A aparente tranquilidade de um bairro residencial em Santa Fé do Sul escondia um centro de operações criminosas que desmoronou após investigações da Polícia Civil. Três indivíduos foram condenados, com penas que, somadas, ultrapassam a marca de 24 anos de reclusão.
A sentença, divulgada em 9 de junho de 2026 pelo juiz Felipe Ferreira Pimenta, da 2ª Vara de Santa Fé do Sul, detalhou como o grupo mantinha um esquema sofisticado de armazenamento, fracionamento e venda de entorpecentes na Cohab Eldorado, expondo a complexidade do tráfico local.
O Desmonte de um Esquema Audacioso
Nivaldo Ribeiro, apontado como figura central na organização, recebeu a pena mais severa: 15 anos e 7 meses de reclusão em regime inicial fechado.
Ele era o responsável por armazenar o atacado das drogas e por portar munições de uso permitido, conforme indicam as investigações da Polícia Civil na região noroeste.
Os corréus Kauãn Vitor Panula Camilo dos Santos e Josiane dos Santos Rodrigues também foram sentenciados. Kauãn recebeu 5 anos e 4 meses, enquanto Josiane foi apenada com 4 anos e 2 meses.
As penas foram definidas em regimes compatíveis com as participações de cada um na engrenagem criminosa. A decisão judicial evidencia a rigor do sistema contra organizações dedicadas ao tráfico.
A “Triangulação” que Tentou Ludibriar a Lei
A Polícia Civil, após intensas investigações, revelou que os acusados operavam uma distribuição de drogas com logística peculiar. O esquema de “triangulação” utilizava três residências próximas na Rua Perobas.
Cada imóvel tinha uma função específica para tentar despistar as autoridades. Essa rede integrada facilitava o fluxo dos entorpecentes, do armazenamento à venda final, dificultando a ação policial.
O Depósito Central e os Riscos Elevados
A casa de Nivaldo, no número 30 da Rua Perobas, funcionava como o depósito principal. No local, os agentes civis localizaram uma expressiva quantidade de material ilícito durante os mandados de busca e apreensão.
Foram apreendidos 801,41g de cocaína e 428,46g de crack, além de uma balança de precisão com resquícios de pó e munições de calibres .38 e .22. Nivaldo foi preso em flagrante e confessou a posse.
A Fuga Alucinante e o Álibi Contestável
No imóvel de número 60, Kauãn Vitor utilizava um sistema de vigilância eletrônica com duas câmeras voltadas para a rua. Ao monitorar a aproximação das viaturas, ele tentou uma fuga desesperada.
Subindo pelos telhados das casas vizinhas, Kauãn foi perseguido pelo investigador Vagner Lopes dos Santos. Durante a fuga, uma telha de garagem cedeu, fazendo com que ele caísse e ferisse a perna.
Na corrida, o acusado deixou cair dezenas de porções de crack e cocaína, espalhando os entorpecentes pelos telhados e calçadas. O episódio demonstra a audácia e o desespero na tentativa de escapar.
A defesa de Kauãn apresentou um álibi baseado em uma certidão forense, alegando que ele estava no fórum na mesma data. O magistrado, contudo, rechaçou a tese.
O expediente público do fórum encerrava às 17h, exatamente o mesmo horário em que a operação policial foi deflagrada na Cohab. A incompatibilidade de horários afastou qualquer dúvida.
Impacto na região
A localização estratégica do complexo de tráfico, nas imediações da linha férrea, de uma quadra de esportes comunitária, da Igreja Congregação Cristã do Brasil e da sede do CRAS, amplifica as consequências para Santa Fé do Sul.
Esses pontos de intenso fluxo social e estudantil tornam o impacto da criminalidade ainda mais pernicioso para os moradores. Crianças, jovens e famílias frequentam diariamente esses locais.
A presença de um esquema de venda de entorpecentes tão próximo a espaços públicos levanta sérias preocupações sobre a segurança pública local. A condenação serve como um alerta para a vigilância e o combate ao tráfico.
Dinheiro Escondido e a Venda Direta
Josiane dos Santos Rodrigues foi presa em flagrante no terceiro endereço vistoriado, o número 51 da Rua Perobas. Embora não houvesse entorpecentes em sua residência, uma quantia chamou a atenção.
Os policiais localizaram R$ 120,00 em notas trocadas, ocultados no interior do relógio medidor de energia elétrica, envoltos em sacolas plásticas. Josiane justificou que o dinheiro seria para pagar cortinas.
A explicação foi classificada pelo juízo como inverossímil, ou seja, pouco crível. A prática é típica de ocultação de troco vindo do comércio ilegal de entorpecentes.
O que a Condenação em Santa Fé do Sul Revela
A desarticulação deste esquema de tráfico em Santa Fé do Sul ilumina uma realidade complexa presente em diversas cidades brasileiras. O crime organizado se adapta e busca caminhos para operar nas comunidades.
A forma como os criminosos tentam ludibriar as autoridades, utilizando sistemas de vigilância e camuflando a logística em diferentes endereços, demonstra a constante evolução das táticas ilícitas.
A decisão judicial, que valida a causa de aumento de pena pela proximidade a locais de grande circulação, reforça a gravidade de crimes que afetam diretamente o convívio social e a segurança de populações vulneráveis.
Este caso sublinha a importância do trabalho investigativo da Polícia Civil e do rigor do sistema judiciário em enfrentar o narcotráfico. Ações como esta são cruciais para proteger o tecido social e garantir um ambiente mais seguro para todos.