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Folha Jundiaiense

Rio de Janeiro eleva Trapiá da Rocinha a patrimônio cultural imaterial.

O Restaurante Social Trapiá, na comunidade da Rocinha, zona sul do Rio de Janeiro, foi formalmente declarado patrimônio cultural de natureza imaterial do município. A medida reconhece um bastião da culinária nordestina com 22 anos de história, empregando cerca de 50 pessoas e cimentando a Rocinha como destaque no turismo carioca.

Localizado em São Conrado, o Trapiá transcende a função de um mero restaurante. Ele representa um ponto de encontro, um elo cultural. Sua cozinha, fiel às raízes nordestinas, serve não apenas refeições, mas também um pedaço da identidade para muitos moradores, migrantes e visitantes da Rocinha.

A pesquisa que o elegeu como o mais tradicional da comunidade não surpreendeu quem frequenta suas mesas. Ali, pratos como baião de dois, carne de sol e buchada se tornaram mais do que alimento; são símbolos de resistência cultural, de uma memória viva que se recusa a ser esquecida.

Cinquenta famílias dependem diretamente do funcionamento do Trapiá. Este reconhecimento legal oferece uma camada extra de proteção a esses empregos, a essa tradição, em um ambiente socioeconômico complexo.

O Valor do Reconhecimento Oficial

A Lei 9.427/2026, publicada no Diário Oficial na sexta-feira (22), oficializa o status. A declaração de patrimônio imaterial não implica apenas um título honorífico. Abre portas para políticas públicas de preservação, incentivos fiscais e linhas de fomento específicas, garantindo a manutenção das práticas, saberes e tradições associados ao restaurante.

A comunidade ganha um ativo cultural com proteção legal. Isso significa mais segurança para um negócio enraizado em um território que enfrenta desafios cotidianos.

O vereador Flávio Valle, presidente da Comissão de Turismo da Câmara Municipal, articulou a iniciativa. Para Valle, a ação valoriza a cultura da favela e fortalece a identidade positiva do território.

“O Trapiá é parte da identidade da Rocinha”, declarou Valle. “Reconhecê-lo como patrimônio imaterial é também valorizar a Rocinha como referência de turismo comunitário e mostrar que o Rio se fortalece quando preserva sua identidade.”

A fala do vereador alinha-se a uma visão de que o desenvolvimento do turismo no Rio passa, necessariamente, pelo reconhecimento e investimento nas suas manifestações culturais mais autênticas, inclusive as encontradas em suas favelas.

A Força do Turismo na Rocinha

A Rocinha já figura entre os destinos turísticos de peso no Rio de Janeiro. Dados do Observatório do Turismo Carioca, ligado à Secretaria Municipal de Turismo (SMTUR-Rio), confirmam a tendência. Em janeiro de 2026, a comunidade recebeu mais de 41 mil visitantes.

Um salto de 37% em comparação com o mesmo mês do ano anterior. O ano passado encerrou com um fluxo de turistas 34% maior na Rocinha. O destaque foi o crescimento de 93% no número de visitantes estrangeiros.

Esses números desenham um cenário de crescente interesse. O turismo na Rocinha, muitas vezes guiado por moradores, oferece uma perspectiva diferente do Rio, longe dos cartões-postais tradicionais. A visitação gera renda para guias, comerciantes e, agora, para empreendimentos como o Trapiá, que se beneficiam do fluxo.

O reconhecimento oficial do restaurante pode catalisar ainda mais esse movimento. Garante maior visibilidade e, potencialmente, mais investimento no setor. Isso se traduz em mais empregos, mais dinheiro circulando localmente.

Mas o influxo de turistas não vem sem seus desafios. A gestão do crescimento, a preservação da autenticidade e o controle sobre os benefícios gerados são questões constantes para a comunidade e para o poder público. O Trapiá é um exemplo de como a cultura pode ser um motor econômico, mas também um elemento central na manutenção da identidade de um lugar que busca se afirmar.

Contexto

O reconhecimento de bens culturais, como o Restaurante Social Trapiá, através de sua inscrição como patrimônio cultural imaterial, é um instrumento legal que busca salvaguardar manifestações que não possuem caráter material, como saberes, celebrações e formas de expressão. No Brasil, esta prática ganhou força com a Constituição de 1988 e a criação do Inventário Nacional de Referências Culturais pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Para comunidades como a Rocinha, a formalização de seu patrimônio representa um passo na valorização de sua história e na promoção do desenvolvimento socioeconômico através da cultura e do turismo. A medida se insere em um debate mais amplo sobre o papel das favelas na economia criativa e turística do Rio de Janeiro, e a necessidade de políticas que conciliem a modernização com a preservação de identidades locais.

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