A consagração internacional no surfe de ondas gigantes, embora celebrada com troféus e aplausos, trouxe consigo uma controvérsia crucial para dois atletas brasileiros. Vencedores do Big Wave Challenge, o “Oscar” da modalidade, Rodrigo Koxa e Michelle des Bouillons agora exigem clareza sobre os números que podem redefinir os recordes mundiais.
As ondas que garantiram o reconhecimento global, surfadas na icônica Praia do Norte, em Nazaré, Portugal, em dezembro de 2025, trazem consigo uma promessa e um desafio. Medições preliminares indicam que ambos podem ter superado as marcas históricas, mas a homologação esbarra na transparência dos critérios.
Brasileiros brilham no “Oscar” do surfe, mas recordes estão sob questionamento
A cerimônia do 26º Big Wave Challenge, realizada em Newport Beach, na Califórnia, coroou Koxa na categoria masculina e Michelle na feminina. Eles conquistaram os prêmios pelas maiores ondas da temporada, um feito que ecoou no cenário esportivo global.
As dimensões preliminares apontam 29,15 metros para a onda de Koxa e 24,99 metros para a de Michelle. Se confirmadas pelo Guinness World Records, essas marcas superariam os atuais detentores: o alemão Sebastian Steudtner, com 26,21 metros em 2020, e a brasileira Maya Gabeira, com 22,4 metros no mesmo ano.
A busca por essa validação, contudo, é acompanhada por um pedido firme por mais clareza. Koxa solicitou à organização a apresentação de imagens de alta resolução e a explicação das referências utilizadas para determinar o tamanho das ondas.
O surfista de 47 anos, que já havia entrado para o Guinness em 2018 com uma onda de 24,38 metros, expressou sua visão: “Acho que o evento é incrível, é demais, mas precisa de mais clareza. O que precisa para a evolução do esporte é que compartilhem a medição”.
Michelle des Bouillons compartilha da mesma inquietação. A atleta, que também busca o reconhecimento de sua marca, afirmou estar em contato com o Guinness para entender o processo e não descarta a via judicial. “Estou na busca do recorde. Estou entrando de uma forma mais séria, coloquei meus advogados para trabalhar em cima disso”, revelou.
A surfista criticou a falta de informações sobre as alturas durante a premiação, classificando a situação como uma “falta de profissionalismo” por parte da organização do evento.
A complexidade por trás da medição de ondas gigantes
Os critérios de medição são um tema recorrente de debate no universo do surfe de ondas grandes. Uma das técnicas mais tradicionais emprega fotografias e vídeos, usando o próprio atleta como referência de escala para estimar a altura entre a base e a crista da onda.
A discussão se aprofunda ao considerar o trecho efetivamente surfado e o controle do atleta ao longo da descida. O regulamento de recordes da World Surf League (WSL) em 2024, por exemplo, exigia que o surfista completasse a parte principal da onda sob total controle.
Em setembro de 2025, a WSL anunciou a transferência da verificação dos recordes para o Guinness, com a colaboração do Big Wave Challenge Group, liderado pelo jornalista norte-americano Bill Sharp. Essa mudança visava padronizar e dar mais credibilidade ao processo.
As jornadas de resiliência e a paixão pelas ondas extremas
Rodrigo Koxa: O renascimento de um gigante das águas
Para Rodrigo Koxa, o segundo troféu simboliza a validação de uma escolha de vida. Oito anos após sua primeira vitória, o paulista voltou ao pódio pela onda surfada em 19 de dezembro de 2025, superando os finalistas Lucas Chumbo e Clément Roseyro.
“Essa conquista foi surreal. Oito anos depois da minha primeira vitória, que era o sonho da minha vida. Eu não imaginava que fosse viver isso mais uma vez, aos 47 anos. É um projeto de vida que deu certo”, celebrou o atleta, que faz parte do time GoBigger.
Koxa recordou sua infância, quando chegou a treinar em clubes de futebol com o sonho de jogar no Corinthians. Sua decisão de seguir o caminho das ondas gigantes foi desafiadora, resultando na perda de patrocínios e em uma temporada no exterior para ganhar experiência.
“Hoje eu olho para trás e vejo como foi importante ter tido uma escolha, uma estratégia. Acho que eu quebrei o protocolo. A conquista é muito legal, mas o processo é o mais valioso”, ponderou o bicampeão.
Ele descreveu a onda premiada neste ano como ainda mais perigosa que a do recorde de 2018. Uma descida em área mais rasa, com uma onda mais pesada e maior velocidade da prancha, intensificou o desafio. “Se eu tivesse que escolher, essa foi a onda que mais senti medo de surfar”, confessou.
Impacto na região
Nascido em Jundiaí e hoje radicado em Guarujá, Rodrigo Koxa personifica a conexão entre o interior e o litoral paulista com o esporte. Sua trajetória inspira jovens de cidades sem mar a buscarem seus sonhos, mostrando que a dedicação pode transpor barreiras geográficas.
O retorno triunfal de Koxa ao Guarujá, no dia de seu aniversário de 47 anos, foi um evento de grande comoção local. Recebido por amigos e autoridades, desfilou em carro aberto do Corpo de Bombeiros, evidenciando o orgulho da comunidade com seu “herói” das ondas. Essa celebração reforça o laço entre os atletas e suas comunidades de origem e residência.
Michelle des Bouillons: Parceria essencial nas águas extremas
Michelle des Bouillons, de 36 anos, também conquistou seu segundo título na categoria, superando Justine Dupont e Michaela Fregonese. Sua onda premiada foi surfada em 13 de dezembro de 2025, consolidando sua posição entre as melhores do mundo.
A surfista atribui seu sucesso a uma década de dedicação ao surfe de ondas gigantes, sempre ao lado de seu marido, Ian Cosenza. Foi ele quem pilotou o jet ski responsável pelo reboque na técnica de tow-in, crucial para ganhar a velocidade necessária em ondas dessa magnitude.
“Para pegar uma onda dessa tem que ser trabalho em equipe. É impossível fazer isso sozinho”, enfatizou Michelle, destacando a importância da colaboração.
A complexidade da segurança nesse esporte exige uma estrutura de apoio robusta, que inclui pilotos de resgate em jet skis e um observador no alto da falésia, o spotter. Este profissional monitora o movimento das ondas e fornece informações vitais à equipe na água, sendo um pilar fundamental para a segurança.
Mesmo com a pendência do recorde, Michelle valoriza imensamente a vitória: “Um feito não diminui o outro. Conseguimos vencer a categoria de maior onda, é um reconhecimento enorme e estou superfeliz com essa conquista.”
O Fenômeno de Nazaré: O gigante que atrai os maiores desafios
As ondas colossais que seduzem surfistas de todo o planeta à Praia do Norte, em Nazaré, Portugal, têm uma explicação geológica fascinante: o “Canhão de Nazaré”. Trata-se de uma ravina submarina que se estende por aproximadamente 230 quilômetros, atingindo profundidades superiores a 5.000 metros.
Este relevo particular do fundo do mar age como um amplificador natural. As ondulações do Atlântico se propagam mais rapidamente sobre as águas profundas do canhão do que nas áreas rasas adjacentes. Essa diferença modifica sua direção e concentra energia perto da costa, elevando dramaticamente a força e a altura das ondas.
Correntes costeiras também podem contribuir para intensificar o fenômeno, que tipicamente ocorre entre os meses de outubro e março. Nazaré ganhou projeção global em 2011, quando o americano Garrett McNamara surfou uma onda posteriormente homologada em 23,77 metros, então um recorde mundial.
Desde então, o surfe de ondas gigantes transformou-se em um dos principais atrativos turísticos da região. A experiência de Nazaré, inclusive, inspira iniciativas no Brasil. Em 2024, o município português firmou parceria com Jaguaruna, em Santa Catarina, visando o turismo esportivo e a organização de competições de surfe.
Novos horizontes: A eterna busca por limites e reconhecimento
O surfe de ondas gigantes transcende a mera competição esportiva, posicionando-se como uma exploração constante dos limites humanos e naturais. A modalidade evoluiu de forma exponencial, impulsionada por inovações tecnológicas como os jet skis, que permitem a técnica de tow-in, e equipamentos cada vez mais sofisticados, que garantem maior segurança e desempenho.
A discussão atual sobre a transparência nas medições de onda reflete a maturidade do esporte e a busca por validação em um cenário onde cada metro conta. À medida que os atletas empurram os limites do que é possível, a precisão e a clareza nos critérios de reconhecimento tornam-se essenciais para a credibilidade e o futuro da modalidade.
Este não é apenas um debate técnico; é uma questão que afeta diretamente o legado de atletas que dedicam suas vidas à superação. A homologação de um recorde mundial não é somente um número, mas a coroação de anos de sacrifícios, treinamentos intensos e uma coragem quase inumana diante das forças da natureza.
Por que essa conversa importa agora? Porque ela sublinha a urgência de sistemas que possam acompanhar a grandiosidade dos feitos. Novos recordes são constantemente perseguidos, e a expectativa é que a tecnologia e a ciência continuem a aprimorar as formas de capturar e validar esses momentos extraordinários, garantindo que a história seja contada com a máxima exatidão.



