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Folha Jundiaiense

Queijo cottage some nos EUA: TikTok provoca escassez do produto.

Escassez Histórica: Queijo Cottage e Whey Protein Desaparecem das Prateleiras Americanas Diante de Demanda Explosiva por Proteína

Os Estados Unidos enfrentam uma escassez sem precedentes de queijo cottage e whey protein, produtos essenciais para a dieta de milhões de consumidores. Uma combinação de fatores, incluindo uma crescente obsessão por proteínas e a influência massiva das redes sociais, empurra a capacidade de produção da indústria de alimentos ao limite, deixando prateleiras vazias e gerando frustração entre os consumidores. A situação, reportada pelo New York Times e Wall Street Journal, revela um setor despreparado para o repentino e viral ressurgimento desses alimentos.

O queijo cottage, em particular, vive um “boom” impulsionado por criadores de conteúdo do TikTok, que popularizaram sua versatilidade e alto teor proteico. A marca Good Culture, uma das mais afetadas, tem seus estoques esgotados, levando fãs a comparar a corrida pelo produto a cenas de “Jogos Vorazes” nas redes sociais. Este cenário não se restringe ao cottage; o mercado de whey protein também sofre com a falta de matéria-prima, com impactos diretos nos preços e na disponibilidade.

A Revolução Proteica e o Renascimento do Queijo Cottage

Considerado por décadas um alimento dietético sem graça, o queijo cottage ressurge como um ingrediente cobiçado. Sua nova popularidade decorre de uma mudança cultural significativa: a priorização da proteína na alimentação. Consumidores americanos, influenciados por tendências de saúde e bem-estar, buscam ativamente maneiras de “maximizar a proteína” em suas refeições. O cottage, com seus aproximadamente 14 gramas de proteína por porção, tornou-se a solução ideal.

A versatilidade do produto é um dos pilares dessa ascensão. Criadores de conteúdo no TikTok demonstram o uso do queijo cottage em receitas inovadoras, desde sorvetes e smoothies até pães achatados, bagels e pratos de massa. Essa reinvenção culinária transformou a percepção do produto, que antes era majoritariamente associado a dietas restritivas e sem sabor. O engajamento online impulsiona uma demanda que a indústria de laticínios não consegue acompanhar.

Os números refletem essa transformação: as vendas de cottage ultrapassaram US$ 2 bilhões em 2025, um aumento estrondoso de 82% em relação ao final de 2022, segundo dados da Circana, uma empresa de pesquisa de mercado de Chicago. Este crescimento contrasta fortemente com o declínio observado a partir da década de 1980, quando o iogurte superou as vendas de cottage, e os fabricantes redirecionaram sua capacidade de processamento.

Crise na Cadeia de Suprimentos: O Desafio do Whey Protein

A escassez não se limita ao queijo cottage. O whey protein, outro pilar da alimentação rica em proteínas, também enfrenta sérias dificuldades de fornecimento nos Estados Unidos. O Wall Street Journal reporta que os produtores de whey operam em sua capacidade máxima, mal conseguindo atender a clientes antigos ou aqueles com contratos de longo prazo. A busca generalizada por proteínas afeta diversos segmentos da indústria alimentícia, que tenta incorporar o ingrediente em uma vasta gama de produtos.

Os impactos são visíveis nos preços e na disponibilidade. O quilo do concentrado 80 de whey protein registrou um aumento de 80%, enquanto o isolado de whey protein, uma versão mais processada e pura, teve sua cotação elevada em 50%. Esta disparada nos preços representa um desafio tanto para fabricantes de suplementos quanto para indústrias de alimentos que dependem do whey como aditivo proteico, encarecendo a produção e, consequentemente, o custo final para o consumidor.

A conjuntura atual força a reavaliação das estratégias de produção e alocação de recursos por parte das empresas. A demanda global por ingredientes proteicos, aliada à capacidade limitada de produção e às oscilações nos custos da matéria-prima (leite, para ambos os produtos), configura um cenário complexo para o setor de laticínios e de suplementos.

A Indústria de Laticínios em Colapso: Luta para Acompanhar a Demanda Viral

A velocidade com que a demanda por queijo cottage explodiu pegou a indústria desprevenida. Kevin Ellis, diretor executivo da Upstate Niagara Cooperative, uma empresa de laticínios sediada em Buffalo, ressalta que “ele [o queijo cottage] estava em declínio”. Ellis, em entrevista ao New York Times, afirma que “o TikTok transformou isso em uma tendência”, e as vendas se espalharam “como um incêndio florestal”, evidenciando o poder das redes sociais na formação de novos mercados e tendências de consumo.

Diante do aumento exponencial, a Upstate Niagara Cooperative começou a racionar o fornecimento de queijo cottage para as nove marcas que atende há aproximadamente três anos e meio. A situação exigiu uma resposta drástica.

Para tentar reverter o cenário de escassez, a cooperativa lança o maior projeto de investimento de sua história de 61 anos: um aporte de US$ 275 milhões. O objetivo principal é expandir a produção de seus produtos ricos em proteínas, incluindo queijo cottage, iogurte grego e skyr, um iogurte islandês. Este investimento estratégico visa elevar a produção anual de queijo cottage da empresa de 10 mil toneladas para impressionantes 41 mil toneladas.

Outro exemplo da corrida por aumento de capacidade é a Westby Cooperative Creamery. A empresa investe US$ 14 milhões em uma reforma para elevar sua capacidade de produção de queijo cottage de 6 mil toneladas para 11 mil toneladas por ano. Contudo, mesmo com o investimento, a companhia já esgotou o estoque de queijo cottage para os próximos três anos, incluindo a capacidade adicional que será gerada. Este cenário ilustra a magnitude do desafio e a defasagem entre a oferta e a demanda.

A Complexidade da Produção e o Impacto do Fenômeno Viral

Parte do desafio de expandir a oferta de queijo cottage reside na complexidade intrínseca de sua fabricação. Na Westby, o processo de fermentação do queijo cottage tradicionalmente leva 16 horas. A modernização em curso na empresa busca otimizar as cubas de fermentação, reduzindo esse tempo para oito horas, um avanço significativo, mas que ainda indica um processo relativamente demorado em comparação com outros produtos lácteos.

A Good Culture, uma empresa com sede no Texas, exemplifica o impacto direto das tendências virais. Recém-chegada ao mercado de queijo cottage, a empresa viu sua receita de vendas quadruplicar nos últimos três anos, atingindo mais de US$ 200 milhões em vendas no varejo em 2024.

No entanto, mesmo com esse crescimento meteórico, a capacidade de produção é um gargalo. Jesse Merrill, fundador e diretor executivo da Good Culture, lamenta: “Estamos atendendo a menos de 50% da demanda, porque não conseguimos acompanhar o ritmo”. A empresa luta para satisfazer o apetite crescente dos consumidores.

O ponto de virada para a Good Culture ocorreu quando a influenciadora de bem-estar Kenzie Akers postou um vídeo no TikTok preparando sorvete com o queijo cottage da empresa. O vídeo viralizou rapidamente, gerando uma onda de interesse e demanda. Merrill descreve que as pessoas estavam “enlouquecidas” com o produto, e as vendas “dispararam”. Este fenômeno destaca a imprevisibilidade do mercado moderno e a necessidade de as empresas estarem preparadas para picos de demanda impulsionados pela cultura digital.

O Que Está em Jogo: Inovação e Sustentabilidade da Cadeia de Laticínios

A escassez de queijo cottage e whey protein nos Estados Unidos não é apenas um problema de prateleiras vazias; ela expõe vulnerabilidades e desafios na cadeia de suprimentos de laticínios. O setor, historicamente mais lento em adaptar-se a mudanças bruscas de consumo, agora se vê obrigado a inovar e investir pesadamente em infraestrutura. O que está em jogo é a capacidade da indústria de responder com agilidade às novas tendências de saúde e bem-estar, que moldam rapidamente o perfil do consumidor.

Para o cidadão comum, a escassez significa preços mais altos e menor variedade, impactando diretamente o poder de compra e as escolhas alimentares. Para o mercado, observa-se uma reconfiguração: enquanto produtos tradicionalmente estáveis veem sua demanda disparar, a necessidade de investimentos massivos pode concentrar a produção em grandes players, ou, inversamente, abrir espaço para pequenas empresas ágeis que consigam escalar rapidamente. A sustentabilidade da oferta de proteínas, tanto para consumo direto quanto para a indústria de alimentos processados, torna-se um ponto crítico.

A longo prazo, a resposta da indústria a essa crise definirá sua resiliência e sua capacidade de prever e se ajustar a futuras ondas de consumo. A digitalização das tendências, impulsionada por plataformas como o TikTok, confere uma volatilidade sem precedentes ao mercado, exigindo estratégias de produção e marketing mais flexíveis e responsivas.

Contexto

A atual escassez de queijo cottage e whey protein nos EUA representa um marco nas tendências de consumo impulsionadas pela saúde e redes sociais. Após décadas de declínio, o queijo cottage vivencia um ressurgimento impulsionado pela busca por dietas ricas em proteínas, tendência que também pressiona a oferta de whey. A dificuldade da indústria em escalar a produção rapidamente reflete a complexidade da fabricação de laticínios e o poder disruptivo das plataformas digitais na modelagem da demanda de mercado.

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