economia. O capitão-tenente Fellipe Romão Sousa Correia, da Marinha do Brasil, apresentará um panorama desafiador.
Ele abordará os possíveis impactos do fenômeno no transporte marítimo mundial e, mais especificamente, nos portos do Atlântico Sul, incluindo o de Santos. Alterações em rotas e atrasos podem gerar custos adicionais e gargalos logísticos.
A infraestrutura portuária, vital para o escoamento da produção agrícola e industrial brasileira, pode ser sobrecarregada por eventos climáticos extremos. A eficiência na movimentação de cargas torna-se ainda mais crítica.
Cidades em xeque: a nova realidade climática
O último painel do “El Niño Day”, com início às 12h30, expande a discussão para o cenário urbano. As cidades, muitas vezes vistas como distantes dos efeitos do clima, são profundamente impactadas por suas mudanças.
Fernanda Alarcon, da área de Mudanças Climáticas da Prefeitura de Santos, e a professora Alexandra F. P. Sampaio, da Unisanta, discutirão os efeitos do El Niño nos municípios. O foco será nos desafios urbanos.
Desastres naturais, como enchentes e deslizamentos, podem ser intensificados. A gestão de recursos hídricos e a manutenção da infraestrutura urbana se tornam prioridades incontornáveis diante deste panorama.
O encontro em Santos pretende equipar os setores com informações e estratégias para enfrentar os cenários climáticos de 2026 e 2027. A troca de conhecimentos é vista como fundamental para a resiliência econômica regional.
Desvendando o El Niño: um olhar sobre o passado e o futuro
O El Niño não é um fenômeno novo; sua ocorrência é cíclica, resultado de interações complexas entre o oceano Pacífico e a atmosfera. Ao longo da história, ele já causou secas severas em algumas regiões e inundações catastróficas em outras, alterando economias e vidas.
A particularidade do atual alerta para o ciclo 2026/2027 reside na projeção de uma intensidade “super”, indicando efeitos potencialmente mais amplos e dramáticos. A ciência climática evoluiu, permitindo previsões mais acuradas e, consequentemente, uma maior capacidade de planejamento.
Por que isso importa agora? Com a crescente globalização e a interdependência das cadeias produtivas, um evento climático em uma parte do mundo rapidamente ressoa em todo o planeta. A produção de alimentos, o custo de vida e a estabilidade econômica global estão diretamente ligados a essas flutuações.
A discussão em Santos não é apenas sobre um evento pontual, mas sobre a necessidade contínua de adaptação e inovação diante de um clima em constante transformação. As estratégias desenvolvidas hoje serão cruciais para a resiliência das comunidades e da economia nos anos que virão.



