Dez Anos de Brexit: Reino Unido Enfrenta Economia Menor, Instabilidade Política e Amplo Arrependimento
LONDRES — Dez anos após o referendo histórico que selou a saída do Reino Unido da União Europeia, o país amarga as consequências econômicas e políticas de uma decisão que, inicialmente, previa um choque imediato, mas que se materializou como um desgaste gradual e persistente. As advertências governamentais de 2016 sobre um “choque imediato e profundo” na economia mostraram-se apenas imprecisas no tempo: economistas agora concordam que o Brexit prejudicou significativamente a nação, com custos acumulados que superam amplamente quaisquer benefícios.
A turbulência não se limita ao campo econômico. O cenário político britânico vive uma instabilidade crônica. O Reino Unido prepara-se para o seu sétimo primeiro-ministro desde o plebiscito de 23 de junho de 2016, uma sucessão acelerada de lideranças, impulsionada pelos impactos do Brexit e pela busca por um rumo. A mais recente reviravolta ocorre após o anúncio da renúncia de Keir Starmer na segunda-feira, realçando a volatilidade do poder no país.
Este ambiente de incerteza alimentou um sentimento generalizado de arrependimento entre a população. Pesquisas recentes indicam que quase metade dos britânicos avalia o Brexit como pior do que o esperado, um aumento notável em comparação com cinco anos atrás. Outro levantamento revela que pouco mais da metade da população agora apoiaria um retorno à União Europeia, indicando uma profunda mudança na percepção pública sobre a decisão que redefiniu o futuro do país.
O Que Está em Jogo: Impacto na Vida dos Cidadãos e no Cenário Global
As ramificações do Brexit transcendem os números macroeconômicos e impactam diretamente a vida dos cidadãos britânicos, o mercado e o posicionamento global do Reino Unido. Uma economia menor significa menos recursos para serviços públicos essenciais como saúde e educação, além de um crescimento mais lento no padrão de vida da população. Para as empresas, as novas barreiras comerciais elevam custos, reduzem a competitividade e podem limitar a disponibilidade de produtos e serviços para os consumidores.
No cenário internacional, a saída da União Europeia reconfigurou alianças e o poder de barganha do Reino Unido, gerando incertezas sobre seu papel em questões globais. A decisão tomada há uma década continua a moldar a realidade diária de milhões de pessoas e a trajetória de uma das maiores economias do mundo, tornando o entendimento de seus efeitos mais crucial do que nunca. Medir o custo preciso do Brexit é complexo, dada a concomitância de outros choques globais como a pandemia de covid-19, tarifas do ex-presidente dos EUA Donald Trump e conflitos na Ucrânia e no Irã. No entanto, relatórios recentes elucidam o impacto econômico da retirada do bloco.
Economia Britânica: Um Crescimento Aquém do Potencial Pós-Brexit
Em 2016, a projeção do governo britânico de uma ruptura imediata com os laços comerciais da União Europeia (UE) não se concretizou. Houve anos de complexas negociações, e o Reino Unido deixou oficialmente o bloco apenas no final de janeiro de 2020. Mesmo assim, um período de transição de 11 meses manteve as regras de comércio inalteradas, com as mudanças efetivas ocorrendo somente em 2021 — quatro anos e meio após a votação. Essa dilatação dos prazos dificultou a mensuração dos efeitos econômicos diretos.
Apesar dos desafios em isolar o “efeito Brexit” de outros fatores como a pandemia e a crise energética global, o consenso entre especialistas é claro. Um estudo amplamente citado, liderado por Nicholas Bloom, professor de Stanford, estimou que o Brexit reduziu o Produto Interno Bruto (PIB) do Reino Unido em até 8%. Este impacto, conforme o estudo, se acumulou gradualmente ao longo do tempo, em vez de ser um choque abrupto. Embora a metodologia deste trabalho seja debatida, um acordo mais amplo sugere que a economia britânica hoje é de 4% a 6% menor do que seria caso o país tivesse permanecido na UE.
Esta “perda relevante de produção” traduz-se em consequências tangíveis. Significa menor arrecadação tributária para financiar gastos públicos essenciais, como o sistema de saúde (National Health Service – NHS) e programas sociais. Além disso, implica uma melhora mais lenta no padrão de vida da população, com menos oportunidades de emprego e investimento. O Office for Budget Responsibility (OBR), órgão independente que fiscaliza as contas públicas do Reino Unido, estima que o Brexit reduzirá a produtividade de longo prazo do país em 4%. Este é um problema grave para uma economia que já apresentava sinais de desaceleração desde a crise financeira global de 2008, comprometendo a capacidade de inovação e crescimento sustentável.
Barreiras Comerciais Elevadas e Acordos Substitutos Insuficientes
A maior parte do custo econômico do Brexit decorre do aumento do atrito comercial com um mercado de 450 milhões de pessoas localizado na porta do Reino Unido. O acordo comercial firmado em 2021 conseguiu manter as tarifas majoritariamente em zero, um ponto positivo. Contudo, introduziu uma série de outras barreiras ao comércio que se mostraram onerosas e burocráticas: mais papelada, maior fiscalização de fronteira e novas regras regulatórias que antes eram harmonizadas com o bloco europeu.
Segundo o Centre for European Reform (CER), um influente grupo de pesquisa, o Brexit resultou em uma redução de cerca de 12% nas exportações britânicas de bens e serviços para a União Europeia, e em uma queda aproximada de 16% nas importações vindas do bloco. As exportações agrícolas e de alimentos foram particularmente atingidas, registrando uma diminuição próxima de 30%. Para produtores de frutos do mar, por exemplo, as inspeções extras nas fronteiras tornaram as exportações inviáveis financeiramente, inviabilizando negócios tradicionais.
Pequenas e médias empresas (PMEs) sentiram o impacto de forma mais aguda, com muitas reduzindo seus esforços para conquistar clientes europeus devido ao aumento do tempo e dos custos operacionais. Em contrapartida, o comércio de serviços do Reino Unido apresentou um desempenho melhor. Contudo, a maioria dos economistas atribui essa resiliência à pandemia de covid-19, que impulsionou a demanda por serviços digitais e remotos, beneficiando prestadores de serviços já consolidados no país, como consultorias e escritórios de advocacia, em vez de ser um benefício direto do Brexit.
Apesar de o Brexit ter concedido ao Reino Unido a liberdade para negociar seus próprios acordos comerciais — substituindo os tratados antes definidos pela União Europeia — esta estratégia não se mostrou um substituto eficaz. Desde a saída do bloco, o país assinou 39 novos acordos cobrindo 72 nações. No entanto, estes acordos não foram capazes de compensar a perda do volume de comércio com o bloco europeu. A Europa continua sendo, de longe, o maior parceiro comercial do Reino Unido, respondendo por mais de 40% do comércio total do país, um nível apenas ligeiramente inferior ao pré-referendo.
A avaliação do próprio Office for Budget Responsibility é contundente: em suas projeções regulares, o órgão simplesmente assume que os novos acordos com países de fora da União Europeia “não terão impacto material” na economia britânica a longo prazo. Isso destaca a dificuldade em replicar a profundidade e a escala do acesso ao mercado único europeu.
Empresas Enfrentam Efeitos Prolongados e Reconfiguração da Imigração
Um dos primeiros e mais significativos impactos econômicos do Brexit foi o congelamento do investimento empresarial. Companhias, tanto nacionais quanto estrangeiras, recuaram diante da incerteza gerada pelas longas negociações comerciais e pela subsequente instabilidade política. Embora o investimento tenha retomado um crescimento, economistas afirmam que o ritmo é menor do que poderia ter sido, o que representa uma perda de oportunidades de expansão, inovação e criação de empregos.
O National Institute of Economic and Social Research, um influente think tank independente, recentemente concluiu que a incerteza persistente do Brexit reduziu o investimento empresarial de longo prazo em aproximadamente 4%. Esse declínio impacta a competitividade das empresas britânicas e sua capacidade de se modernizar e expandir em um mercado global cada vez mais acirrado. Mas nem todos saíram perdendo. Anton Spisak, pesquisador sênior do Centre for European Reform, aponta que consultores, advogados e despachantes aduaneiros se beneficiaram da nova complexidade regulatória. “As profissões e setores que se beneficiam são consultores, advogados e provavelmente despachantes aduaneiros,” disse Spisak. No entanto, ele pondera que, no conjunto, o Brexit teve um “efeito muito negativo” sobre a economia.
Outro grande impacto ocorreu na migração. Longe de reduzir a imigração, como muitos defensores do Brexit propunham, houve uma forte entrada de pessoas de países de fora da União Europeia. Esses novos migrantes enfrentam exigências diferentes de visto e, frequentemente, possuem perfis profissionais distintos. Essa mudança está remodelando o mercado de trabalho britânico.
Setores como hotelaria, processamento de alimentos, saúde e assistência social, que tradicionalmente dependiam de trabalhadores da UE, passaram a enfrentar custos extras e disrupções significativas. A adaptação a essa nova força de trabalho e a superação da escassez em certas áreas são desafios complexos. “Estamos apenas começando a entender como essa mudança profunda nos padrões de imigração do Reino Unido pós-Brexit vai se desenrolar,” observou Sarah Hall, geógrafa econômica da Universidade de Cambridge e diretora-adjunta da U.K. in a Changing Europe, um think tank.
Londres: Um Centro Financeiro Resiliente, mas com Perdas Silenciosas
Em 2016, o setor financeiro britânico opôs-se veementemente ao Brexit, temendo que a saída do bloco ameaçasse o papel de Londres como principal porta de entrada para a Europa e um dos maiores centros financeiros globais. Uma década depois, a cidade, de fato, conseguiu manter sua posição de maior centro financeiro do continente.
Nenhuma outra cidade europeia conseguiu consolidar-se como destino preferencial e substituir Londres em sua totalidade, segundo Hall. Contudo, a cidade perdeu partes relevantes de seus negócios. Uma fatia significativa das negociações de ações foi transferida para Amsterdã, enquanto parte da gestão de ativos migrou para Dublin. Esse movimento, Hall descreve como um “pneu esvaziando devagar”. Em vez de uma mudança abrupta e espetacular, o que se observa é uma série de transferências graduais e, cada vez mais, novas vagas de trabalho que simplesmente deixam de ser abertas em Londres, optando por outras cidades europeias.
O Futuro da Relação Reino Unido-UE: Impasse Político e o Custo de Oportunidade
Com a economia britânica pressionada por uma inflação persistente, uma dívida pública elevada e um custo de financiamento crescente, a ideia de reverter parte dos efeitos do Brexit torna-se cada vez mais atraente para muitos. O favorito para se tornar o próximo primeiro-ministro, Andy Burnham, tem sido crítico, classificando o Brexit como “prejudicial”, ecoando a crescente frustração pública.
No ano passado, o governo Starmer (referência ao Partido Trabalhista) tentou “resetar” a relação com a União Europeia, realizando uma cúpula com líderes europeus. No entanto, mais de um ano depois, o avanço tem sido lento. Outra cúpula, agendada para o mês seguinte, foi adiada pelos europeus após a renúncia de Starmer, evidenciando a fragilidade e a baixa prioridade política dessa reaproximação. Apesar de buscar uma relação mais próxima com a União Europeia, o Partido Trabalhista descartou um retorno ao mercado único e à união aduaneira, e também rejeita a volta da livre circulação de pessoas. Essas posições limitam drasticamente a profundidade de qualquer renegociação, já que são pilares fundamentais da integração europeia.
Analistas em Bruxelas também indicam que há pouco interesse em renegociar de forma profunda com o Reino Unido, dada a fadiga das negociações passadas e o foco do bloco em seus próprios desafios internos e globais. “Muita coisa pode mudar na próxima década,” disse Spisak, do Centre for European Reform, “mas ele não espera mudanças relevantes nos próximos dois ou três anos, antes da próxima eleição geral.”
Assim, os custos do Brexit devem continuar se acumulando. Spisak aponta que o maior deles talvez seja justamente o mais difícil de medir: o custo de oportunidade. “O custo mais importante do Brexit é o custo de oportunidade,” afirmou. “Ou seja, tudo o que deixou de acontecer por causa do Brexit.” Este conceito econômico refere-se aos benefícios que o Reino Unido poderia ter obtido ao permanecer na UE, como maior crescimento, atração de investimentos e influência geopolítica, mas que foram sacrificados pela decisão de sair.
Contexto
O Brexit representa a mais significativa transformação geopolítica do Reino Unido em décadas, redefinindo suas relações comerciais, políticas e sociais. A decisão de 2016, que se concretizou em 2020, gerou um debate contínuo sobre soberania, economia e identidade nacional. Uma década após o referendo, o país lida com um legado complexo de estagnação econômica, incerteza política e uma reavaliação constante de seu futuro, com implicações profundas para a estabilidade e prosperidade de seus cidadãos.