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Folha Jundiaiense

Rádio Nacional celebra 90 anos e marca inovações na história brasileira

A Rádio Nacional, um pilar da comunicação no Brasil, celebra 90 anos em 2026. Nascida em 1936, no Rio de Janeiro, a emissora surgiu com uma meta audaciosa: falar para uma nação continental, em sua maioria analfabeta, em uma época onde o rádio começava a moldar a identidade nacional e os aparatos eram privilégio de poucos.

Desde os primeiros dias, a programação da Rádio Nacional rompeu paradigmas.

Instalada no icônico Edifício A Noite, o primeiro arranha-céu da cidade, a estação já se destacava antes mesmo de sua estatização pelo governo de Getúlio Vargas, momento que marcou seu auge.

O Rádio e a Inclusão em um Brasil Analfabeto

O Brasil dos anos 1930 era um país com acesso limitado à informação. O Censo de 1940 revelaria 56% da população adulta analfabeta, um terreno vasto e virgem para o rádio. Enquanto jornais impressos dependiam da alfabetização, o rádio apresentava-se como o primeiro veículo de comunicação de massa capaz de alcançar e integrar essa parcela da população.

O professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), João Batista de Abreu, declarou: “O primeiro veículo de comunicação popular, de massa, a falar para o analfabeto foi o rádio”.

Contudo, o acesso aos receptores era um entrave. Um aparelho de rádio da época, do tamanho de uma geladeira, custava o equivalente a R$ 8 mil em valores atuais. Isso mostrava a dualidade do meio: potencial massivo, mas com barreira econômica.

Edifício A Noite: Modernidade e Lar da Nacional

A escolha do Edifício A Noite para sediar a emissora não foi aleatória. Símbolo da modernidade arquitetônica carioca, o prédio abrigou a Rádio Nacional por mais de sete décadas.

Alberto Taveira, arquiteto do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), afirmou que o edifício representou “uma mudança nos parâmetros dessa arquitetura”, transformando o Rio “em uma cidade americana, dos grandes arranha-céus”.

O imóvel pertencia ao mesmo grupo empresarial que adquiriu os equipamentos e a frequência da antiga Rádio Philips, rebatizando-a como Rádio Nacional. Hoje, o Edifício A Noite é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), reconhecido como patrimônio histórico e cultural.

A Transmissão Inaugural e Sua Pompa

Em 12 de setembro de 1936, às 21h, a PRE-8, Rádio Nacional do Rio de Janeiro, estreou. As primeiras notas de “Luar do Sertão” abriram a programação, seguidas pela voz de Celso Guimarães, primeiro diretor de broadcasting: “Alô, alô, Brasil! Aqui fala a Rádio Nacional do Rio de Janeiro!”.

O lançamento mobilizou a elite. Ministros de Estado, embaixadores e parlamentares compareceram ao evento de gala.

Cristiano Menezes, ex-diretor da emissora, lembrou: “Foi fantástico, havia um avião divulgando uma grande festa pela cidade. A Rádio Nacional surgiu com pompa e circunstância”.

A noite também registrou o discurso do presidente do Senado e uma bênção transmitida diretamente do Palácio São Joaquim, marcando a primeira transmissão externa da Nacional.

Ambição de Alcance Nacional

Apesar da concorrência de emissoras como a Mayrink Veiga, a Rádio Nacional nasceu com a meta de superar os limites regionais. O grupo A Noite sonhava em ser ouvida além do Rio de Janeiro.

Lia Calabre, pesquisadora da UFF, explicou a visão original: “Havia, desde o nascimento, com o grupo privado que a criou, uma ideia e um desejo de ter uma rádio de alcance nacional.” A consolidação desse alcance, chegando à Amazônia e ao Mato Grosso, ocorreria com a tecnologia de ondas curtas, já sob gestão estatal, mas o ideal de integração era intrínseco à sua fundação.

Inovações que Moldaram o Rádio Brasileiro

A estrutura inicial da Nacional era modesta, com menos de 30 funcionários divididos entre as seções artística e administrativa. A programação, fragmentada, cedia 15 minutos a cada profissional.

A chegada de Henrique Foréis Domingues, o Almirante, em 1938, transformou o panorama. Ele foi um dos arquitetos do conceito de “programa montado”, com planejamento detalhado, formatos novos e participações diversas a cada edição. Almirante, em suas próprias palavras, “fazia as vozes de homem, de mulher, de velho, de velha, de bêbado, de alemão, tudo isso”, mostrando a versatilidade exigida e a inovação que ele trouxe.

A música também passou por uma revolução. O maestro Radamés Gnattali experimentou novas formações instrumentais. Em um tempo onde apenas metade dos cantores interpretava música brasileira, Gnattali pavimentou um caminho.

O professor e compositor Henrique Cazes declarou: “A equipe toda era muito bem preparada, […] possibilitava a experiência. O Radamés sempre andando um pouco à frente, né?” Ele adicionou que Gnattali “adere um pouco ao modelo de harmonização e de menos enfeite no arranjo que depois se consagraria na Bossa Nova e, principalmente, na MPB.”

A Nacional também consolidou a ideia de uma grade de programação, oferecendo um cardápio variado de música, informação, esporte, publicidade e humor. Essa estrutura disciplinada e diversificada firmou-se como um padrão, redefinindo a experiência do ouvinte.

Contexto

A Rádio Nacional surgiu em um período de forte centralização política e busca por uma identidade nacional unificada sob a Era Vargas. A capacidade do rádio de superar barreiras geográficas e de alfabetização o tornou uma ferramenta poderosa para a disseminação de informações, cultura e valores, desempenhando um papel fundamental na formação da cidadania e na coesão do país. Sua longevidade reflete a profunda marca deixada na memória coletiva brasileira e sua capacidade de se adaptar às transformações sociais e tecnológicas, mantendo-se relevante como veículo de comunicação pública.

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